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Saúde

Estudo da USP revela alta taxa de toxinas fúngicas em arroz e farinha

Estudo feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) constatou alta presença de toxinas fúngicas em alimentos comuns

18/07/2024 14:58, atualizado 18/07/2024 16:59
Getty Images
Imagem colorida de arroz - Metrópoles

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) analisou amostras de farinha e de arroz armazenadas em residências de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, e constatou a presença de altas quantidades de micotoxinas.

A pesquisa contou com apoio da FAPESP e foi publicada em março na revista Food Research International. No artigo, os autores explicam que a exposição a micotoxinas pela alimentação pode provocar diversos prejuízos para a saúde, principalmente aos jovens.

Os resultados reforçam a importância de armazenar alimentos como grãos e farinhas em locais secos e protegidos de insetos para evitar o risco de contaminação.

“Todos os microrganismos, incluindo os fungos, necessitam do chamado ‘binômio temperatura e tempo’ para se desenvolver em um substrato. Portanto, quanto mais tempo um alimento contendo fungos toxigênicos ficar armazenado em condições inadequadas — por exemplo, exposto ao ambiente, desprotegido, em local quente e úmido –, maior a probabilidade de haver altas concentrações de micotoxinas”, afirma à agência FAPESP Carlos Augusto Fernandes de Oliveira, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA-USP) e coordenador do estudo.

O pesquisador explica que existem mais de 400 toxinas produzidas por fungos como forma de defesa ou interação com outros organismos.

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“Seis dessas substâncias, que chamamos de ‘meninas superpoderosas’, requerem mais atenção por serem carcinogênicas, imunossupressoras ou por atuarem como disruptores endócrinos (causarem alteração no equilíbrio hormonal do organismo). É algo que demanda muita atenção pelos seus efeitos prejudiciais à saúde”, destaca.

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Toxinas encontradas

As amostras constataram a presença de seis toxinas: aflatoxinas (AFs), fumonisinas (FBs), zearalenona (ZEN), toxina T-2, desoxinivalenol (DON) e ocratoxina A (OTA). As micotoxinas FBs, ZEN e DON apresentaram taxas acima do limite de tolerância estabelecido pelos órgãos de saúde. O estudo foi o primeiro no Brasil a usar biomarcadores para caracterizar o risco associado às micotoxinas na dieta de crianças e adolescentes.

A aflatoxina B1, descoberta na década de 1960, segundo o professor, é o mais potente carcinógeno natural conhecido. A substância lesa o DNA dos animais, provocando mutações genéticas que podem levar ao desenvolvimento de câncer hepático.

Além disso, ela causa outros efeitos como imunossupressão, problemas reprodutivos e teratogênese, quando uma gestante ou uma pessoa que está amamentando transfere as toxinas para a criança.

“Não existe nenhuma substância conhecida pelo homem na natureza que tenha o poder cancerígeno dessa micotoxina, só raras exceções criadas em laboratório, como, por exemplo, dioxinas”, conta o pesquisador.

Ja o desoxinivalenol, também encontrado nas amostras, pode reduzir a imunidade de pessoas contaminadas. Segundo o professor, ela causa efeito no sistema gastrointestinal. Em animais, a toxina gera tanta irritação que provoca regurgitação.

A fumonisina B1 é considerada um possível carcinógeno humano, e pode causar câncer esofágico e problemas no fígado, assim como a ocratoxina A, que também tem potencial cancerígeno. A zearalenona, encontrada em níveis altos nos alimentos analisados, tem uma estrutura igual à do estrogênio e pode causar problemas de excesso do hormônio feminino no corpo.

“São toxinas com repercussões pesadas. Diferentemente do chumbo ou de outros contaminantes químicos, como o bisfenol (encontrado em alguns materiais plásticos), essas micotoxinas não são cumulativas. No entanto, elas têm efeito progressivo. Isso quer dizer, por exemplo, que, com a exposição a moléculas de B1, em algum momento não será mais possível reparar o DNA que foi lesado pela micotoxina. É a partir daí que pode surgir o câncer. Por isso a nossa preocupação com crianças e adolescentes, que tendem a ser mais sensíveis a toxinas em geral”, afirma.

As 230 amostras de alimentos analisadas estavam disponíveis para consumo nos domicílios de 67 crianças, incluindo 21 pré-escolares (3 a 6 anos), 15 escolares (7 a 10 anos) e 31 adolescentes (11 a 17 anos).

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