Estudo aponta genes de elefantes como arma na prevenção ao câncer

Pesquisa revelou que estes amimais possuem moléculas únicas que respondem contra condições cancerígenas

atualizado 18/07/2022 19:16

Genes de elefantes podem ser chave na David Silverman/Getty Images

Um estudo realizado por cientistas de sete universidades, entre elas as de Oxford e Edimburgo, no Reino Unido, utilizou modelagem bioinformática para analisar a proteína codificada pelo gene p53, conhecida por ajudar na prevenção ao câncer, e descobriu que a ciência tem muito o que aprender com o organismo dos elefantes contra a doença.

Os animais possuem uma mortalidade de menos de 5% por câncer contra 25% dos humanos, apesar de serem muito maiores e viverem mais ou menos a mesma quantidade de anos. Essa resistência elevada pode ser explicada pelas 20 cópias do gene p53 presentes no organismo dos elefantes — outros mamíferos, como os humanos, só possuem um gene deste tipo.

O professor de Biologia de Oxford e co-autor do estudo, Fritz Vollrath, destacou a importância de se estudar animais como o elefante. “Sua genética e fisiologia são impulsionadas pela história evolutiva, bem como pela ecologia, dieta e comportamento de hoje”, apontou, em entrevista ao site da universidade britânica. A pesquisa foi publicada na revista científica Molecular Biology and Evolution.

No organismo de humanos e elefantes, as células vivem um processo eterno de replicação e substituição, onde as mais novas tomam o lugar das mais antigas. As novas cópias devem ser idênticas, no entanto, caso o DNA seja transcrito de maneira errada, a molécula pode passar por uma mutação.

Em células saudáveis, esse erro é ajustado internamente. A correção e os tipos de mutação são influenciados por fatores externos que podem variar por conta do estresse, compostos tóxicos, condições de vida e envelhecimento — esses itens podem interferir no processo, causando uma maior taxa de mutação. O acúmulo dessas mutações pode ocasionar tumores, e com o passar dos anos, a situação pode se tornar perigosa.

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O p53 é o responsável por regular os mecanismos que fazem os reparos no DNA, além de impedir o crescimento celular desenfreado. A proteína codificada pelo gene é ativada quando o DNA sofre algum tipo de dano — neste momento, ele interrompe a replicação do material para que o problema seja resolvido.

Nas células replicadas sem danos, a p53 não precisa agir e é inativada por uma outra proteína, o oncogene MDM2 E3 ubiquitina ligase. Porém, a ciência não sabe exatamente como a p53 decide quais células irá atacar e qual é o mecanismo que falha quando ela deixa passar outras que se transformam em câncer.

Sistema aperfeiçoado nos elefantes

Neste contexto, os elefantes possuem 20 genes semelhantes ao p53, com diferenças estruturais que geram reações específicas para vários cenários, inclusive na relação com a MDM2. Com essa variedade, aumentam as interações que garantem o funcionamento da ferramenta e impedem o desenvolvimento de um câncer.

Os pesquisadores perceberam algumas diferenças importantes na interação entre as outras formas da p53 e a MDM2 dos elefantes em relação aos humanos — pela alteração na composição das proteínas, muitas conseguem passar sem ser desativadas e podem impedir o crescimento desenfreado das células, o que pode explicar por que os animais não costumam ter problemas com neoplasias.

“Em humanos, a mesma proteína p53 é responsável por decidir se as células devem parar de proliferar ou entrar em apoptose (morte celular), mas tem sido difícil de elucidar como a p53 toma essa decisão. A existência de várias isoformas de p53 em elefantes com diferentes capacidades de interagir com MDM2 oferece uma nova abordagem excitante para lançar uma nova luz sobre a atividade supressora de tumor de p53″, detalhou o co-autor Robin Fåhraeus, do Instituto Nacional de Pesquisa Médica e de Saúde da França.

Entender exatamente como funciona esse sistema nos elefantes pode, no futuro, oferecer soluções para medicamentos que ativem o p53 em humanos para lutar contra os tumores. Os pesquisadores acreditam que este é um caminho “animador e com alto potencial para aplicações biomédicas”.

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