Tragédia social e crime persistem em avenida da Linha 17-Ouro em SP

Insegurança, crack e problemas sociais se espalham pela Avenida Jornalista Roberto Marinho, cortada pelo monotrilho da Linha 17-Ouro em SP

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

William Cardoso/Metrópoles
Imagem mostra cena urbana - Metrópoles
1 de 1 Imagem mostra cena urbana - Metrópoles - Foto: William Cardoso/Metrópoles

A Avenida Jornalista Roberto Marinho, na zona sul de São Paulo, tem pouco mais de cinco quilômetros e contará com seis das oito estações da Linha 17-Ouro, que deverá ser inaugurada nos próximos dias, após 12 anos de atraso. Mesmo com a obra, problemas sociais e criminalidade persistem na região, que já teve uma das maiores favelas da capital paulista.

Quem olha apenas para as estações e estruturas em concreto suspensas sobre a antiga Água Espraiada corre o risco de ignorar o que acontece logo abaixo, onde barracas se apoiam nas pilastras do monotrilho e calçadas e praças têm pessoas em situação de rua. Usuários de crack e outras drogas, como o álcool, vivem no local há décadas.

O cenário traz insegurança. Duas amigas da vendedora Larissa Nascimento, 24 anos, foram assaltadas na avenida. Até por isso, ela mudou a estratégia ao caminhar pelo local. “Nesse horário [à tarde], quando a gente vem com o povo do trabalho, é mais tranquilo. Mas para andar sozinha, dá um pouco de medo”, diz.

De fato, basta observar o caminhar apressado de trabalhadores, em especial mulheres, mesmo em meio à tarde, para notar que existe uma evidente sensação de insegurança na Roberto Marinho.

Tragédia social e crime persistem em avenida da Linha 17-Ouro em SP - destaque galeria
10 imagens
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
1 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
2 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
3 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
4 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
5 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
6 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
7 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
8 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
9 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles
Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo
10 de 10

Proximidades da Linha 17-Ouro, em São Paulo

William Cardoso/Metrópoles

A professora de educação física Rachel Lima, 27 anos, passou até a mudar o caminho por causa dos problemas na Roberto Marinho. Anteriormente, ela atravessava a via pela Avenida Portugal, onde há um semáforo. Agora, prefere cruzar pelo viaduto da Avenida Santo Amaro. “Já relataram bastante assalto e também presenciei, dentro de um carro. Não foi nem pedestre”, afirma.

Números

Antes mesmo de os trens começarem a rodar e atrair passageiros, porém, a ação de criminosos na via já registrou aumento, entre 2024 e 2025, na contramão do que ocorre na vizinhança como um todo, como mostram os números da Secretaria da Segurança Pública (SSP).

A Polícia Civil registrou 44 furtos e 45 roubos de celular ao longo da Roberto Marinho em 2025, um lugar onde motoristas andam com os vidros fechados na tentativa de impor alguma barreira à ação de criminosos, como também na maioria das vias da capital paulista. Em 2024, foram 38 e 33 casos, respectivamente.

A ação da criminalidade na avenida vai muito além de ladrões levando smartphones. Com relação aos roubos de objetos em geral, saltaram de 50 para 94. Já os furtos tiveram redução, de 66 para 52.

Os números da produtividade policial mostram que foram realizados 40 flagrantes pelas forças de segurança na via em 2025, ante 30 do ano anterior.

Ao longo do ano passado, 74 pessoas foram presas na Roberto Marinho, ante 55, em 2024. Os casos envolvendo apreensão de entorpecentes também tiveram alta, de 14 para 17, embora o universo analisado seja reduzido, diante da realidade vista nas ruas.

O Metrópoles usou a metodologia indicada pela pasta, que pede a remoção de ocorrências registradas em duplicidade nas planilhas, com a exclusão por nome de delegacia, ano e número de BO.

Violência

A criminalidade e a miséria na região ganharam registro até mesmo na cultura popular, ainda nos anos 1990, com as músicas do falecido rapper Sabotage retratando a realidade de quem vivia na pequena Favela do Canão, que compunha o gigantesco conjunto de casebres e barracos ao longo da avenida. Como diz o músico em “Rap é Compromisso”, “No Brooklin”.

Trabalhadores das obras do monotrilho da Linha 17-Ouro conhecem bem a situação. Em conversa com a reportagem, contaram que, na última semana, o funcionário de uma empresa de internet teve uma escada levada por ladrões. Também contaram que, um dia depois, um homem identificado como sendo policial quase perdeu a moto deixada nas proximidades da futura Estação Vereador José Diniz. Chegou no momento exato para impedir o crime.

Abordagem violenta de agentes públicos, como o rapa e a Guarda Civil Metropolitana (GCM), da prefeitura, além da Polícia Militar (PM), do governo estadual, também são um ponto em comum nas falas de trabalhadores que ergueram o monotrilho e pessoas em situação de rua.

A truculência se intensificou nos últimos meses, com a proximidade da inauguração da Linha 17-Ouro. Barracas, colchões, cobertas, objetos pessoais e até documentos têm sido arrancados de quem vive ao relento na avenida.

O fechamento de um albergue nas proximidades do monotrilho, transferido para outra região, também é visto como uma forma de dificultar a vida de quem procura ajuda. No local, eles tinham serviços básicos de higiene, como banho.

Um usuário de crack de 49 anos, há 15 em situação de rua, disse que chegou a ser acordado com spray de pimenta na cara. Balas de borracha e pancadaria fazem parte do tratamento dado pelos agentes públicos. “O que eles estão fazendo com nós é tiração”, disse.

A gente não aceita ser tratado como animal”, afirmou uma mulher, de 23 anos, que já viveu no passado na Cracolândia, no centro, e hoje está na Roberto Marinho. Ela vive desde os 18 anos nas ruas.

Entre quem está próximo do monotrilho, também é comum o relato de que a região chegou a receber integrantes da antiga Cracolândia, após a dispersão ocorrida no ano passado, no centro, há mais de 12 km de distância. As afirmações coincidem com relatos colhidos pela reportagem em outros momentos, de que usuários passaram a adotar comportamento itinerante atrás de lugares para consumir a droga.

O que diz o governo estadual

O policiamento na região da Avenida Jornalista Roberto Marinho foi reorientado e reforçado, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP), do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos).

“Nas áreas abrangidas pelos 27º e 96º Distritos Policiais, os roubos em geral apresentaram redução de 7,27% e 9,84%, respectivamente, em janeiro deste ano, ante o mesmo período do ano passado. No mesmo intervalo, 112 infratores foram presos ou apreendidos e mais de 4,2 toneladas de entorpecentes apreendidas”, afirma.

Segundo o governo, as forças de segurança mantêm um trabalho multidisciplinar no local, em conjunto com outros órgãos públicos, com ações voltadas à segurança e ao atendimento de pessoas em situação de vulnerabilidade social.

“O monitoramento constante dos indicadores criminais permite o direcionamento das equipes e o planejamento de operações em pontos com maior incidência de crimes, especialmente em áreas de grande circulação de pessoas, como o entorno da futura Linha 17-Ouro”, diz.

Segundo a SSP, o combate aos roubos e furtos de celulares tem ações específicas, como o programa SP Mobile, que desde 2025 emite notificações a celulares com restrição criminal, mais efetiva contra a receptação.

“Desde o início da atual gestão, mais de 82,6 mil aparelhos foram recuperados, com devolução de mais de 50% às vítimas e a prisão em flagrante de mais de 1,2 mil criminosos. Em janeiro deste ano, os indicadores de roubos e furtos de celulares apresentaram queda de 11% na capital em comparação com o mesmo período do ano passado” diz.

O governo diz que todas as áreas externas relacionadas às obras da Linha 17 Ouro são monitoradas regularmente por equipes do Metrô. Há vigilantes fixos nos canteiros de estações e do pátio, além de rondas de apoio.

“Também são realizadas rotinas de capina e limpeza nessas áreas. Sobre o tratamento urbanístico ao longo da Avenida Jornalista Roberto Marinho, o Metrô já executou o plantio compensatório previsto no licenciamento ambiental e mais de 65% do paisagismo sob a via elevada. O plantio de grama e arbustos segue em andamento. As áreas das margens do córrego e sua limpeza permanecem sob responsabilidade da prefeitura”, afirma.

O que diz a Prefeitura de São Paulo

A Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB), diz que tem um trabalho contínuo de oferta de tratamento e acolhimento a pessoas em situação de rua e vulnerabilidade, além das ações de zeladoria e segurança, combatendo o tráfico de drogas e outros crimes.

“A região da Avenida Roberto Marinho é acompanhada de forma permanente por equipes da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, da Secretaria Municipal de Saúde e do Programa Redenção, que realizam abordagens, identificação, orientação e encaminhamentos desse público para a rede socioassistencial. Somente pela SMS, foram cerca de 150 abordagens no local, com 36 encaminhamentos voluntários efetivados para a rede de saúde nos últimos 30 dias”, afirma.

Segundo a prefeitura, os Centros de Acolhida destinam-se ao pernoite de pessoas atendidas pelas equipes do Serviço Especial de Abordagem Social (SEAS), Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) ou pelos Centros Pop.

“Ressalta-se que, até o momento, as vagas de acolhimento disponibilizadas não foram aceitas por parte dessas pessoas, que seguem sendo acompanhadas diariamente. A SMADS não registrou qualquer alteração no fluxo de atendimento do Centro de Acolhida Santo Amaro em razão da mudança de endereço. Todos os usuários que manifestaram interesse foram transferidos para a nova unidade”, afirma.

Sobre a atuação da GCM, a prefeitura diz que a guarda complementa esse trabalho com policiamento ostensivo 24h por dia em toda a capital e aumentou a frequência das rondas nas imediações, principalmente no período noturno.

“Na Zona Sul, o monitoramento é reforçado por mais de 8,5 mil câmeras inteligentes do programa Smart Sampa”, afirma.

A prefeitura afirma que a via também tem recebido serviços de zeladoria, como pintura antipichação, corte de grama e poda de árvores, além da limpeza em toda a sua extensão, com a retirada de estacas e outros objetos usados durante os trabalhos das obras da Linha 17-Ouro. A Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB) prevê concluir os trabalhos até esta segunda-feira (30).

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comSão Paulo

Você quer ficar por dentro das notícias de São Paulo e receber notificações em tempo real?