PMs cercam carro suspeito e executam dois. SSP alega troca de tiros.
Três viaturas da PM cercaram carro roubado e executaram dois suspeitos em Limeira. Vídeo põe em cheque versão dos agentes

Três viaturas do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep) da Polícia Militar (PM) de São Paulo cercaram um veículo suspeito e executaram dois indivíduos na tarde da última quarta-feira (2/9) no Jardim Ouro Verde, em Limeira, interior paulista. A corporação e a Secretaria da Segurança Pública (SSP) alegam troca de tiros. Segundo o boletim de ocorrência, o carro havia sido roubado dias antes.
Imagens capturadas por uma câmera de segurança mostram a abordagem. Nas imagens, não é possível identificar se, de fato, houve troca de tiros. O vídeo mostra, no entanto, que o condutor do Jeep/Renegade abre as portas do veículo com as mãos para cima, em sinal de rendição. Veja:
As imagens contrariam a versão da Polícia Militar de que houve “entrevista” ao condutor e que este teria apontado uma arma de fogo em direção a equipe policial, que “repeliu injusta agressão”. O vídeo também mostra que os PMs deram voz de abordagem e ligaram a sirene das viaturas apenas após os disparos.

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No resumo da ocorrência enviado ao comandante da companhia, e obtido pelo Metrópoles, os policiais militares afirmam que o carro teria sido usado em data anterior em uma ocorrência de roubo, e que o condutor apontou uma arma de fogo aos agentes após ser abordado.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPAinda segundo a versão policial, o passageiro do veículo também empunhou arma de fogo, o que não é possível verificar no vídeo capturado pelas câmeras de segurança.
As imagens não mostram a continuidade da ocorrência, mas a PM afirma que policiais auxiliares seguiram a vistoria do veículo enquanto o comandante da equipe e o condutor realizaram a segurança do perímetro.
“Os auxiliares seguiram com o uso do escudo no desarme do condutor e passageiro, uma vez que a área não estava segura; contudo, o passageiro, em posse de uma pistola calibre .380, durante o desarme do motorista, tentou novamente investir contra os policiais que repeliram a agressão”, diz o resumo policial.
A PM afirma ainda que, após a segunda tentativa de desarme do passageiro, houve nova investida, repelida por um policial que teria flagrado o suspeito com arma em punho ao rbri a porta do carro. Após os disparos, o indivíduo teria sido desarmado.
O resgate foi acionado e compareceu ao local às 17h40. A equipe de perícia chegou às 19h35 e constatou que as placas do veículo haviam sido adulteradas. “O carro era produto de roubo ocorrido em 27 de agosto em Americana”, também no interior paulista, informou a Polícia Militar.
SSP alega troca de tiros
Em nota, a SSP afirmou que, após o carro roubado ser localizado, “os militares tentaram realizar a abordagem, momento em que foram alvo de disparos”. Conforme a pasta, “houve intervenção”. O socorro foi acionado, mas a morte dos dois indivíduos foi confirmada no local.
A secretaria destacou ainda que “toda a ação policial foi registrada pelas câmeras operacionais portáteis (COPs)” e que as imagens serão analisadas. As armas dos suspeitos e dos policiais foram apreendidas para perícia.
O caso foi registrado como morte decorrente de intervenção policial e localização e apreensão de veículo no Plantão da Delegacia Seccional de Limeira. Todas as circunstâncias dos fatos são apuradas pelas polícias Civil e Militar, informou a nota.
Advogados questionam ação da PM
O advogado Fellipe Vinicius Silva, especialista em direito militar e ex-oficial da Corregedoria da PM, afirmou à reportagem que a conduta dos policiais contraria o procedimento padrão de abordagem a suspeitos.
Ele destacou que, conforme mostra o vídeo, o veículo suspeito foi cercado sem ordem de parada, com os sinais luminosos (giroflex) das viaturas ainda desligados.
Além disso, causa estranheza a forma como os carros policiais foram posicionados. A viatura da frente tomou distância do Jeep/Renegade, abrindo um espaço que permitiria fuga dos indivíduos, e os policiais da viatura posicionada atrás fazem a retaguarda quando deveriam se posicionar para realizar disparos, em caso de necessidade.
“O procedimento padrão nunca vai colocar uma viatura na frente de uma possível linha de tiro”, destacou.
Silva acredita que os policiais se posicionaram de maneira que as câmeras corporais não filmassem a abordagem. O advogado Ruy Arruda concorda, e destaca que, após os tiros, os PMs pegam os escudos de proteção e se dirigem ao veículo de forma estratégica.
“A única necessidade do escudo é que ele foi utilizado para encobrir as câmeras e não gravarem a maneira como os jovens foram atingidos”, disse ao Metrópoles.
Para os advogados, os gritos dos militares e o acionamento tardio do giroflex foi uma forma de “criar testemunhas” entre os moradores daquela rua. “Foi uma execução a céu aberto, à luz do dia”, criticou Arruda.



