Policiais presos por corrupção faziam até parcelamento de propina
Conversas revelam cobranças recorrentes e negociações de valores para barrar investigações conduzidas pela Polícia Civil
atualizado
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Conversas extraídas pela Polícia Federal do celular de Robson Martins de Souza mostram que o pagamento de propinas a policiais civis suspeitos de corrupção em São Paulo seguia uma lógica quase empresarial constituída por valores combinados, cobranças recorrentes e até parcelamento da dívida ilegal.
Nos diálogos encontrados por policiais federais, integrantes do grupo investigado discutem quanto pagar, quando pagar e de que forma reduzir as quantias exigidas por policiais civis paulistas. Em alguns casos, segundo a PF, os valores eram entregues em parcelas, com cobranças constantes, também por meio de mensagens, quando os pagamentos atrasavam.
O episódio integra o material que embasou operação realizada na quinta-feira (5/3), conduzida de forma conjunta pela PF, pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), e pela Corregedoria da Polícia Civil, que resultou na prisão de policiais e intermediários suspeitos de corrupção.
Cobranças constantes
Em uma das conversas analisadas, obtida pelo Metrópoles, o investigador Rogério Coichev Teixeira, ligado ao serviço aerotático da Polícia Civil, cobra diretamente o pagamento de uma parcela de propina.
No diálogo, ele questiona se o dinheiro seria entregue no dia seguinte porque precisava levar os valores para outros envolvidos no esquema.
Em um dos trechos citados pela investigação, o policial afirma:
“Preciso levar pros meninos [outros policiais] amanhã”.
Em outro momento, um interlocutor informa que conseguiu reunir R$ 40 mil para pagar parte da quantia combinada, prometendo quitar o restante posteriormente.
Segundo a PF, os diálogos mostram que os pagamentos eram feitos gradualmente, conforme o grupo conseguia reunir recursos.
Pressão por dinheiro
As conversas também revelam momentos de pressão por parte dos policiais.
Em um dos áudios analisados, um escrivão identificado como Ciro Borges Magalhães Ferraz, ligado a investigações conduzidas no Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), alerta que a investigação poderia avançar caso não houvesse uma conversa rápida. “Seria interessante conversar logo… porque o caldo pode engrossar”, diz um trecho de conversa interceptada pela PF.
Segundo a PF, esse tipo de mensagem reforça a suspeita de que policiais utilizavam o andamento das investigações como instrumento de pressão para obter pagamentos.
Reclamações sobre os valores
As mensagens mostram ainda que integrantes do grupo investigado reclamavam dos valores exigidos pelos policiais. Em um dos diálogos, um interlocutor relata que membros da Polícia Civil teriam pedido até R$ 5 milhões para resolver problemas relacionados a investigações envolvendo empresas do grupo.
Em outros trechos, advogados e empresários discutem estratégias para reduzir os valores cobrados pelos policiais, tentando negociar pagamentos menores.
Celulares registrados em nome de familiares
A investigação também revelou que alguns policiais utilizavam celulares registrados em nome de familiares para conversar com integrantes do grupo investigado.
Em um dos casos citados pela PF, o telefone usado pelo investigador Rogério Coichev Teixeira, ligado ao serviço aerotático da Polícia Civil, estava cadastrado em nome de sua esposa.
Segundo os investigadores, a prática pode indicar uma tentativa de dificultar a identificação direta dos usuários das linhas utilizadas nas conversas.
Operação de quinta-feira
As conversas analisadas pela PF fazem parte de um conjunto maior de provas reunidas ao longo de meses de investigação.
O material foi obtido a partir da extração de dados do celular de Robson Martins de Souza, apreendido em novembro de 2023 durante uma investigação sobre lavagem de dinheiro envolvendo empresas de fachada usadas para enviar recursos ilegalmente ao exterior.
A análise das mensagens revelou indícios de pagamentos a policiais civis e negociações para interferir em investigações conduzidas por delegacias da capital paulista.
Com base nessas informações, a Polícia Federal passou a trabalhar em conjunto com o Gaeco e com a Corregedoria da Polícia Civil, responsável por investigar desvios dentro da instituição.
A cooperação entre os três órgãos resultou na operação deflagrada na quinta-feira (5/3). Foram cumpridos mandados de prisão preventiva contra policiais e intermediários suspeitos de integrar o esquema, além de ordens de busca e apreensão para recolher celulares, documentos e equipamentos eletrônicos.
Segundo os investigadores, o objetivo da ofensiva foi desarticular o núcleo responsável por negociar propinas para interferir em investigações policiais e aprofundar a apuração sobre a participação de servidores da Polícia Civil no esquema.
















