Ibirapuera tem 50 crimes em 3 meses e até “sequestro de celular”. Veja vídeo
Relatório da própria Urbia registrou ao menos 50 furtos ou tentativas de furtos no 4º trimestre de 2025 no Parque Ibirapuera, em São Paulo
atualizado
Compartilhar notícia

Os relatórios da própria concessionária Urbia mostram que, entre outubro e dezembro de 2025, foram registrados ao menos 50 crimes cometidos por ladrões no Parque Ibirapuera, na zona sul de São Paulo. De forma geral, a Urbia se exime de responsabilidade ao ser acionada por frequentadores, diz que a proteção dos cidadãos cabe às autoridades de segurança pública, orienta a fazer boletim de ocorrência e chama a Guarda Civil Metropolitana (GCM) para resolver os problemas.
Os números da concessionária não excluem a possibilidade de que mais crimes tenham sido cometidos no parque e registrados diretamente na Polícia Civil, sem o conhecimento dos vigilantes ou acionamento da própria Urbia.
Só na Avenida Pedro Álvares Cabral, principal endereço do parque, constam 114 furtos de celular no último trimestre de 2025, por exemplo, mas não seria possível afirmar que todos ocorreram no interior do Ibirapuera. Outros dez casos envolvendo furto de celulares têm como logradouro especificamente “Parque Ibirapuera”.
Além de smartphones, bicicletas estão entre os principais alvos dos ladrões que atuam no local.
Incapaz de promover a segurança dos frequentadores, a concessionária recorreu ao Poder Público. Na manhã da última sexta-feira (20/2), por exemplo, a reportagem flagrou a presença até mesmo de viatura do Comando de Policiamento de Choque, da Polícia Militar (PM), fazendo patrulhamento no interior do parque.
A presença do Choque no policiamento preventivo dentro do Ibirapuera chama a atenção, porque no dia a dia esse tipo de efetivo é convocado para atuar no controle de multidões (jogos de futebol, manifestações, etc.) e no combate ao crime organizado, com enfrentamento a quadrilhas fortemente armadas.
Nos registros aos quais o Metrópoles teve acesso, até mesmo vendedores foram vítimas de criminosos, como eles próprios já tinham relatado à reportagem. Em 25 de outubro, por exemplo, a proprietária de um quiosque nas proximidades da Praça do Leão chegou para trabalhar por volta das 10h20 e percebeu que o local foi violado e teve mercadorias furtadas, incluindo duas caixas de chocolate. A resposta do vigilante foi a de que deveria procurar a administração.
Houve furto até na área de resíduos do parque. No dia 6 de novembro, um funcionário de uma das empresas que fornecem cocos para os vendedores relatou que, ao chegar para trabalhar, por volta das 6h30, notou que quatro cabos carregadores de carrinhos elétricos e um macaco hidráulico tinham sido levados por criminosos.
Violência
Embora anotadas como furtos (43 ocorrências) ou tentativas de furtos (7), há casos em que fica evidente que a pessoa foi vítima de roubo, quando há violência no ato, inclusive sob ameaça de arma de fogo, dentro do parque.
No dia 31 de outubro, por volta das 22h30, quatro jovens abordaram um frequentador e levaram um Iphone 15 Pro Max, um boné e um tênis. A vítima procurou uma vigilante, que acionou a Guarda Civil Municipal (GCM).
Seguranças privados que trabalham no parque admitem em conversas que a falta de iluminação em alguns trechos do Ibirapuera facilita a ação de criminosos. Como mostrou o Metrópoles na semana passada, comerciantes relataram que a região em frente ao lago chegou a ficar 20 dias sem luz.
A Prefeitura, por meio da SP Regula, disse que o trecho citado teve a iluminação restabelecida, “após a verificação de dois pontos com cabos partidos”. E que, em episódio anterior, foi registrada uma falha na rede da Enel, que resultou na interrupção do fornecimento de energia elétrica e comprometeu a iluminação em alguns pontos do parque. “A ocorrência foi solucionada pela concessionária em 14 de fevereiro”, diz a gestão.
Crimes violentos não aconteceram apenas durante a noite, no entanto. Um dos roubos ocorreu por volta das 11h, dentro de um banheiro, em 1º de novembro. A vítima relatou que quatro pessoas aparentemente armadas levaram uma bolsa com Iphone, par de fones de ouvido sem fio, chaves de casa, bilhete único, maço de cigarros e corrente de prata.
Também houve situação em que evidente tentativa de furto foi registrada como vandalismo, como o caso em que ladrões tentavam arrombar a trava de segurança de uma bicicleta nas proximidades das quadras e, segundo o relatório da própria concessionária, foram orientados a deixar o parque.
De forma geral, as bicicletas são os itens mais furtados no parque, segundo os registros do relatório da própria concessionária. Nem mesmo aquelas que estão presas por cadeados, correntes ou trancas estão a salvo. Vale ressaltar que o Ibirapuera tem apenas paraciclos (“U” invertido) e não conta com bicicletários (estacionamentos com segurança).
Além das bicicletas dos próprios frequentadores, vigilantes também atuaram para recuperar bikes alugadas, que estariam sob posse de pessoas que não tinham o ticket de locação do Ibirabike, o serviço oficial do parque.
“Sequestro de celular”
Um dos casos registrados é o que se pode chamar de “sequestro de celular”, ocorrido em 22 de dezembro. Segundo o relato colhido pela própria concessionária, o frequentador teve o aparelho furtado na área das quadras e, daquilo que é possível compreender no registro, o responsável pelo crime entrou em contato por outro whatsapp pedindo R$ 3.000 para devolver o telefone.
A troca do dinheiro pelo celular foi marcada na quadra e acompanhada pela equipe de segurança do parque, que foi acionada pela vítima por volta das 19h40. O “sequestrador” compareceu e, sob as vistas da GCM e dos vigilantes, não recebeu os R$ 3.000 que desejava. O homem que teve o aparelho furtado decidiu não registrar boletim de ocorrência.
Canais de atendimento
Além das reclamações registradas junto ao corpo de segurança, a Urbia recebeu também 24 queixas sobre furtos feitas diretamente em seus canais de atendimento. Na descrição, fica evidente a predileção dos ladrões pelas bicicletas.
De forma geral, a concessionária respondeu os chamados abertos pelos frequentadores atribuindo à Guarda Civil Municipal (GCM) a responsabilidade pela segurança no parque.
Por exemplo, no dia 1º de outubro de 2025, um frequentador fez uma reclamação a respeito da insegurança. Como resposta, a Urbia disse que lamentava os episódios vivenciados nos arredores e se eximiu de responsabilidade sobre questões relacionadas à segurança pública.
“Reforçamos também que o Parque Ibirapuera é uma área pública, e a segurança continua sendo responsabilidade da Guarda Civil Metropolitana, que realiza rondas regulares com viaturas em diversos pontos do parque”, disse a concessionária para o frequentador.
Quando não atribui à GCM a segurança no parque, a concessionária responsabiliza terceiros ao ser procurada por usuários. No dia 17 de outubro, registrada sob o número 107109, a reclamação de um frequentador foi a respeito de um furto no estacionamento do parque, mas a concessionária também alegou que não era um problema que cabia a ela, mas à empresa que administra o local, a Indigo.
No relatório trimestral de atividades apresentado à prefeitura, a Urbia cita questões relacionadas à segurança em apenas 5 das 291 páginas. A concessionária afirma que conta com 257 câmeras, ronda motorizada, guaritas elevadas, telefone de emergência e cita até os coletes refletivos como parte das ações desenvolvidas. Também fala em integração com GCM e PM, “onde o contato, sempre respeitoso, cria sinergia e apoia a operação”.
Entre os críticos da concessão, o contrato firmado entre prefeitura e Urbia é apontado como extremamente indulgente em relação à concessionária.
Urbia culpa Estado
Ao Metrópoles, a Urbia (leia nota na íntegra abaixo) afirmou que “segurança pública é dever do Estado” e disse que já oficiou formalmente o poder público “dezenas de vezes” solicitando reforço de policiamento no Parque Ibirapuera. A concessionária alega que, até o momento, não recebeu resposta efetiva.
“A concessionária não possui poder de polícia. Não pode deter, investigar ou punir indivíduos. Sua responsabilidade contratual limita-se à segurança patrimonial do equipamento e ao apoio operacional às autoridades competentes”, diz a empresa.
A Urbia afirma que “nos casos pontuais registrados no parque”, as equipes são imediatamente acionadas para prestar acolhimento às vítimas, comunicar as autoridades policiais competentes e orientar quanto à formalização do boletim de ocorrência.
A empresa diz ainda que “também é vítima de ocorrências criminosas” e que a expectativa de que exerça funções típicas de Estado desconsidera os limites legais e constitucionais da concessão.
O que dizem a Prefeitura e a SSP
Em nota, a Prefeitura de São Paulo disse que o modelo de concessões adotado pela gestão atual “tem melhorado” os equipamentos públicos da cidade, como o Parque Ibirapuera, com “altos índices de aprovação nas pesquisas de satisfação”.
“Cabe destacar que o contrato de concessão possui obrigações rigorosas quanto à garantia da segurança patrimonial e dos frequentadores, que incluem ações já realizadas como o monitoramento por câmeras integradas ao Centro de Controle Operacional e rondas periódicas da GCM, de forma coordenada com a concessionária. Além disso, o entorno do parque conta, também, com câmeras do programa Smart Sampa”, diz a gestão Ricardo Nunes (MDB).
O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP) sobre os casos e sobre a presença de uma viatura de Choque no parque. Em nota, a SSP disse que o policiamento na região é realizado “de forma integrada e estratégica pelas forças de segurança”.
“O patrulhamento preventivo e ostensivo é feito de maneira contínua, com o emprego de diferentes equipes, definidas a partir de critérios técnicos e operacionais, como análise de indicadores criminais, fluxo de pessoas e realização de grandes eventos”, diz a pasta.
A nota alega ainda que todas as ocorrências registradas são apuradas, e que em 2025 os roubos em geral apresentaram redução de 16,17% na área da 2ª Delegacia Seccional — que abrange a região — em comparação com 2024. “No mesmo período, 4.289 infratores foram presos ou apreendidos, representando aumento de 11,8% em relação ao ano anterior”, termina a nota.
Veja os posicionamentos completos de todos os citados abaixo:
Nota Urbia:
A Urbia esclarece que a segurança pública é dever do Estado, conforme estabelece expressamente o artigo 144 da Constituição Federal. O Parque Ibirapuera é um espaço público e, como qualquer outro logradouro da cidade, o policiamento ostensivo, a repressão a crimes, a investigação e a responsabilização de infratores são atribuições exclusivas das forças policiais e Justiça.
A concessionária não possui poder de polícia. Não pode deter, investigar ou punir indivíduos. Sua responsabilidade contratual limita-se à segurança patrimonial do equipamento e ao apoio operacional às autoridades competentes.
Nos casos pontuais registrados no parque, as equipes, treinadas e capacitadas para esse tipo de ocorrência, são imediatamente acionadas para prestar acolhimento às vítimas, comunicar as autoridades policiais competentes e orientar quanto à formalização do boletim de ocorrência, medida essencial para viabilizar investigação e responsabilização.
A Urbia já oficiou formalmente o poder público dezenas de vezes, por meio de comunicações oficiais registradas, solicitando reforço de policiamento no Parque Ibirapuera, sem que tenha recebido resposta efetiva até o momento.
É fundamental esclarecer que a concessionária também é vítima de ocorrências criminosas e que a expectativa de que exerça funções típicas de Estado desconsidera os limites legais e constitucionais da concessão.
Ainda assim, o Ibirapuera conta com 283 câmeras de monitoramento (sendo as instaladas nos portões de entrada integradas ao programa Smart Sampa), centro de controle operacional 24 horas, 34 postos fixos e volantes de vigilância e patrulhamento diário com veículos, motocicletas e bicicletas. Todas as imagens são disponibilizadas às autoridades sempre que há solicitação oficial.
A Urbia reforça a importância de que a discussão pública sobre segurança seja direcionada aos órgãos constitucionalmente responsáveis pelo policiamento e investigação, para que a sociedade possa cobrar as providências cabíveis de quem detém competência legal para agir.
A concessionária seguirá colaborando integralmente com as autoridades, dentro dos limites legais da concessão, reafirmando que a responsabilidade pelo policiamento e pela repressão criminal é competência do Estado.
Nota SSP:
O policiamento na região é realizado de forma integrada e estratégica pelas forças de segurança. O patrulhamento preventivo e ostensivo é feito de maneira contínua, com o emprego de diferentes equipes, definidas a partir de critérios técnicos e operacionais, como análise de indicadores criminais, fluxo de pessoas e realização de grandes eventos. Paralelamente, a Polícia Civil apura todas as ocorrências registradas, visando ao esclarecimento dos fatos e à responsabilização dos envolvidos.
Como resultado desses esforços, em 2025 os roubos em geral apresentaram redução de 16,17% na área da 2ª Delegacia Seccional — que abrange a região — em comparação com 2024. No mesmo período, 4.289 infratores foram presos ou apreendidos, representando aumento de 11,8% em relação ao ano anterior.
Nota Prefeitura de São Paulo:
A Prefeitura de São Paulo ressalta que o modelo de concessões da atual gestão tem melhorado as estruturas de importantes equipamentos públicos da cidade, como o Parque Ibirapuera, ao registrar o maior número de visitantes dos últimos cinco anos e altos índices de aprovação nas pesquisas de satisfação. O Datafolha realizou mil entrevistas no Ibirapuera nos dias 30 de novembro e 7 de dezembro de 2025 com pessoas com 16 anos ou mais.
A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) segue cumprindo rigorosamente seu papel de fiscalizar as ações da concessionária Urbia. Cabe destacar que o contrato de concessão possui obrigações rigorosas quanto à garantia da segurança patrimonial e dos frequentadores, que incluem ações já realizadas como o monitoramento por câmeras integradas ao Centro de Controle Operacional e rondas periódicas da GCM, de forma coordenada com a concessionária. Além disso, o entorno do parque conta, também, com câmeras do programa Smart Sampa.
A SP Regula informa que o trecho citado pela reportagem teve a iluminação restabelecida, após a verificação de dois pontos com cabos partidos. Em episódio anterior, foi registrada uma falha na rede da Enel, que resultou na interrupção do fornecimento de energia elétrica e comprometeu a iluminação em alguns pontos do parque. A ocorrência foi solucionada pela concessionária em 14 de fevereiro. Além disso, a gestão realiza a manutenção e a requalificação de forma preventiva.
















