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Saúde

Cuidado bucal e dieta ajudam a aliviar inflamações da quimioterapia

Laser de baixa potência, alimentação e ajustes na higiene diária podem atenuar lesões orais e garantir a continuidade dos ciclos oncológicos

02/10/2026 02:00
Getty images
Cuidado bucal integrado alivia dor provocada por drogas quimioterápicas

Caracterizada por inflamações e feridas dolorosas na boca, a mucosite oral é uma complicação que acomete pacientes em tratamento de quimioterapia e radioterapia, afetando diretamente a capacidade de alimentação, fala e hidratação.

A fotobiomodulação — conhecida como laserterapia de baixa potência —, aliada a protocolos rigorosos de higiene bucal e adaptações na rotina, pode reduzir o impacto causado pela condição e garantir melhor qualidade de vida a esses pacientes.

Um estudo publicado pela Multinational Association of Supportive Care in Cancer (MASCC) reforça que o uso preventivo do laser de baixa intensidade é considerado uma das intervenções mais eficazes no controle das lesões provocadas por agentes quimioterápicos de alta toxicidade, como metotrexato, 5-fluorouracil e drogas à base de platina. 

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A condição surge devido à alta taxa de renovação celular das mucosas, o que as torna alvos frequentes dos medicamentos de quimioterapia.

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“A mucosite oral é uma inflamação e lesão da mucosa da boca que pode ocorrer como consequência do tratamento do câncer, especialmente durante alguns tipos de quimioterapia e também da radioterapia na região de cabeça e pescoço”, explica o cirurgião-dentista Fábio de Abreu, especialistas e presidente da Câmara Técnica de Estomatologia do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) .

Segundo Abreu, o grau do dano varia conforme o esquema terapêutico empregado. Ele explica que isso ocorre porque alguns tratamentos oncológicos podem lesar diretamente as células da mucosa, além de desencadear uma resposta inflamatória que contribui para o desenvolvimento e intensidade das lesões.

No centro das estratégias de preservação do tecido oral, a laserterapia atua estimulando os processos metabólicos de reparo das células. A luz de baixa intensidade promove ação anti-inflamatória e analgésica. “A fotobiomodulação pode ajudar a reduzir a inflamação e a dor associadas à mucosite, além de favorecer a reparação e a cicatrização das lesões”, detalha.

O especialista acrescenta que a intervenção exige condução por profissionais capacitados. Quando utilizada de forma preventiva, pode reduzir a ocorrência e a intensidade da mucosite oral e, quando as lesões já estão presentes, pode contribuir para uma recuperação mais rápida.

Estar atento à alimentação é essencial

Além disso, a dor acentuada provoca perda de apetite e dificuldade substancial no consumo de nutrientes, podendo exigir suporte hospitalar em quadros mais severos. No âmbito nutricional, a adequação de consistência e temperatura das refeições é determinante para minimizar o atrito com as superfícies inflamadas.

Segundo Laita Balbio, nutricionista com atuação voltada à estratégias nutricionais individualizadas, quando existem feridas na boca ou dor para engolir, o primeiro objetivo é diminuir o atrito e tornar a alimentação o mais confortável possível. “Podemos trabalhar com preparações macias, úmidas, cremosas ou pastosas, como purês, cremes, mingaus, sopas batidas, vitaminas e alimentos bem cozidos”, explica.

A temperatura também faz diferença: preparações muito quentes tendem a aumentar o desconforto. Alimentos frios, frescos ou em temperatura ambiente costumam ser preferíveis, de acordo com a tolerância de cada paciente. O importante é adaptar sem empobrecer nutricionalmente a alimentação.

Laila reforça que durante uma crise da condição, alimentos ácidos, muito condimentados, apimentados, excessivamente salgados e preparações muito quentes podem irritar ainda mais a mucosa. Frutas cítricas e sucos, como limão, laranja e abacaxi, além de molhos ácidos, também podem causar bastante ardência. Alimentos secos, duros, crocantes ou ásperos, como torradas e alguns biscoitos, podem machucar mecanicamente as feridas.

“Não gosto de trabalhar com uma lista de proibições igual para todos, porque a tolerância varia, mas aquilo que provoca dor ou ardência deve ser temporariamente retirado ou adaptado”, destaca.

O conselho da nutricionisa é fracionar a alimentação em pequenas refeições ao longo do dia, elevando a densidade nutricional sem aumentar muito o volume. Outro ponto importante é a  a hidratação, que pode ser fracionada em pequenos goles ao longo do dia, caso seja doloroso engolir.

Laila complementa que em algumas situações, suplementos nutricionais orais podem ser necessários, mas precisam ser escolhidos individualmente, principalmente quando existe perda de peso ou dificuldade de ingestão.

Cuidados com a higiene bucal

Paralelamente às intervenções clínicas e nutricionais, os cuidados individuais diários evitam a sobreposição de infecções oportunistas que retardam a cicatrização. Recomenda-se o uso de escovas com cerdas extramacias e cremes dentais com formulações suaves, desprovidos de agentes irritantes como o lauril sulfato de sódio ou mentol acentuado. Enxaguantes com álcool devem ser descartados por agravarem o ressecamento e a ardor da mucosa.

A administração de analgésicos sistêmicos e o uso pontual de anestésicos tópicos exigem critérios rigorosos. “Como o anestésico reduz temporariamente a sensibilidade da boca e da garganta, seu uso imediatamente antes ou durante a alimentação pode aumentar o risco de mordidas, queimaduras com alimentos muito quentes e dificuldade para controlar a deglutição”, alerta o dentista.

A prevenção primária começa antes da infusão da primeira dose de quimioterapia. A avaliação odontológica prévia permite sanar focos infecciosos pré-existentes, como cáries e doenças gengivais, reduzindo o risco de complicações graves ao longo do ciclo oncológico.

“O cirurgião-dentista pode, em conjunto com a equipe de oncologia, estabelecer um plano de cuidados para manter a saúde bucal durante todo o tratamento”, conclui Fábio.