PMs matam eletricista a tiros ao atender ocorrência de acidente em SP
Igor Hyppolito era neurodivergente e segurava faca, de acordo com PMs. Familiares questionam ausência de arma de choque em viatura
atualizado
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O eletricista Igor Eduardo Hyppolito Rodrigues, de 45 anos, foi morto com ao menos dois tiros, dados por policiais militares, em uma abordagem feita após um acidente de trânsito em que se envolveu com um motociclista.
O caso, registrado como resistência e morte decorrente de intervenção policial, ocorreu no início da noite dessa quarta-feira (29/04), na região do Jaraguá, zona norte paulistana.
PMs relataram que patrulhavam a região quando foram acionados para intervir em uma suposta discussão, entre duas pessoas, motivada por um desentendimento no trânsito.
Ao chegarem, na altura do número 11.620 da Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, os PMs afirmaram, em depoimento à Polícia Civil, terem avistado Igor empunhado uma faca, cuja lâmina contava com aproximadamente 30 centímetros de comprimento.
Foi neste momento, ainda de acordo com os militares, que o eletricista supostamente “insurgiu contra o motociclista e a equipe de policiais [um cabo e um soldado]” que, por isso, “efetuaram, respectivamente, seis e um disparos de suas armas de fogo, no intuito de impedir a suposta injusta agressão”.
Igor foi encaminhado ainda com vida ao Hospital Parada de Taipas, onde morreu. Ele foi baleado, ao menos duas vezes, na região entre as costelas e o quadril, conforme registros oficiais.
Sem armas de choque
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou ao Metrópoles, em nota encaminhada nesta sexta-feira (1º/5), que os dois policiais usavam câmeras corporais, contrariando o boletim de ocorrência do 74º Distrito Policial (Parada de Taipas), no qual consta que os militares não portavam os equipamentos.
A PM instaurou um inquérito policial militar (IPM), por meio do qual apura “todas as circunstâncias do caso”, incluindo “a análise das COPs [câmeras corporais]”.
“Os policias foram encaminhados para avaliação psicológica e estão afastados do serviço operacional”, acrescentou.
Além o IPM, o caso também é investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa, que procura câmeras de monitoramento que possam ajudar a entender a dinâmica da ocorrência.
Neurodivergente funcional
Familiares afirmaram, em condição de anonimato, que Igor foi diagnosticado como neurodivergente aos 8 anos. Desde então, fazia tratamento com remédios e, acrescentou uma parente, era uma pessoa funcional. “Ele trabalha como eletricista, com pequenos reparos, faz muitos anos. Ele tinha traços de autismo, TDAH [Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade] e epilepsia”, listou.
No fim da tarde de quarta-feira, Igor voltava de um serviço, guiando seu Chevrolet Corsa Hatch, quando se envolveu no suposto acidente de trânsito, em frente a uma lanchonete. Ele levava consigo uma faca, reconhecida por familiares, que não entendem os motivos para ele sacá-la e transportá-la.
Uma parente ouvida pela reportagem lamentou ainda que os PMs não contavam com armas de choque, para intervir de forma não letal contra o Igor. “O desfecho da história poderia ter sido diferente”, lamentou.
“Gente boa”
Igor, como pontuou uma pessoa próxima, era muito falante e gostava de participar dos encontros familiares. “Ele era aquela pessoa que se posicionava ao lado das crianças, nas fotos de parabéns atrás do bolo. Era gente boa”.
A familiar ainda diz que, nos últimos 15 dias, o eletricista vivia uma séria de problemas pessoais, que podem ter contribuído para desestabilizá-lo. A “gota d’água”, acredita, pode ter sido o acidente de trânsito.
O corpo do eletricista é velado e será sepultado na tarde desta sexta-feira, no Cemitério Dom Bosco, na zona norte de São Paulo. Ele não era casado e não deixa filhos.






