Tenente afastado após matar sete no 1º ano de PM ingressa na Rota
Corporação tirou Ian Lopes de Lima das ruas em junho do ano passado, transferindo-o para setor administrativo até janeiro deste ano
atualizado
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Após ser afastado das ruas, já com sete mortes de suspeitos em seu histórico, em pouco menos de um ano de atuação como policial militar (PM), o tenente Ian Lopes de Lima (imagem em destaque) voltou ao policiamento ostensivo, em janeiro deste ano, como consta em publicações oficiais do governo estadual. Entre o afastamento e a volta ao patrulhamento nas ruas, ele foi promovido de 2º para 1º tenente.
Além disso, uma postagem na internet, no fim de semana que passou, celebra o reingresso do oficial às Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), do Batalhão de
Choque da PM paulista.
O Metrópoles revelou, em 2024, que Ian participou de ocorrências que resultaram nas 7 mortes em seu primeiro ano como oficial. Isso teria provocado seu afastamento, na primeira quinzena de junho do ano seguinte, quando ele foi remanejado para o setor administrativo do Comando de Policiamento de Área 10 (CPA/M-10), responsável pela zona sul paulistana.
O Comando de Ações Especiais de Polícia (Caep), ligado ao CPA/M-10, compartilhou em seu perfil, no Instagram, despedida do oficial. “Que sua liderança e idealismo continuem intactos no cumprimento do dever. Vá e vença”, diz trecho da homenagem.
Entre as fotos que acompanham a legenda, há uma na qual o tenente está ao lado do comandante-geral da PM, o Coronel José Augusto Coutinho (veja galeria acima). Ambos permanecem no centro do grupo de policiais, que posa para o registro.
Em 6 janeiro deste ano, foi publicado no Diário Oficial do Estado (DOE) que “por conveniência do serviço”, Ian Lopes de Lima retornou ao serviço operacional nas ruas, em um primeiro momento ainda, no CPA/M-10.
Na semana passada, como celebrado nas redes sociais por apoiadores e admiradores, ele recebeu o braçal da Rota. “Compra-se o que tem preço, o que tem valor se conquista. Parabéns Guerreiro pela Conquista. Dignidade acima de tudo! ROTA!!!”, diz a legenda da postagem. O compartilhamento foi tirado do ar, na tarde dessa segunda-feira (13/4).
Defesa do oficial
Ao Metrópoles, o advogado Gilberto Quintanilha afirmou que “todas as ocorrências” envolvendo o tenente foram analisadas e investigadas pela Corregedoria da PM e pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
“[Em] todas elas, foram provadas ações em legítima defesa em estrito cumprimento do dever legal para sanar injusta agressão sofrida por ele e sua equipe”, afirmou, em nota, acrescentando “não tendo nada que macule a ilibada carreira do policial militar”.
A reportagem apurou que ao menos quatro das mortes provocadas em ocorrências nas quais Ian atuou — entre 2024 e 2025 — ainda estão com os inquéritos policiais em aberto e investigações em andamento, nos quais ele consta como investigado.
A Secretaria da Segurança Pública (SSP), assim como a PM, foram questionadas sobre os motivos para a promoção de Ian, para ele voltar ao policiamento ostensivo e, também, pelo reingresso à Rota. O espaço segue aberto para manifestações.
Muitos tiros
Em processos analisados pelo Metrópoles, a trajetória que sustentou o afastamento do oficial aparece marcada por intervenções com elevado volume de disparos, uso de armamento de guerra e versões oficiais que, em alguns casos, entram em tensão com a materialidade descrita nos próprios documentos judiciais.
Nos inquéritos conduzidos pelo DHPP, o padrão narrativo de Ian e seus colegas de farda se repete. Neles, relatam abordagens que evoluem rapidamente para confronto, com policiais alegando reação armada de suspeitos e, na sequência, efetuando disparos em quantidade significativamente superior àquela atribuída aos supostos criminosos.
Em um dos episódios, ocorrido em agosto de 2024, uma equipe com cinco policiais — entre eles, Ian Lopes — perseguiu um veículo suspeito de roubo. Segundo o registro, dois ocupantes estariam armados com revólveres.
A resposta policial, no entanto, somou ao menos 31 disparos, dos quais quatro de um 1º tenente, dois do também tenente Ian, cinco de um cabo e, sobretudo, vinte tiros de fuzil 7.62, dados por um soldado, além de outros cinco de pistola.
A desproporção entre os meios empregados — revólveres de baixa capacidade de fogo contra armamento longo de uso militar — aparece como elemento constante. Ainda assim, a versão consolidada no inquérito sustenta que os suspeitos “ainda empunhavam os revólveres” quando houve nova sequência de disparos, justificando a continuidade da ação letal.
Fuzil de guerra
Outro caso, de novembro do mesmo ano, amplia esse contraste. Seis ocupantes estavam em um veículo perseguido após supostos roubos. Dentro do carro, foram apreendidos dois revólveres, dos quais somente um apresentava munição deflagrada.
A reação policial, por sua vez, envolveu ao menos 22 disparos, dos quais onze efetuados por um cabo, sete de um soldado e quatro tiros de fuzil 7.62, arma e guerra empunhada na ocasião pelo tenente Ian Lopes. Dois adolescentes morreram.
A narrativa oficial descreve tentativa de atropelamento contra a viatura como gatilho da intervenção, mas não detalha, no mesmo nível, a dinâmica exata dos disparos fatais nem a proporcionalidade entre ameaça e resposta.
Resistência seguida de morte
Já em abril de 2024, outro inquérito registra a morte de um homem após confronto com policiais militares, com Ian Lopes listado entre os agentes envolvidos. A estrutura do procedimento repete a tipificação de “homicídio decorrente de oposição à intervenção policial”, sustentado pela alegação de resistência.
Em março de 2025, o padrão reaparece em uma abordagem de rotina, na qual teria ocorrido uma suposta reação a tiros por parte dos ocupantes de um veículo e revide policial, que terminou com dois mortos e dois feridos.
Nos quatro procedimentos, a arquitetura jurídica é semelhante. A hipótese inicial — resistência seguida de morte — é adotada desde a instauração, orientando a coleta de provas. Depoimentos de policiais são incorporados como eixo narrativo central, enquanto elementos como número de disparos, tipo de armamento e posição das vítimas surgem diluídos em relatórios técnicos.
O resultado é um conjunto de versões que, embora formalmente coerentes, expõe fricções quando confrontadas com os dados objetivos. Em especial, a discrepância entre a capacidade ofensiva atribuída aos suspeitos — frequentemente restrita a revólveres — e o volume de fogo empregado pelas equipes, incluindo fuzis de calibre 7.62, o mais poderoso oferecido pela PM paulista.
Esse histórico ajuda a explicar o afastamento do tenente, ainda em seu primeiro ano de atuação e, também, contextualiza o simbolismo de seu retorno à Rota, batalhão que, segundo dados oficiais, é o mais letal da PM paulista.
Nos processos consultados pelo Metrópoles, mais do que episódios isolados, emerge um método composto por intervenções rápidas, alto poder de fogo e uma narrativa institucional que enquadra os casos como reações inevitáveis.












