Estudo associa o uso de cannabis e tabaco à redução do volume cerebral
Análise de mais de 100 estudos indica alterações em áreas ligadas à memória, emoções e comportamento
atualizado
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O uso de cannabis e tabaco pode estar associado a mudanças na estrutura do cérebro, com redução de volume em áreas importantes para emoções, memória e comportamento. A conclusão vem de uma análise que reuniu dados de mais de 100 estudos e envolveu mais de 72 mil pessoas.
Os resultados foram publicados na revista científica Addiction em 19 de março e indicam que tanto o uso isolado quanto combinado dessas substâncias está ligado a alterações em regiões específicas do cérebro. Os pesquisadores da Universidade de Bath, no Reino Unido, destacam que essas mudanças podem ter impacto no funcionamento mental ao longo do tempo.
Como o cérebro é afetado
Entre os usuários regulares de cannabis, os cientistas observaram uma redução no volume da amígdala, região envolvida no processamento das emoções e nas respostas a situações de estresse.
No caso do tabaco, os efeitos apareceram em diferentes áreas. Foram identificadas reduções na amígdala, na ínsula, relacionada à percepção interna do corpo e às emoções, e no globo pálido, que participa do controle dos movimentos e da motivação.
Além disso, o estudo aponta que fumantes tendem a apresentar uma diminuição mais acelerada da massa cinzenta ao longo dos anos. Esse tipo de tecido cerebral está ligado a funções como raciocínio, memória e tomada de decisão.
Segundo os pesquisadores, a perda de volume nessas regiões pode influenciar a forma como as pessoas pensam, sentem e reagem ao ambiente.
O que explica as mudanças
Os efeitos observados estão relacionados à forma como as substâncias atuam no cérebro. No caso da cannabis, o principal composto psicoativo, o THC, interage com receptores que participam do controle da dor, do apetite e das emoções.
Já a nicotina, presente no tabaco, age em receptores distribuídos por todo o cérebro, influenciando a comunicação entre os neurônios e os processos de aprendizado.
“Essas substâncias afetam diretamente sistemas importantes para o funcionamento cerebral, o que ajuda a explicar as alterações observadas na estrutura do cérebro”, apontam os autores.
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores combinaram diferentes tipos de evidência, incluindo comparações entre usuários e não usuários, acompanhamento de pessoas ao longo do tempo e análises genéticas.
Os dados também indicaram uma relação entre o número de cigarros consumidos por dia e a redução do volume do hipocampo, região essencial para memória e aprendizado.
Por que os resultados são importantes
O estudo reforça a preocupação com os efeitos dessas substâncias na saúde cerebral, especialmente diante do alto número de usuários no mundo.
Ao identificar com mais precisão quais áreas do cérebro são afetadas, os pesquisadores avaliam que essas informações podem ajudar profissionais de saúde a orientar melhor pacientes, principalmente jovens, sobre os possíveis impactos do uso frequente.
Apesar dos achados, os autores destacam que ainda são necessários mais estudos para entender completamente como essas alterações se desenvolvem e quais são suas consequências a longo prazo.
