Solto pelo STJ e reintegrado, policial é preso de novo por extorsão
O policial civil Tiago Carvalho, reintegrado na corporação após ser preso por corrupção, extorquiu um suspeito em abril. SSP não comenta
atualizado
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O policial Tiago Henrique de Souza Carvalho, 46 anos, conhecido como Japa e alvo de um mandado de prisão temporária por extorquir um suspeito, já havia sido preso anteriormente por exigir R$ 50 mil de um foragido da Justiça e livrá-lo da prisão. Após habeas corpus concedido pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), ele foi reintegrado à Polícia Civil de São Paulo. Pouco mais de um ano depois, voltou a ser pego por extorsão.
Carvalho é alvo de uma investigação da Corregedoria Geral da Polícia Civil que apura os crimes de extorsão e associação criminosa armada. A apuração culminou na Operação Quina, deflagrada nessa terça-feira (12/5). Ele e mais três investigadores são acusados de exigir R$ 1 milhão de um suspeito de tráfico de drogas.
A operação mirou os policiais João Ruper Rodrigues, Tiago Henrique Sousa Carvalho, Roberto Castelano e Diogo Prieto Júnior – da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Carapicuíba e do 1º Distrito Policial (DP) de Taboão da Serra, ambos da região metropolitana de São Paulo. Todos foram presos na manhã de terça.
Cada policial teve uma função no esquema. Carvalho é suspeito de participar da abordagem inicial, das ameaças e da renegociação dos valores, dinâmica a qual ele supostamente já tinha conhecimento, como mostra uma ação penal da Vara Criminal de Cotia, também na região metropolitana da capital paulista.
Condenado, preso e mais tarde reintegrado
O investigador, que foi eleito vereador suplente pelo Partido Republicano da Ordem Social (PROS) em Cotia em 2016, passou nove meses preso no Presídio Especial da Polícia Civil após ser condenado a oito anos de reclusão por corrupção passiva.
Inicialmente denunciado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) por extorsão, Carvalho é acusado de exigir R$ 50 mil de um homem suspeito de tráfico de drogas para não envolver o nome dele em um inquérito de apreensão em flagrante.
Na ocasião, em 13 de janeiro de 2017, o policial localizou quatro tijolos de cocaína em uma chácara em Cotia. O suspeito de tráfico pagou R$ 20 mil. Pressionado a pagar o restante, o homem procurou o MPSP com provas da extorsão.
A promotoria denunciou Carvalho, alterando depois a tipificação criminal para corrupção passiva, crime pelo qual ele foi condenado e preso em 18 de junho de 2024, após passar a maior parte do processo foragido. Ele foi demitido da corporação oito dias depois.
A defesa do investigador impetrou um habeas corpus no STJ argumentando que as provas do crime eram frágeis e poderiam facilmente ser adulteradas. A Corte concedeu o pedido, determinando que os elementos probatórios deveriam ser excluídos dos autos. Com isso, a ação penal foi anulada e Carvalho foi solto em 13 de março de 2025.
Ainda em março do ano passado, oito dias após a soltura, o investigador foi reintegrado na Polícia Civil por ofício, como prevê a Lei Orgânica da corporação (Lei nº 14.735/2023). O policial retornou à unidade onde estava lotado antes de ser preso, o DP de Vargem Paulista, como é de praxe.
Sete dias depois de ser reintegrado, também ainda em março de 2025, Carvalho deixou a unidade e foi pro 3º DP de Carapicuíba, sob comando do delegado Ubiraci de Oliveira. Em setembro, o Processo Administrativo Disciplinar (PAD) do qual era alvo foi encerrado com absolvição, seis anos após indicar a demissão do agente a bem do serviço público.
Em 11 fevereiro deste ano, o investigador saiu do 3º DP de Carapicuíba e ingressou na Dise do mesmo município, chefiada pelo delegado Pedro Luís de Souza. Menos de dois meses depois, em 2 de abril, ele supostamente extorquiu um suspeito. Carvalho acabou preso mais uma vez.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou que não comenta decisões judiciais. “As decisões administrativas adotadas observaram estritamente o devido processo legal, os princípios constitucionais da legalidade e da segurança jurídica”, disse a pasta.
Operação Quina
- A Operação Quina, da Corregedoria Geral da Polícia Civil de São Paulo, investiga suspeitas de extorsão qualificada e associação criminosa armada envolvendo investigadores da corporação.
- A ação ocorre com apoio do Ministério Público de São Paulo (MPSP), por meio do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco).
- Os investigados são alvos de mandados de prisão temporária, busca e apreensão e medidas patrimoniais autorizadas pela Justiça, como o bloqueio de até R$ 2 milhões.
- Durante a operação, agentes apreenderam aparelhos eletrônicos, documentos e outros materiais que serão analisados ao longo das investigações.
Policiais extorquiram sequestrador da mãe de Robinho
O alvo da extorsão cometida a partir do último 2 de abril foi identificado como Fábio Oliveira Silva, acusado de integrar a quadrilha responsável pelo sequestro da mãe do ex-jogador Robinho, ocorrido em novembro de 2004, em Praia Grande, no litoral paulista.
Na ocasião, Marina da Silva Souza ficou 41 dias em cativeiro em um endereço na zona norte de São Paulo. Ela foi libertada após pagamento de resgate.
Fábio, que atualmente atuaria no tráfico de drogas, procurou a Corregedoria por conta própria e relatou que foi abordado no último 2 de abril por homens que se identificaram como policiais civis.
Os supostos investigadores entraram em sua residência sem mandado judicial e o levaram à sede da Dise de Carapicuíba. Na unidade, ele recebeu ameaças de prisão caso não pagasse R$ 1 milhão.
A defesa de Carvalho não retornou as tentativas de contato da reportagem, enquanto que os representantes dos demais investigados não foram localizados. O espaço está aberto para manifestação.












