Covid-19: o que se sabe sobre o EXO-CD24, spray nasal de Israel

O presidente Jair Bolsonaro tem afirmado com frequência o interesse de trazer o medicamento para o Brasil

atualizado 18/02/2021 15:59

coronavírus ilustraçãoGetty Images

Um spray nasal desenvolvido em Israel para o tratamento de pacientes com a Covid-19 se tornou a nova aposta do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no combate ao coronavírus. Em declarações recentes, o chefe do Executivo sinalizou que tem a intenção de trazer o medicamento para o país.

Na última segunda-feira (15/2), Bolsonaro afirmou que a autorização para o uso emergencial do spray nasal será solicitada em breve à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No dia seguinte, disse em um vídeo que enviará à Israel uma comitiva brasileira para conhecer o fármaco de perto.

“Pelo que tudo indica, o tratamento da Covid em casos graves, através desse spray, tem tudo para dar certo”, disse o presidente.

Israel é reconhecido por investir na saúde pública e abrigar uma forte indústria farmacêutica e centros de pesquisa muito avançados. O EXO-CD24, como é chamado, foi desenvolvido inicialmente para o tratamento de câncer de ovário. Pesquisadores do Centro Médico Ichilov de Tel Aviv adaptaram o estudo para a Covid-19.

De acordo com o governo israelense, o spray deve ser inalado uma vez ao dia, por alguns minutos, durante cinco dias, para o tratamento de pacientes hospitalizados com a infecção. Ele é direcionado diretamente para os pulmões.

O estudo sobre o medicamento ainda está em fase preliminar e não foi enviado para a validação de outros cientistas.

“A gente não pode considerá-lo como bala de prata da Covid-19, nem colocar tantas expectativas em um medicamento que ainda está em fase 1”, afirma a infectologista Ana Helena Germoglio, do Hospital Águas Claras.

A primeira fase dos testes clínicos com o medicamento já foi concluída. Ela contou com 30 voluntários divididos em três grupos de escalonamento de dose – os pesquisadores informaram que os pacientes tinham entre 18 e 85 anos, mas não deixaram claro a idade dos participantes do experimento.

De acordo com os cientistas envolvidos na pesquisa, os pacientes apresentavam condições moderadas ou graves da Covid-19 e todos se recuperaram após o uso do spray, 29 deles no intervalo entre três a cinco dias após o início do tratamento.

A droga é baseada na proteína CD24 que, ao ser inalada, se prega à superfície das células que se ligam ao coronavírus através da proteína spike. Dentro do organismo, a CD24 reduz a liberação de citocinas, combatendo assim o quadro inflamatório que atinge os pulmões e agrava a situação clínica dos pacientes.

Incertezas

A primeira fase dos testes clínicos é comumente destinada à analise a segurança dos fármacos. É quando os cientistas observam se ele não oferece risco ou efeitos colaterais significativos para interromper o estudo. É uma fase limitada, pois é feita com poucos voluntários e sem um grupo controle que, em testes mais avançados, utiliza um placebo.

É apenas a partir da fase 2 que os cientistas avaliam a eficácia de um medicamento. A fase 3 faz a análise em uma escala muito maior. “Sem os estudos que seguem a fase 1 a gente não pode dizer que o medicamento funciona”, explica a infectologista Ana Helena Germoglio, do Hospital Águas Claras.

A médica destaca que, mesmo com os primeiros resultados favoráveis, ainda é cedo para se afirmar que o spray é eficiente contra a Covid-19. “A gente sabe que entre 85% e 90% dos pacientes com Covid-19 vão ter uma evolução satisfatória do quadro. Ou seja, não vão morrer. Como a gente não sabe o perfil dos voluntários, a gente pode atribuir a melhora ao medicamento ou à evolução natural do quadro de um paciente dentro desses 90%”, diz.

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