Deltacron: entenda a história da variante da Covid que nunca existiu
Cientistas acreditam que evidências da nova variante que teria sido identificada no Chipre não passaram de um erro de laboratório
25/01/2022 02:00

Há duas semanas, o mundo foi surpreendido com o surgimento de uma nova variante do coronavírus. A Deltacron, como ficou conhecida, seria resultado de uma mutação das variantes Delta e Ômicron. Entretanto, cientistas logo começaram a desconfiar de que o achado não passava de um erro de laboratório.
A descoberta da Deltacron foi anunciada pelo professor de ciências biológicas da Universidade de Chipre, Leondios Kostrikis, em uma rede de televisão local, em 7 de janeiro. De acordo com o chefe do Laboratório de Biotecnologia e Virologia Molecular da universidade, a cepa já tinha infectado ao menos 25 pessoas no país.
No mesmo dia, os 25 sequenciamentos genéticos do vírus foram enviados para o principal banco de dados do coronavírus do mundo, o Gisaid, onde instituições internacionais registram os genomas encontrados. Outras 27 amostras foram encaminhadas nos dias seguintes e rapidamente a notícia se espalhou.
Descoberta posta em dúvida
No dia seguinte ao anúncio, cientistas que trabalham com sequenciamento genético e estão envolvidos em pesquisas sobre a Covid-19 alertaram sobre a possibilidade de ter ocorrido um erro de laboratório com as 52 amostras.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles Saúde e CiênciaAs características encontradas não indicavam uma nova variante como resultado de recombinação genética, processo que ocorre quando uma pessoa é infectada por dois micro-organismos diferentes que entram em uma mesma célula. Nessa situação, o material genético deles pode ser trocado aleatoriamente.
“Este é provavelmente um artefato de sequenciamento com contaminação de laboratório, tendo fragmentos de Ômicron em uma amostra Delta”, escreveu a médica Krutika Kuppalli, que integra o grupo técnico da Organização Mundial da Saúde (OMS), no Twitter.
O virologista do Imperial College de Londres, Tom Peacock, também sugeriu que a sequência genética da amostra parecia estar infectada.
À revista Nature, o virologista Jeremy Kamil, professor da Louisiana State University Health Shreveport, dos Estados Unidos, explicou que o sequenciamento de genomas depende de primers, pequenos pedaços de DNA fabricado.
A variante Delta apresenta uma mutação no gene da spike que reduz a capacidade de alguns primers de se ligarem a ela, dificultando o sequenciamento dessa região do genoma. A Ômicron, por outro lado, não compartilha essa mutação, portanto, se alguma partícula dela for misturada à amostra por contaminação, o gene sequenciado vai se parecer mais com nova cepa.
Novas evidências
Com a repercussão negativa no meio científico, Kostrikis foi a público novamente para explicar que sua hipótese havia sido mal interpretada pela imprensa e que ele e sua equipe nunca chegaram a dizer que as sequências eram a junção das duas variantes. Mas logo as informações sobre a suposta cepa foram despublicadas do banco de dados.
Na última semana, o cientista contou à revista Nature que está “no processo de investigar todas as opiniões cruciais expressas por cientistas proeminentes de todo o mundo sobre meu recente anúncio”.
Rapidez da ciência
Mais de 7 milhões de sequenciamentos genéticos do novo coronavírus foram registrados no Gisaid desde o início da pandemia da Covid-19. A rapidez com que o possível erro foi identificado por outros cientistas chamou a atenção do mundo.
Por outro lado, pesquisadores temem que a repercussão negativa que o caso tomou prejudique o compartilhamento de informações por cientistas, por medo de sofrerem retaliação.



















