Uso diário de AAS não previne câncer colorretal em idosos, diz estudo

Pesquisa que envolveu mais de 19 mil pessoas não encontrou benefício no uso da medicação após os 70 anos com a finalidade de evitar câncer

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Freepik
Foto de mão de idosa com comprimidos - Metrópoles
1 de 1 Foto de mão de idosa com comprimidos - Metrópoles - Foto: Freepik

O uso contínuo de ácido acetilsalicílico em baixa dose, que por muitos anos foi visto como um possível aliado na prevenção do câncer colorretal, não demonstrou esse benefício em idosos saudáveis. Essa é a principal conclusão do estudo ASPREE, publicado em janeiro na revista Jama Oncology, que acompanhou mais de 19 mil pessoas na Austrália e nos Estados Unidos por até nove anos.

Durante décadas, acreditou-se que a medicação, mais conhecida pelo nome comercial Aspirina ou pela sigla AAS, poderia exercer um efeito protetor contra o câncer, especialmente o colorretal. A hipótese ganhou força a partir do início dos anos 2000, quando estudos observacionais, muitos deles derivados de pesquisas em cardiologia, sugeriram que pessoas que faziam uso regular do fármaco apresentavam menor risco de desenvolver esse tipo de tumor.

“Essas hipóteses surgiram a partir de estudos não randomizados, nos quais se observava que pacientes em uso de aspirina tinham menos câncer de cólon. Isso acabou sendo aceito pela comunidade científica por um período, mas nunca houve estudos de fase 3 desenhados especificamente para esse objetivo”, explica o oncologista clínico Rodrigo Fogace, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.


Como fazer a detecção precoce do câncer de intestino?

  • Segundo o Ministério da Saúde, a detecção precoce pode ser feita por meio da investigação com exames clínicos, laboratoriais, endoscópicos ou radiológicos, de pessoas com sinais e sintomas sugestivos da doença.
  • Os principais sinais e sintomas sugestivos do câncer são: sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, seja com diarreia e/ou prisão de ventre, além de dor, cólica ou desconforto abdominal;
  • Também podem ser observados casos de fraqueza, indisposição e anemia. Muitas pessoas com tumor colorretal acabam perdendo peso sem causa aparente e sentem uma sensação de inchaço abdominal como se tivessem fezes constantemente presas.

A estudo ASPREE foi desenvolvido para preencher a essa lacuna. O ensaio clínico incluiu 19.114 idosos, com idade média superior a 75 anos, todos saudáveis no início das análises, sem histórico de doenças cardiovasculares, demência ou limitações físicas importantes. Os participantes foram divididos em dois grupos: um recebeu 100 mg de AAS por dia, durante aproximadamente quatro anos e meio, e o outro recebeu um placebo.

Ao longo do acompanhamento, os resultados não confirmaram os benefícios esperados: não houve diferença na incidência global de câncer entre os grupos, nem quando os tumores foram analisados por tipo ou estágio, incluindo o câncer colorretal. Além disso, durante os anos de uso da medicação, houve um aumento de 15% na mortalidade por câncer. Após a interrupção do fármaco, esse risco aumentado não persistiu, o que sugere ausência de um efeito duradouro.

“Alguns estudos anteriores demonstravam redução de 20% a 30% no risco de desenvolver câncer colorretal. Esse foi o maior estudo voltado exclusivamente para a pergunta se o uso da aspirina reduziria ou não o risco de câncer colorretal em idosos”, destaca Fogace.

“A resposta foi clara: não houve redução do risco e, para nossa surpresa, durante o período de uso, houve um pequeno aumento na incidência do mesmo tipo de câncer”.

Uso diário de AAS não previne câncer colorretal em idosos, diz estudo - destaque galeria
12 imagens
De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de que o problema tenha provocado o óbito de cerca de 20 mil pessoas no Brasil apenas em 2019
O mês de março é dedicado à divulgação de informações sobre a doença. Se detectado precocemente, o câncer de intestino é tratável e o paciente pode ser curado
Os principais fatores relacionados ao maior risco de desenvolver câncer do intestino são: idade igual ou acima de 50 anos, excesso de peso corporal e alimentação pobre em frutas, vegetais e fibras
Doenças inflamatórias do intestino, como retocolite ulcerativa crônica e doença de Crohn, também aumentam o risco de câncer do intestino, bem como doenças hereditárias, como polipose adenomatosa familiar (FAP) e câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC)
Doses de café pode reduzir em 30% risco de câncer de intestino
Também conhecido como câncer de cólon e reto ou colorretal, abrange os tumores que se iniciam na parte do intestino grosso -chamada cólon -, no reto e ânus
1 de 12

Também conhecido como câncer de cólon e reto ou colorretal, abrange os tumores que se iniciam na parte do intestino grosso -chamada cólon -, no reto e ânus

Getty Images
De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de que o problema tenha provocado o óbito de cerca de 20 mil pessoas no Brasil apenas em 2019
2 de 12

De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de que o problema tenha provocado o óbito de cerca de 20 mil pessoas no Brasil apenas em 2019

Getty Images
O mês de março é dedicado à divulgação de informações sobre a doença. Se detectado precocemente, o câncer de intestino é tratável e o paciente pode ser curado
3 de 12

O mês de março é dedicado à divulgação de informações sobre a doença. Se detectado precocemente, o câncer de intestino é tratável e o paciente pode ser curado

Getty Images
Os principais fatores relacionados ao maior risco de desenvolver câncer do intestino são: idade igual ou acima de 50 anos, excesso de peso corporal e alimentação pobre em frutas, vegetais e fibras
4 de 12

Os principais fatores relacionados ao maior risco de desenvolver câncer do intestino são: idade igual ou acima de 50 anos, excesso de peso corporal e alimentação pobre em frutas, vegetais e fibras

Getty Images
Doenças inflamatórias do intestino, como retocolite ulcerativa crônica e doença de Crohn, também aumentam o risco de câncer do intestino, bem como doenças hereditárias, como polipose adenomatosa familiar (FAP) e câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC)
5 de 12

Doenças inflamatórias do intestino, como retocolite ulcerativa crônica e doença de Crohn, também aumentam o risco de câncer do intestino, bem como doenças hereditárias, como polipose adenomatosa familiar (FAP) e câncer colorretal hereditário sem polipose (HNPCC)

Getty Images
Doses de café pode reduzir em 30% risco de câncer de intestino
6 de 12

Doses de café pode reduzir em 30% risco de câncer de intestino

Getty Images
Os sintomas mais associados ao câncer do intestino são: sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, dor ou desconforto abdominal, fraqueza e anemia, perda de peso sem causa aparente, alteração das fezes e massa (tumoração) abdominal
7 de 12

Os sintomas mais associados ao câncer do intestino são: sangue nas fezes, alteração do hábito intestinal, dor ou desconforto abdominal, fraqueza e anemia, perda de peso sem causa aparente, alteração das fezes e massa (tumoração) abdominal

Getty Images
O diagnóstico requer biópsia (exame de pequeno pedaço de tecido retirado da lesão suspeita). A retirada da amostra é feita por meio de aparelho introduzido pelo reto (endoscópio)
8 de 12

O diagnóstico requer biópsia (exame de pequeno pedaço de tecido retirado da lesão suspeita). A retirada da amostra é feita por meio de aparelho introduzido pelo reto (endoscópio)

Getty Images
O tratamento depende principalmente do tamanho, localização e extensão do tumor. Quando a doença está espalhada, com metástases para o fígado, pulmão ou outros órgãos, as chances de cura ficam reduzidas
9 de 12

O tratamento depende principalmente do tamanho, localização e extensão do tumor. Quando a doença está espalhada, com metástases para o fígado, pulmão ou outros órgãos, as chances de cura ficam reduzidas

Getty Images
A cirurgia é, em geral, o tratamento inicial, retirando a parte do intestino afetada e os gânglios linfáticos dentro do abdome. Outras etapas do tratamento incluem a radioterapia, associada ou não à quimioterapia, para diminuir a possibilidade de retorno do tumor
10 de 12

A cirurgia é, em geral, o tratamento inicial, retirando a parte do intestino afetada e os gânglios linfáticos dentro do abdome. Outras etapas do tratamento incluem a radioterapia, associada ou não à quimioterapia, para diminuir a possibilidade de retorno do tumor

Getty Images
A manutenção do peso corporal adequado, a prática de atividade física, assim como a alimentação saudável são fundamentais para a prevenção do câncer de intestino
11 de 12

A manutenção do peso corporal adequado, a prática de atividade física, assim como a alimentação saudável são fundamentais para a prevenção do câncer de intestino

Getty Images
Além disso, deve-se evitar o consumo de carnes processadas (por exemplo salsicha, mortadela, linguiça, presunto, bacon, blanquet de peru, peito de peru, salame) e limitar o consumo de carnes vermelhas até 500 gramas de carne cozida por semana
12 de 12

Além disso, deve-se evitar o consumo de carnes processadas (por exemplo salsicha, mortadela, linguiça, presunto, bacon, blanquet de peru, peito de peru, salame) e limitar o consumo de carnes vermelhas até 500 gramas de carne cozida por semana

Getty Images

As razões para esse achado ainda não são totalmente compreendidas. Entre as hipóteses levantadas estão mudanças no microambiente intestinal associadas ao envelhecimento, alterações na resposta imunológica e a possibilidade de que alguns participantes já tivessem tumores microscópicos no início do estudo.

“São explicações possíveis, mas é importante deixar claro que não podemos afirmar que a aspirina cause câncer. O estudo não foi desenhado para responder a essa pergunta”, ressalta o oncologista.

A nova pesquisa tampouco responde se há benefício em usar o ácido acetilsalicílico em pessoas mais jovens como forma de evitar o câncer. “Uma grande diferença dos estudos de pacientes mais jovens é que esses utilizavam a aspirina por muito mais tempo do que esse estudo em idosos propôs. Será que esse é um dos fatores que influenciou nos achados? Infelizmente, não conseguimos afirmar”, observa Fogace.

Para o especialista, os resultados reforçam os limites da extrapolação científica. “Não podemos assumir que estratégias que funcionam em pessoas mais jovens terão o mesmo efeito em idosos. O estudo deixa claro que a aspirina não é uma estratégia universal de prevenção do câncer colorretal e que seu uso deve ser feito com muita cautela e apenas em situações muito específicas”, afirma o oncologista do Einstein Goiânia.

Entre esses casos com indicação estão pessoas com síndrome de Lynch, com histórico de múltiplos adenomas ressecados e pacientes que já utilizam aspirina para prevenção de eventos cardiovasculares. Na dúvida, converse com seu médico para entender a conduta ideal ao seu perfil.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comSaúde

Você quer ficar por dentro das notícias de saúde mais importantes e receber notificações em tempo real?