Vídeo desmente versão de PMs que mataram eletricista rendido em SP
SSP foi questionada sobre afastamento de policais, afirmando somente que ambos foram encaminhados para “avaliação psicológica”
atualizado
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Imagens captadas por uma câmera de monitoramento (assista abaixo) desmentem a versão dada por dois policiais militares (PMs) que atiraram, ao menos sete vezes, e mataram o eletricista Igor Eduardo Hyppolito Rodrigues, de 45 anos.
No último dia 29, Igor Hyppolito desembarcou de seu carro, em uma via movimentada do Jaguaré, zona norte paulistana, e partiu com uma faca para cima de um motociclista. Ambos teriam se desentendido, por conta do trânsito, instantes antes.
Uma viatura da Polícia Militar trafegava pela Avenida Raimundo Pereira de Magalhães e, ao perceber a situação, parou. Enquanto o cabo Cauan Alencar Bastos e o soldado José Otávio Ribeiro desembarcavam, o motoqueiro correu e o eletricista ficou parado.
Desembarque com tiros
O vídeo mostra que, assim que desembarcam, os PMs atiraram sem nenhum motivo aparente, até que o eletricista caiu no asfalto, no mesmo ponto onde já permanecia parado, desde a chegada dos militares. Igor era neurodivergente.
No relato à Polícia Civil, na ocasião do assassinato, os PMs contaram outra história, na qual afirmaram que Igor “insurgiu” contra eles que, por isso, atiraram sete vezes “no intuito de impedir a suposta injusta agressão”.
A vítima foi encaminhada ainda com vida ao Hospital Parada de Taipas, onde morreu. Igor foi baleado, ao menos duas vezes, na região entre as costelas e o quadril, conforme registros oficiais.
Família procura Corregedoria
Diante da imagens, que desmentem o relato do cabo e do soldado, a família do eletricista procurou a Corregedoria da PM, na manhã dessa terça-feira (12/05).
A Secretaria da Segurança Pública (SSP), assim como a PM, foi questionada sobre a situação. Em nota, semelhante à encaminhada na ocasião da morte de Igor, foi afirmado que os miltiares “conforme protocolo […] foram encaminhados para avaliação psicológica”.
Nenhuma menção ao eventual afastamento dos PMs, ou qualquer outra medida, relacionada ao falso testemunho de ambos, foi mencionada na nota encaminhada à reportagem. O espaço segue aberto. O caso também é apurado pela Corregedoria da PM, por meio de um inquérito.
Neurodivergente funcional
Familiares afirmaram, em condição de anonimato, que Igor foi diagnosticado como neurodivergente, aos 8 anos. Desde então, fazia tratamento com remédios e, acrescentou uma parente, era uma pessoa funcional. “Ele trabalha como eletricista, com pequenos reparos, faz muitos anos. Ele tinha traços de autismo, TDAH [Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade] e epilepsia”, listou.
No fim da tarde do último dia 29 de abril, Igor voltava de um serviço, guiando seu Chevrolet Corsa Hatch, quando se envolveu no suposto acidente de trânsito, em frente a uma lanchonete. Ele levava consigo uma faca, reconhecida por familiares, que não entendem os motivos para ele sacá-la e transportá-la.
Uma parente ouvida pela reportagem lamentou ainda que os PMs não contavam com armas de choque, para intervir de forma não letal contra o Igor. “O desfecho da história poderia ter sido diferente”, lamentou.
“Gente boa”
Igor, como pontuou uma pessoa próxima, era muito falante e gostava de participar dos encontros familiares. “Ele era aquela pessoa que se posicionava ao lado das crianças, nas fotos de parabéns atrás do bolo. Era gente boa”.
A familiar ainda diz que, nos 15 dias que antecederam o indidente, o eletricista vivia uma séria de problemas pessoais, que podem ter contribuído para desestabilizá-lo. A “gota d’água”, acredita, pode ter sido o acidente de trânsito.
O corpo do eletricista foi velado e sepultado no Cemitério Dom Bosco, na zona norte de São Paulo. Ele não era casado e não deixa filhos.








