O que é a cereulide, toxina achada em fórmulas infantis contaminadas

Toxina age rápido no corpo das crianças, provocando os primeiros sintomas entre 1h e 6h após o consumo do alimento contaminado

atualizado

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Reprodução/ Nestlé
Foto colorida de duas ebalagens que correspondem a fórmulas infantis da marca Nestlé - Metrópoles.
1 de 1 Foto colorida de duas ebalagens que correspondem a fórmulas infantis da marca Nestlé - Metrópoles. - Foto: Reprodução/ Nestlé

Alguns lotes de fórmulas infantis fabricadas pela Nestlé tiveram a venda, distribuição e uso proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A decisão anunciada no início de janeiro foi baseada em um possível risco de contaminação por cereulide. 

A cereulide é um toxina emética (provoca náuseas e vômitos) produzida a partir de cepas da bactéria Bacillus cereus. O organismo por trás da formação dela é bastante comum no ambiente, podendo estar presente no solo, água, poeira e até em matérias-primas agrícolas e linhas de processamento de alimentos.

A ampla distribuição ambiental facilita o risco de proliferação e contaminação na cadeia de produção industrial de alimentos, como no caso suspeito da Nestlé.

“Quimicamente, a cereulide é um peptídeo cíclico extremamente estável, o que a torna muito difícil de ser destruída. Ela resiste a altas temperaturas, permanecendo ativa mesmo após tratamentos como 121 ºC por duas horas, além de suportar fritura, torrefação e aquecimento em micro-ondas”, explica a toxicologista Liliana Rocha, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Liliana afirma que a toxina ainda é resistente ao pH do sistema digestivo humano, o que dificulta o trabalho do organismo para eliminá-la. Além disso, mesmo que o preparo do alimento consiga matar a B. cereus, a cereulide consegue resistir e permanecer ativa.

“A cereulide pode causar disfunção em vários órgãos, como fígado, pâncreas, cérebro e intestino, além de comprometer o sistema nervoso e o sistema imunológico”, diz a toxicologista membro da Sociedade Brasileira de Toxicologia (SBTox).

Confira a lista de produtos e lotes proibidos da Nestlé:
Foto colorida de embalagens que correspondem a fórmulas infantis - Metrópoles

Foto colorida de embalagens que correspondem a fórmulas infantis - Metrópoles Foto colorida de embalagens que correspondem a fórmulas infantis - Metrópoles

Por que bebês são mais vulneráveis à cereulide?

Por terem um sistema imunológico ainda em fase de desenvolvimento, recém-nascidos e crianças menores de seis anos de idade ficam mais vulneráveis aos efeitos da cereulide. Foi justamente nisso que a decisão da Anvisa foi baseada, visto que o risco de contaminação estava presente em produtos voltados ao público infantil.

Outro fator diz respeito ao fígado dos recém-nascidos, que ainda não tem tanta capacidade de metabolizar e eliminar substâncias tóxicas com eficiência semelhante a indivíduos de mais idade.

O nutricionista Ícaro Cazumbá, do Conselho Federal de Nutrição (CFN), explica que o baixo peso corporal também faz com que até pequenas quantidades se tornem proporcionalmente perigosas aos bebês.

“Por ser uma toxina altamente estável e biologicamente ativa, a cereulide pode provocar quadros mais graves em populações vulneráveis, como recém-nascidos e crianças pequenas. Nesses casos, podem surgir alterações metabólicas e até lesão hepática, especialmente quando há ingestão de quantidades maiores da toxina”, alerta o especialista.

Assim que entra no corpo da criança, a toxina costuma agir rapidamente, causando os primeiros efeitos entre uma e seis horas após o consumo do produto ou alimento contaminado. Entre os principais sintomas da condição estão:

  • Náuseas intensas;
  • Vômitos repetidos;
  • Mal-estar generalizado;
  • Em alguns casos, pode provocar dor abdominal.

Toxina resistente a temperaturas altas

A cereulide é classificada como uma toxina termoestável, ou seja, ela é bastante resistente ao calor e não é eliminada por processos convencionais de fervura, cozimento ou reaquecimento de alimentos. Estimativas apontam que ela é capaz de resistir a aquecimentos superiores a 120 ºC.

Assim, mesmo após o cozimento prolongado, a cereulide permanece biologicamente ativa e com potencial para causar intoxicações alimentares. A principal medida para evitar a contaminação a nível industrial é adotar medidas de higiene rigorosas e com bastante controle.

“Os esporos da toxina podem estar presentes já na matéria-prima, como o leite cru, ou serem introduzidos durante o processamento industrial, por meio de equipamentos, partículas de poeira ou do ambiente da fábrica, especialmente quando as práticas de higiene não são rigorosamente controladas”, afirma Cazumbá.

Dicas para prevenir a contaminação pela toxina

Apesar da dificuldade em eliminar a toxina, certas medidas em casa são essenciais para diminuir o risco de contaminação e manter crianças e recém-nascidos fora de perigo. A principal medida é descartar lotes contaminados. Entre as principais ações, estão:

  • Prepare a fórmula com água quente (acima de 70 ºC);
  • Caso precise guardar a fórmula já preparada, armazene-a em locais a menos de 4 ºC para impedir o crescimento da bactéria e a produção da toxina;
  • Nunca deixe fórmulas já preparadas em temperatura ambiente;
  • Se houver alteração de odor, sabor ou aparência, descarte a bebida;
  • Antes e depois do preparo, lave bem as mãos, limpe as superfícies e utensílios para evitar contaminação cruzada.

“A manipulação adequada desses alimentos é extremamente importante para evitar a exposição dos bebês”, recomenda Liliana.

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