Sobrinhos acusam herdeiro da Bertin de usar fundos para fraudar dívida
Familiares acham que Natalino Bertin usa fundos ligados às investigadas Trustee e Reag para cobrar débito da própria holding. Defesa nega
atualizado
Compartilhar notícia

O processo de recuperação judicial da Tinto Holding, controladora do Grupo Bertin (atual Grupo Heber), antiga gigante do agronegócio que acumulou mais de R$ 7 bilhões em dívidas, envolve uma disputa familiar com acusações de fundos geridos por empresas investigadas pela Polícia Federal (PF).
Fernando e Mário Bertin, sobrinhos de Natalino Bertin, um dos herdeiros do grupo, acusam o tio de usar fundos de investimento para cobrá-los de uma dívida que deveria ser paga por todos os sócios do negócio da família. A suspeita é que Natalino, que seria o principal devedor na massa falida, segundo os sobrinhos, seja o real controlador dos fundos que cobram as dívidas na Justiça.
“A conduta seletiva dos exequentes — que concentram toda a pressão executiva sobre Fernando e Mário, ao mesmo tempo em que preservam integralmente o patrimônio do devedor principal, Natalino — não encontra justificativa jurídica e reforça a suspeita de que a presente execução não se orienta pela satisfação do crédito, mas por finalidades desviadas de coerção patrimonial e societária, em benefício de interesses ocultos”, diz a petição dos sobrinhos.
Fernando e Mário entraram com duas ações, uma em São Paulo e outra em Brasília, para tentar descobrir os donos dos fundos Afare I e Sarafina, credores da massa falida da Tinto Holding.
Na quinta-feira (26/2), a defesa do fundo Sarafina, colocado sob suspeita pelos sobrinhos de Natalino Bertin, se manifestou nos autos por determinação da juíza Daniela Dejuste De Paula, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). A advogada negou a fraude e afirmou que a identificação dos cotistas e beneficiários do fundo esbarra nos sigilos de dados financeiros e societários.
Natalino Bertin, apontado pelos sobrinhos como responsável por uma operação com “indícios robustos de fraude” na falência da holding da família, foi alvo da Operação Lava Jato. Em 2016, ele foi condenado a 4 anos de prisão por lavagem de dinheiro em um desdobramento da investigação sobre um empréstimo fraudulento de R$ 12 milhões tomado pelo pecuarista José Carlos Bumlai.
A reportagem tentou contato com Natalino, mas não conseguiu encontrá-lo. O espaço segue aberto para manifestações.
Fundos suspeitos
O fundo Afare I transferiu os créditos da Tinto Holding para outro fundo, o Serafina, em 2023. À época, o Afare I era gerido pela Trustee, empresa que pertencia a Maurício Quadrado, ex-sócio de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central (BC). Quadrado e Vorcaro são investigados pela PF pela venda de créditos podres do Master ao Banco Regional de Brasília (BRB).
No fim de 2025, a empresa mineira Libertas Asset adquiriu a gestão do fundo Afare I. Ao Metrópoles a Libertas afirmou que, por sigilo bancário, não pode revelar o nome dos donos do fundo, mas garantiu que Natalino Bertin não é um dos cotistas.
“O litígio citado é anterior a nossa gestão. O Sr. Natalino Bertin citado por Vsa. Sa. não é e nunca foi investidor, cotista ou contato de nossa empresa”, disse a Libertas Asset.
Já o fundo Sarafina é gerido pela CBSF Trust Administradora de Recursos Ltda., o novo nome da Reag Trust, que foi liquidada em janeiro pelo BC. A Reag é investigada na Operação Carbono Oculto, que desbaratou um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC) por meio de fundos e postos de combustível.
A Reag também consta como administradora do Sarafina e de outro fundo envolvido na suposta fraude denunciada por Fernando e Mário Bertin. O fundo Gandria teria sido usado para garantir aos credores que iriam receber seus débitos.
Na denúncia, os sobrinhos de Natalino afirmam que o tio fez propostas de aquisição de ativos por meio do Gandria em 4 de março de 2024, mas o fundo só foi constituído em 27 de março de 2024, conforme registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O Gandria recebe investimentos diretos do fundo Hans 95, outro investigado na Operação Carbono Oculto. Também em 2024, Natalino tentou usar o Hans 95 como garantia de pagamento aos credores, mas a medida não foi aceita pelas autoridades.
A denúncia ainda diz que o crédito original é de 2005 e pertencia a um homem que já foi preso em mais de uma operação por crimes como lavagem de dinheiro e agiotagem, inclusive com uso de violência física como forma de cobrança.
O Metrópoles procurou os advogados dos fundos Sarafina e Afare I, a gestora do fundo Gandria e as empresas Trustee e Reag, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.
O grupo Bertin
O grupo Bertin foi um dos maiores conglomerados empresariais do Brasil, com atuação principalmente no setor de frigoríficos e processamento de carnes, além de energia, biodiesel, couro e produtos de higiene e limpeza. Em 2009, o grupo Bertin anunciou uma fusão com a JBS, criando à época a maior empresa de proteína animal do mundo.
Quase uma década depois, em novembro de 2018, a Tinto Holding, controladora do grupo Bertin, declarou falência no TJSP com uma dívida bilionária, resultado de pendências relacionadas à fusão e disputas entre credores e antigos controladores.
O grupo é dividido em seis núcleos, que são os filhos do fundador João Bertin: Henrique, Natalino, João Filho, Reinaldo, Fernando Antonio e Silmar. Cada um deles é responsável por uma empresa de sociedade anônima do grupo. Fernando e Mário, que brigam na Justiça com o tio Natalino, são herdeiros de Henrique Bertin, que morreu em 1981.
