Como o consumo de pornografia na adolescência impacta a saúde mental?

Conteúdo sexualmente explícito é associado a disfunção erétil, baixa libido, depressão e ansiedade, com riscos a curto e longo prazo

atualizado

metropoles.com

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Magnific
Imagem colorida de um adolescente usando o celular
1 de 1 Imagem colorida de um adolescente usando o celular - Foto: Magnific

A curiosidade pelo universo erótico acompanha a humanidade há séculos: de representações pré-históricas do corpo, passando por imagens sexuais em objetos de uso cotidiano nas civilizações antigas, até a emergência da pornografia como é produzida hoje, principalmente na forma de vídeos explícitos. O avanço tecnológico observado nos últimos 20 anos ampliou consideravelmente o acesso a esse tipo de conteúdo — assim como seus impactos na saúde.

Embora faltem estimativas robustas a níveis global e nacional, especialistas estimam que haja um aumento no consumo e que o contato com esse tipo de conteúdo acontece em idades cada vez mais jovens. O livro Handbook of Children and Screens (“Manual de Crianças e Telas”, em tradução livre, sem edição em português) destaca, a partir da literatura científica recente, que a maioria dos adolescentes já viu pornografia, e que mais da metade relata o primeiro contato antes dos 14 anos, intencionalmente ou não.

Um estudo realizado nos Estados Unidos com a participação de mais de 1,3 mil jovens de 13 a 17 anos apresentou dados ainda mais alarmantes: 15% disseram ter visto pornografia online pela primeira vez aos 10 anos ou menos. A idade média do primeiro contato, segundo a pesquisa, foi aos 12 anos. Além disso, 44% buscaram pelo conteúdo, enquanto 58% foram expostos acidentalmente.

No Brasil, um trabalho publicado em 2023 na Revista Brasileira de Sexualidade Humana aponta que o primeiro contato com pornografia ocorreu, em média, aos 13 anos entre os homens e por volta dos 15 anos entre as mulheres. Apesar de ter envolvido apenas 153 pessoas, ajuda a compor o cenário sobre essa realidade no país, assim como outros levantamentos. Em 2025, 8% dos usuários de internet de 9 a 17 anos relataram ter visto, com ou sem intenção, imagens ou vídeos de conteúdo sexual online nos 12 meses anteriores, segundo a TIC Kids Online Brasil, pesquisa do Cetic.br/NIC.br sobre o uso da internet por crianças e adolescentes. Foram entrevistadas 2.300 jovens dessa faixa etária, assim como seus pais ou responsáveis, em todo o país.

Entre médicos, já se sabe que a pornografia afeta o desenvolvimento emocional, sobretudo na fase da adolescência. “O uso frequente como estratégia de alívio de tensão pode reduzir a capacidade de lidar com frustrações e emoções negativas de forma adaptativa e saudável para o adolescente”, alerta o psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Bem-Estar e Saúde Mental, do Einstein Hospital Israelita. “Além disso, pode distorcer expectativas sobre corpo, desempenho, gerando ansiedade de performance na relação sexual e afastando o jovem de uma vivência sexual mais integrada e realista.”

De acordo com o especialista, quanto mais cedo e mais intensamente a pornografia entra na vida de um adolescente que ainda não viveu experiências reais ou manteve conversas educativas e vínculos afetivos, maior o risco de ela virar referência primária de sexualidade e, com isso, causar prejuízos.

Impactos na saúde mental

A perspectiva psicológica e social do fenômeno acende outro alerta: a pornografia pode alterar a forma como adolescentes entendem consentimento, intimidade e reciprocidade. “O indivíduo pode perder a dimensão de limites do próprio corpo e do outro e, com isso, desenvolver episódios de mais impulsividade ou irritabilidade frente a qualquer tipo de frustração”, explica o psicólogo Maycon Torres, professor de psicologia clínica e saúde mental e vice-coordenador do programa de pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro.

As nuances desse comportamento são observadas em diferentes estudos. Um artigo publicado no periódico L’Encéphale revela associações entre o consumo desse tipo de conteúdo e atitudes sexuais mais permissivas, comportamentos sexuais de risco, agressão sexual e experiências de abuso sexual digital. A relação entre a pornografia e a conduta de assédio sexual também foi observada em um amplo estudo divulgado em 2022 no Journal of Research on Adolescence.

Isso pode ser associado, em parte, à tendência de produções com teor cada vez mais extremo, na busca por engajamento e lucro. Nessa seara, encontram-se vídeos com conotação violenta e degradante, que exaltam a dor, simulam o não consentimento, trazem encenação de incesto, além da exploração de corpos com aparência muito jovem, ainda que atores e atrizes sejam maiores de idade.

A exposição abusiva ao conteúdo sexual explícito pode levar a um problema chamado de tolerância. É semelhante ao contexto observado na utilização de alguns tipos de substâncias ilícitas: com o tempo, o corpo vai precisando de doses cada vez mais altas para desencadear o mesmo efeito inicial. No caso da pornografia, a pessoa vai perdendo a sensibilidade a filmes “comuns” e recorre aos conteúdos mais intensos. Isso é observado em diversas pesquisas, incluindo um estudo qualitativo publicado na Scientific Reports em 2024.

Como consequência do uso problemático, podem surgir eventos adversos como ansiedade, depressão, culpa, vergonha e isolamento social. “Observamos uma associação com ansiedade e sintomas depressivos, muitas vezes relacionados ao ciclo de uso e frustração. Culpa e vergonha podem aparecer principalmente em contextos culturais ou familiares mais restritivos”, relata Zoldan. “O isolamento é evidenciado na substituição de interações reais, como compromissos e atividades, devido à necessidade de consumo compulsivo da pornografia.”

Além da adolescência

O contato precoce e intenso com a pornografia antes de experiências reais tende a colocá-la como referência de sexualidade. “A adolescência é o momento em que essas vivências começam a produzir marcas que condicionam a sexualidade adulta. Pessoas com um padrão de consumo excessivo, principalmente ao nível de provocar alterações da autoestima e do autocontrole, tendem a relatar mais dificuldades em obter satisfação sexual e apresentam mais problemas de relacionamento”, destaca Torres.

Os impactos sobre a vida sexual e afetiva se estendem e podem ser sentidos ao longo da idade adulta. São identificadas dificuldades para a formação de intimidade e vínculo, compreensão do sexo como performance, desafio para lidar com constrangimentos e falhas, vergonha de imperfeições corporais naturais e distorções no entendimento de limite e consentimento.

Embora nem todo indivíduo exposto a materiais explícitos na juventude apresente o mesmo padrão de comportamento ou entraves posteriormente, a literatura sugere haver um risco aumentado. A observação clínica também aponta como consequências de longo prazo quadros de disfunção erétil, ejaculação precoce, falta de prazer, baixa libido com parcerias reais, dependência associada a sintomas como fissura e comprometimento da vida social.

Reconhecimento do problema

O uso problemático de pornografia não se encaixa em uma categoria própria no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, nos Estados Unidos. A Classificação Internacional de Doenças (CID-11), da Organização Mundial da Saúde (OMS), reconhece o transtorno do comportamento sexual compulsivo, que pode incluir o uso excessivo de conteúdo pornográfico.

“O diagnóstico considera diversas questões, incluindo se a pessoa apresenta um sofrimento muito significativo com a prática ou prejuízos, que podem ser de ordem sexual, de saúde mental e nos relacionamentos”, resume o psiquiatra e pesquisador Thiago Roza, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A prevenção pode ser feita a partir de eixos que compreendem família, escola e atenção em saúde mental. Contudo, por se tratar de um tema considerado tabu, persistem dificuldades na implementação do cuidado. Antes de mais nada, é preciso reconhecer sinais de alerta. “Perda de controle associada ou não a tentativas frustradas de reduzir ou interromper o comportamento. Aumento progressivo do tempo de uso e em contextos inadequados, como escola, trabalho ou na sala de estar de casa. Além de prejuízo em outras áreas da vida: acadêmica, social ou familiar”, elenca o psiquiatra do Einstein.

A proibição, sozinha, pode não surtir grandes efeitos. O caminho mais consistente pode estar em uma abordagem combinada. “Envolve educação sexual baseada em evidências, incluindo discussões sobre consentimento, afetividade e realidade em relação a fantasia”, explica Luiz Gustavo Zoldan. Além disso, inclui manter um diálogo aberto que reduza estigma e favoreça a orientação segura. “E um letramento digital para compreensão crítica do conteúdo consumido”, orienta.

Nesse contexto, podem ser mais eficazes estratégias como o monitoramento da atividade digital por pais e responsáveis, a promoção de habilidades socioemocionais em casa e na escola, e a educação sexual baseada em evidências e pautada na discussão crítica sobre encontros sexuais, consentimento, gênero e falta de realismo da pornografia.

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