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Saúde

“Guardar tudo” pode ser um transtorno de acumulação, alerta psicólogo

Família conta história de idosa de 82 anos e relata os desafios da convivência com acumuladora; Psicólogo ajuda como identificar transtorno

06/08/2026 02:00
CasarsaGuru/Getty Images
Foto colorida de homem acumulando objetos em um cômodo - Metrópoles.

Em uma casa de dez cômodos em Brasília, quatro já não podem mais ser utilizados. Os espaços foram completamente ocupados por objetos acumulados ao longo dos anos, tornando impossível a circulação.

As moradoras são uma aposentada de 82 anos, a filha Maria de Fátima de 63 anos, e a neta Fernanda Ágata, advogada de 30 anos. A idosa não terá a identidade revelada a pedido da família, que decidiu abrir as portas da residência apenas para a reportagem e mostrar uma realidade pouco discutida: o transtorno de acumulação.

Fernanda conta que o problema surgiu de forma silenciosa. “Não tivemos um momento específico para perceber. A acumulação acontece de forma progressiva e lenta. Quando vimos, quatro cômodos já estavam ocupados por objetos sem utilidade”, conta.

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Convivência marcada por desafios

Apesar de a casa não apresentar mau cheiro, a família convive com mofo e insetos. A limpeza precisa ser constante, mas o excesso de objetos dificulta o trabalho.

“Temos a sensação de que, por mais que a limpeza esteja em dia, a casa permanece suja. Ela insiste que os insetos não têm relação com o que está acumulado”, relata a advogada.

Especialistas destacam que descartar qualquer objeto costuma provocar sofrimento. Fernanda conta que a avó fica extremamente nervosa, chora e se sente traída quando percebe que alguma coisa foi jogada fora.

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A família tenta controlar a situação, já que alguns objetos que ela acumula oferecem risco à saúde da idosa e de todos que moram na casa. Já foram encontradas caixas de suco e de pizza vazias, marmitas de isopor usadas, garrafas, roupas velhas, coisas antigas e quebradas e até resto de comida.

Segundo Fernanda, tornar a história pública foi uma forma de conscientizar outras famílias. “A acumulação nem sempre é vista como uma doença que precisa de ajuda. Mostrar nossa realidade pode despertar atenção para outros casos”, diz.


Como o transtorno de acumulação é tratado

  • Psicoterapia é essencial e o vínculo de confiança com o terapeuta é fundamental.
  • A família deve evitar confrontos e descarte forçado.
  • O processo costuma ser gradual e de longo prazo.

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O excesso de itens impede a circulação em parte da residência da idosa, que teve a identidade preservada
Um dos quatro cômodos da casa completamente tomado por objetos acumulados ao longo dos anos
Família espera que a reportagem ajude outras pessoas a reconhecer os sinais do transtorno de acumulação
A limpeza da casa tornou-se um desafio diário por causa da quantidade de objetos armazenados
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A limpeza da casa tornou-se um desafio diário por causa da quantidade de objetos armazenados

Arquivo pessoal
O excesso de itens impede a circulação em parte da residência da idosa, que teve a identidade preservada
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O excesso de itens impede a circulação em parte da residência da idosa, que teve a identidade preservada

Arquivo pessoal
Um dos quatro cômodos da casa completamente tomado por objetos acumulados ao longo dos anos
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Um dos quatro cômodos da casa completamente tomado por objetos acumulados ao longo dos anos

Arquivo pessoal
Família espera que a reportagem ajude outras pessoas a reconhecer os sinais do transtorno de acumulação
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Família espera que a reportagem ajude outras pessoas a reconhecer os sinais do transtorno de acumulação

Arquivo pessoal

Muito além da desorganização

Para o psicólogo Douglas Kawaguchi, professor da Faculdade Sírio-Libanês, acumular objetos faz parte do comportamento humano. O problema surge quando o acúmulo passa a comprometer a vida cotidiana.

“Guardar objetos é natural. O transtorno começa quando o comportamento perde sua finalidade prática e interfere na limpeza da casa, no convívio social e na qualidade de vida”, ensina.

O especialista explica que quem vive com o transtorno não acumula por preguiça ou desorganização. Guarda com a intenção de controlar tudo, porque os objetos representam, de alguma forma, segurança e proteção, mesmo quando não possuem utilidade.

Por isso, retirar pertences sem consentimento costuma agravar o problema. “Quanto mais a família pressiona ou joga objetos fora, maior tende a ser a desconfiança. O tratamento depende da construção de confiança e, geralmente, de um acompanhamento psicoterápico”, afirma Kawaguchi.

O especialista cita alguns comportamentos que podem ajudar a identificar o transtorno de acumulação: a casa vai perdendo aos poucos espaço para objetos, começa a existir dificuldade para limpar os ambientes, a pessoa sofre ao descartar qualquer item, por menor que seja, e o convívio social e a higiene podem ser comprometidos.

O tratamento costuma ser longo e é preciso muita paciência dos familiares. Mais do que reduzir a quantidade de objetos, o objetivo é compreender as causas do comportamento e reconstruir, aos poucos, a confiança da pessoa nas relações humanas.

Enquanto isso, a família da idosa segue tentando equilibrar respeito e cuidado. “Acredito que o desejo de doar e desfazer das coisas tem que partir dela. O que podemos fazer é controlar para que a situação não vire uma bola de neve”, conclui Fernanda.