Amigos tentam ajudar refugiado com doença misteriosa no cérebro

Ele foi encontrado desorientado em um supermercado, pegou Covid-19, e hoje depende da ajuda de amigos para sobreviver

atualizado 10/07/2020 22:01

haider toriInstagram/Reprodução

Um grupo de brasileiros e pessoas de várias nacionalidades que moram na Argentina está se mobilizando para ajudar um refugiado paquistanês chamado Zulqarnain Haider, 28 anos. Em fevereiro de 2020, Haider foi encontrado desorientado em um supermercado de Buenos Aires e encaminhado para um hospital, onde está internado desde então.

Os médicos ainda não conseguem descobrir o que aconteceu com o rapaz: ele apresenta uma forte infecção no cérebro, que o deixou com danos neurológicos e cognitivos. Sem conseguir andar ou realizar suas atividades básicas sozinho, ele depende, hoje, dos amigos para sobreviver. São eles que trocam os lençóis, o levam ao banheiro e o alimentam.

“No hospital em que ele está, às vezes chegamos e todos os equipamentos estão desligados porque falta extensão para conectar à tomada, temos que sair para comprar. Com um bom tratamento de fisioterapia, ele poderia ter uma vida funcional: apesar do dano neurológico grande, nenhuma função motora foi afetada”, explica Márcia Serrano, amiga de Haider desde 2017, e uma das organizadoras da campanha. Os dois se conheceram em um hostel.

“Hoje ele é um bebê de 28 anos, não tem consciência de que acabou de comer, por exemplo. Está reaprendendo a segurar talheres e copo. Ele é tão jovem, e com tanta vontade de fazer as coisas. Eu só faço o que faço por ele, porque realmente merece. Nunca vi igual, sempre sorri, nada era um grande problema”, conta.

Durante a internação, os médicos chegaram a cogitar que Haider esteja com tuberculose cerebral grave. Foram encontradas duas massas no cérebro. Segundo Márcia, todos os exames foram inconclusivos e a última esperança era uma biópsia, que foi feita em março mas até hoje não teve os resultados divulgados. O rapaz também contraiu coronavírus no hospital, mas já se recuperou.

A esperança dos amigos de Haider é transferi-lo para uma clínica especializada, onde ele poderia fazer um tratamento de reabilitação neurológica por um semestre e tentar reaver algumas das funções. O custo da internação é de aproximadamente R$ 420 mil reais.

Problema diplomático

Porém, o alto preço da clínica não é o único entrave. O paquistanês está, ainda, no centro de um problema diplomático.

Os amigos de Haider procuraram assistentes sociais na Argentina, mas não conseguiram ajuda. O processo de pedido de asilo está tramitando há cinco anos, sem resposta, e ele foi assaltado assim que chegou ao país, perdendo todos os seus documentos. Nos últimos meses, estava morando com um amigo e procurando emprego.

Os amigos de Haider conseguiram contato com a agência de refugiados da ONU (ACNUR), que entendeu a urgência do problema e deve conversar com o governo argentino para acelerar o processo de refúgio. “Só assim ele conseguirá uma DNI (identificação). Como ele provavelmente não poderá exercer nenhuma função remunerada no futuro, queremos inscrevê-lo em programas de assistência do governo para colocá-lo em uma centro de geriatria depois da reabilitação”, explica Márcia.

A embaixada do Paquistão também foi procurada, e ajudou em um primeiro momento, mas diz não poder fazer mais nada, uma vez que Haider renunciou à sua nacionalidade. A família do rapaz, que ainda está no país asiático, não entende direito a situação, e quer transportá-lo de volta.

“O tio dele insiste que a embaixada deve ajudar, e enviou um documento dando a eles o poder de tomar as decisões hospitalares e de repatriação do Haider. Ele quer repatriá-lo a qualquer custo, mas não há condições clínicas para que o Haider seja transportado e a Argentina está com as fronteiras fechadas por conta da Covid-19”, explica Márcia. O ACNUR recomenda, neste caso, que o contato com a embaixada seja suspenso para não prejudicar o processo de refúgio.

“Não vamos parar até garantir que o Haider tenha todas as suas necessidades atendidas para sobreviver. Ele precisa de ajuda. É uma situação complexa de todos os lados”, afirma.

O tratamento do refugiado está sendo documentado pelo Instagram e Facebook. Nas páginas também está descrito como ajudar.

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