Beber álcool remodela genes do cérebro ligados ao vício, aponta estudo
Estudo mostra como o consumo prolongado de álcool altera a expressão de genes importantes em regiões do cérebro que elaboram o vício
atualizado
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O consumo de álcool por tempo prolongado pode causar mudanças na forma como os genes se expressam em regiões específicas do cérebro, afetando o controle de impulsos, a tomada de decisões e os mecanismos de recompensa.
Isto é o que indica um estudo publicado na revista científica Addiction, conduzido por pesquisadores do Instituto de Neurociências, centro ligado à Universidade Miguel Hernández de Elche (UMH) e ao Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), na Espanha.
A pesquisa analisou tecidos cerebrais de pessoas que consumiram álcool de forma crônica por, em média, 35 anos. Os cientistas observaram mudanças genéticas em áreas do cérebro que estão ligadas à dependência e vulnerabilidade à recaída, o que ajuda a explicar por que o alcoolismo é uma condição tão difícil de tratar.
Sistema que regula prazer e estresse é afetado
O foco do estudo foi analisar o sistema endocanabinoide, responsável por regular funções como prazer, humor, memória, dor e resposta ao estresse. Ele trabalha como um modulador da atividade cerebral e tem papel central nos mecanismos de recompensa e motivação — processos ligados ao vício.
Embora pesquisas anteriores já indicassem uma relação entre álcool e esse sistema, ainda não havia uma evidência tão forte sobre o tecido cerebral humano. O novo trabalho entra exatamente aí, mostrando como o consumo de álcool altera a expressão de genes endocanabinoides em regiões do cérebro.
Álcool muda o funcionamento do cérebro
Os cientistas analisaram duas regiões do cérebro que têm papel central no comportamento: o córtex pré-frontal, ligado ao controle de impulsos, ao planejamento e às decisões do dia a dia, e o núcleo accumbens, área relacionada à sensação de prazer e à formação de hábitos.
Ao comparar cérebros de pessoas com e sem transtorno por uso de álcool, o estudo encontrou desequilíbrios em genes que regulam essas áreas. Um deles é o CB1, receptor associado ao comportamento de beber e ao risco de recaída, que apresentou aumento de 125% no córtex pré-frontal e 78% no núcleo accumbens.
Em contrapartida, o CB2, que ajuda a proteger o cérebro contra inflamações e danos, teve uma redução significativa. Segundo os pesquisadores, essa queda pode indicar que o cérebro de quem consome bebidas alcoólicas por muitos anos fica mais vulnerável a lesões e prejuízos neurológicos.
Outro achado do estudo envolve o GPR55, um gene que ainda é pouco compreendido pela ciência. Nos cérebros de pessoas que consumiram álcool por muitos anos, a atividade desse gene aumentou no córtex pré-frontal e diminuiu no núcleo accumbens.
Na prática, isso indica que o álcool não afeta o cérebro todo da mesma forma. Cada região responde de um jeito diferente ao consumo prolongado, o que explica também porque a dependência envolve tanto a dificuldade de se controlar quanto a busca constante pela sensação de recompensa.

Caminhos para tratamentos mais eficazes
Ao identificar quais partes do sistema endocanabinoide são afetadas pelo consumo prolongado de álcool e em que regiões do cérebro essas mudanças ocorrem, o estudo ajuda a entender melhor os mecanismos biológicos por trás da dependência.
Para os autores, isso significa que os resultados podem ajudar no desenvolvimento de medicamentos e terapias mais específicas, capazes de atuar exatamente no alvo do problema.
