“Há pacientes que saem sem andar”, afirma professor da USP sobre pós-Covid

A fraqueza muscular é um dos sintomas persistentes mais citados pelas pessoas que se recuperaram da Covid-19

atualizado 11/10/2020 10:09

Carlos Carvalho, Diretor da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor) do HCFMUSPHCFMUSP

No mundo todo, as sequelas da Covid-19 estão sendo investigadas. No entanto, como até o início de 2020, não se tinha nenhum conhecimento sobre a infecção causada pelo Sars-CoV-2, as respostas ainda são poucas.

O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo é um dos primeiros centros do Brasil a estudar os efeitos pós-Covid.

Cerca de 1,5 mil pacientes serão acompanhados pelo prazo de um ano para traçar quais são as sequelas deixadas pelo coronavírus, quanto tempo elas duram e se há um perfil de pacientes que corre mais risco de apresentá-las.

O Metrópoles conversou com o pneumologista Carlos Carvalho, diretor da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas e um dos líderes desta pesquisa.

Faz sentido falar em “Covid persistente” para os pacientes que apresentam sintomas mesmo depois de não ter o vírus no corpo?
Essa expressão ainda não pegou entre os profissionais de saúde do Brasil. Acho que ela pode trazer alguma confusão, pois as pessoas entenderão que a doença continua e, até onde sabemos, não é isso, já que os pacientes não têm mais o vírus no corpo. O que estamos vendo são pessoas três meses depois, seis meses depois, ainda relatarem sequelas da doença.

Quais são as queixas mais comuns dos pacientes que se recuperaram da Covid-19?
A fraqueza muscular é a queixa mais frequente. Há pacientes que saem do hospital com tanta fraqueza, que não conseguem nem andar. Nos casos mais graves, já damos encaminhamento de internação para reabilitação. Há casos em que não há necessidade de internação, mas será necessária uma reabilitação com profissionais especializados.

É possível prever o tipo de paciente que apresentará sequelas mais sérias?
No caso da letalidade, o perfil está bem estabelecido. Correm mais risco pacientes de mais idade do sexo masculino, obesos ou que já tenham alguma doença crônica no pulmão ou coração.

No casos das sequelas pós-Covid, não temos isso porque ainda não deu tempo. Agora é que as pessoas estão completando três, seis meses de curadas. A nossa pesquisa tentará justamente descobrir qual o percentual de pessoas que apresenta sequelas, por quanto tempo essas sequelas persistem e qual o perfil de paciente mais sujeito a isso.

Como está sendo feita a pesquisa?
A pesquisa parte de um grupo de 4 mil pessoas já atendidas pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo desde o início da pandemia. Neste grupo, foram selecionados cerca de 1,5 mil pessoas que terão a saúde acompanhada por um ano. A pesquisa já começou e temos visto os pacientes de três em três meses para avaliar as condições de saúde deles.

Qual o perfil de uma equipe de atendimento para pacientes pós-Covid?
Uma equipe com pneumologistas – o pulmão é o órgão mais afetado -, clínicos gerais, infectologistas e fisiatras. Outras especialidades podem ser acrescentadas de acordo com o caso específico dos pacientes. Nossa intenção é criar um protocolo de atendimento para os que se recuperaram e que esse protocolo sirva de base para uso em outras unidades de saúde.

Últimas notícias