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Traficante usou delação para cobrar dívida de R$ 5 milhões de policiais

Informante assassinado em 2025 chegou a oferecer delação à Corregedoria da Polícia Civil de SP, mas voltou atrás após suposto pagamento

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Arte gráfica de homem parrro, de cabelos curtos, com a face translúcida sobre fund em que carro da polícia segue caminhão - Metrópoles
1 de 1 Arte gráfica de homem parrro, de cabelos curtos, com a face translúcida sobre fund em que carro da polícia segue caminhão - Metrópoles - Foto: Arte/Metrópoles

No submundo do tráfico de drogas, dívidas não prescrevem. E, segundo investigações da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, o traficante e informante da polícia Tiago Lobo (imagem em destaque) dizia ter uma dívida de mais de R$ 5 milhões a ser paga pelo agora ex-chefe de investigações Cleber Gimenez.

O valor, como apurou o Metrópoles, seria resultado da cobrança de Lobo por cargas de cocaína supostamente desviadas por um grupo criminoso composto por policiais civis após operações oficiais. A droga de altíssimo grau de pureza, oriunda do Paraguai e da Bolívia, contava com a logística de transporte estruturada por Lobo.

Quando a cobrança não avançou, o informante mudou de estratégia. Procurou a Corregedoria, órgão fiscalizador da Polícia Civil, e abriu tratativas para firmar um acordo de delação premiada para entregar agentes públicos que seriam seus parceiros de crime. Prometia nomes, datas e supostos detalhes de um esquema de desvio de drogas, principalmente cocaína tipo exportação, dentro da instituição.

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Acompanhmanto de caminhão com cocaína foi registrado
Inormante Tiago Lobo
Policial Alberto Solano
Policial civil Alexandre Idalgo
Investigadora Rafaela Bertoletti
Policiais de SP são investigados por desviar carga de drogas
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Policiais de SP são investigados por desviar carga de drogas

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Inormante Tiago Lobo
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Inormante Tiago Lobo

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Ex-chefe de investigações CLeber Gimenez
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Ministério Público entra no caso

A proposta ganhou tração, a Corregedoria se alinhou ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público paulista (MPSP), e viabilizou uma videoconferência com o informante. O encontro virtual, realizado em 5 de fevereiro do ano passado, foi gravado e anexado ao inquérito, por meio de um termo de declaração inédito até agora e obtido pelo Metrópoles.

Nele, Lobo reafirmou que entregaria agentes públicos supostamente envolvidos no esquema. Ele não figurava como testemunha protegida, mas como investigado que poderia obter benefícios legais caso formalizasse a colaboração. Para a Corregedoria, tratava-se de apurar indícios graves. Para os policiais citados, era o início de uma pressão para o pagamento de suposta dívida mili0nária.

Instrumento de intimidação

É nesse ponto que a narrativa se bifurca. Segundo a defesa dos investigadores Rafaela Bertoletti, Alberto Solano de Araújo e Alexandre Idalgo Peres, todos acusados de integrar o grupo que desviada drogas, Lobo passou a usar a negociação de delação com a Corregedoria como instrumento de intimidação. Os defensores acrescentam, ainda, que a Corregedoria estaria agindo em conluio com o criminoso.

Comparsas de Tiago Lobo fizeram chamadas de vídeo aos investigados, afirmando que a delação estava em curso e que a exposição seria inevitável (assista abaixo). A mensagem era clara, segundo um dos registros obtido pelo Metrópoles: ou os policiais pagavam o informante, ou enfrentariam as consequências.

 

A versão oficial, contrariando o suposto conluio aventado pela defesa dos policiais, sustenta que as tratativas eram legítimas e que a instituição buscava aprofundar apurações internas, diante da gravidade das acusações contra agentes da Polícia Civil.

No fim de março, quase dois meses após a conferência em vídeo, Tiago Lobo encaminhou um e-mail à Corregedoria, solicitando que o órgão desconsiderasse “tudo o que se tratar ou vincular a delação premiada”.

Depois da mensagem, o informante não foi mais localizado pela polícia. Fontes que acompanham o caso dizem acreditar que o desaparecimento de Lobo teria ocorrido após Gimenez pagar parte da dívida milionária.

Executado com 10 tiros

O paradeiro de Tiago Lobo foi, por fim, descoberto em 29 de novembro do ano passado, quando ele foi assassinado com dez tiros. O informante foi executado quando se preparava para entregar 14 tijolos de cocaína em uma favela de Campo Grande (MS). Investigação do Departamento de Homicídios sul-mato-grossense concluiu não haver relação entre o assassinato e os policiais civis paulistas — incluindo Cleber Gimenez.

A motivação apontada foi uma provável divergência com traficantes locais. A Corregedoria paulista chegou a cogitar pedir a prisão temporária do informante, para preservar sua integridade. Não houve tempo.

Duas reuniões

A morte de Tiago Lobo não encerrou o caso. Em São Paulo, o policial civil Alexandre Idalgo procurou o chefe de investigações da Corregedoria, João Reis, para conversar. O primeiro encontro ocorreu em uma loja de chocolates e foi registrado, de dentro de um carro, por meio de celular.

Segundo fontes que acompanham o caso, Idalgo buscava esclarecimentos e desabafava sobre o impacto das investigações. Um mal-estar físico do policial investigado interrompeu a reunião, que foi retomada dias depois, em uma lanchonete.

No segundo encontro, desta vez gravado em áudio, Idalgo afirma que Reis mencionou o sobrinho, advogado, como possível defensor. Parte do registro foi prejudicada pelo ruído do ambiente aberto, mas há trechos inteligíveis.

Em um deles, o chefe de investigações comenta que o parente “advogou para Tiago [Lobo]” e que o informante “queria fazer a delação dele”. A reportagem apurou que o advogado chegou a viajar ao Mato Grosso do Sul para atender Lobo. Em outro trecho audível, Reis orienta Idalgo a anotar o telefone do sobrinho. “Sou um cara honesto e o que puder fazer por você, vou fazer […] como ele é advogado, é mais fácil para você ligar [para falar sobre o caso]”, diz.

Para a Corregedoria, os encontros não passaram de conversas institucionais e não configuram irregularidade. Para a defesa, indicariam proximidade imprópria e tentativa de direcionamento da defesa do policial, por meio de advogado com ligação familiar ao chefe das investigações.

O caso expõe uma engrenagem delicada, composta por um informante que transitava entre o tráfico e o aparato estatal, uma dívida milionária, uma delação prometida e jamais formalizada, além de policiais que afirmam ter sido alvo de uma trama de extorsão.

A Corregedoria afirma contar com provas robustas contra Gimenez e os três policiais investigados por supostamente desviar droga apreendida em operação.

Já os investigados sustentam que foram alvos de uma operação contaminada por interesses escusos de um informante que transformou a ameaça de delação em moeda de cobrança. Entre os dois lados, a execução de Tiago Lobo deixou mais perguntas do que respostas e um inquérito que, ainda, reverbera dentro da Polícia Civil paulista.

O que diz a Corregedoria

Em nota encaminhada do Metrópoles, por meio da Secretaria da Segurança Pública (SSP), a Corregedoria afirma não compactuar com desvios de conduta, reiterando que “todos os casos comprovados são punidos com o rigor da lei”.

Sobre o caso mencionado nesta reportagem, o órgão fiscalizador acrescentou que já está concluído e foi remetido à Justiça o inquérito instaurado pela 5ª Delegacia de Crimes Funcionais da Corregedoria. Durante as investigações, foram indiciados os policiais Alexandre Idalgo, Alberto Solano e Rafaela Bertoletti. Também constam como indiciados Júlio César Mariano e Jorge Vinico Aquino de Andrade, informantes da polícia que aparecem, em fotos e vídeos, ajudando na ação na qual cocaína foi apreendida na divisa de São Paulo com o Mato Grosso do Sul.

Os cinco atualmente são processados por associação criminosa, voltada à prática de tráfico de drogas, e usurpação de função pública. No âmbito administrativo, ressaltou a Corregedoria, os três policiais respondem a procedimento disciplinar que pode resultar em suas expulsões.

“A Corregedoria reforça que toda a investigação foi conduzida com observância da legalidade e dos princípios do devido processo legal, assegurando o contraditório e a ampla defesa. A apuração não se limitou à denúncia anônima e contou com outros elementos probatórios que foram devidamente submetidos à apreciação do Poder Judiciário e do Ministério Público”.

Cléber Gimenez também é alvo de outra investigação do órgão fiscalizador, na qual responde por lavagem de dinheiro.

O que diz a defesa dos policiais

Sobre o caso dos policiais Alexandre, Rafaela e Alberto, seus advogados afirmaram, também em nota, que seus clientes, por ora, são investigados, “inexistindo denúncia ou qualquer decisão judicial que reconheça a prática de ilícito”.

Ressaltou que operação que resultou na apreensão da droga, na divida de Mato Grosso do Sul com São Paulo, culminou na prisão em flagrante e posterior condenação do condutor da carreta, por tráfico de drogas.

“De igual forma, não procede a tentativa de vinculá-los a Cléber Rodrigues Gimenez, sendo certo que o referido policial sequer trabalhava no mesmo distrito policial à época dos fatos”.

A defesa acrescentou ter requerido uma remessa do caso ao Gaesp, grupo do MPSP que investiga ações policiais, “a fim de assegurar a necessária imparcialidade e regularidade da investigação”.

Cleber Gimenez é cliente do mesmo escritório que defende os outros três policiais. Sobre as denúncias de que ele lideraria um esquema de desvio de cargas de drogas, os advogados afirmam decorrer “exclusivamente de declarações unilaterais, desprovidas de qualquer corroboração probatória, prestadas por um traficante [Tiago Lobo] no âmbito de investigação que, inclusive, não tem Cleber Gimenez como investigado formal”.

Sobre o processo de lavagem de dinheiro, a defesa afirmou que a inocência do cliente “será devidamente reconhecida pelo Poder Judiciário’.

 

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