Pesquisa da Unifesp identifica cela onde Herzog foi torturado e morto
Pesquisa identificou cela do DOI-Codi em São Paulo onde jornalista foi assassinado, em outubro de 1975, durante a ditadura militar no Brasil
atualizado
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Uma pesquisa liderada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) identificou, com base em evidências documentais, periciais e arquitetônicas, a cela em que o jornalista Vladimir Herzog foi torturado e assassinado durante a ditadura militar brasileira, em outubro de 1975.
A cela do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) fica localizada na Rua Tutóia, 921, onde hoje está o edifício do 36ª Distrito Policial da Vila Mariana, zona sul da capital paulista.
O local, segundo a pesquisa mostrou, preserva ainda as características estruturais, o que permitiu a sua identificação e posterior confirmação por meio de fotografia divulgada à época pelos órgãos de repressão para sustentar a falsa acusação de suicídio de Herzog.
A descoberta ocorreu por meio de uma articulação entre a arqueologia forense, a história e arquitetura. Uma das ações foi a análise das plantas originais do local de 1960, das grades dos presos produzidas pelo DOI-Codi entre 1970 e 1975 e dos laudos periciais de outros presos políticos mortos pelos agentes de segurança.
Para Deborah Neves, pós-doutoranda na Unifesp e responsável por trabalhos que auxiliaram a identificação, o fato tem relevância histórica e jurídica para demonstrar, com evidências científicas, “a materialidade das fraudes cometidas por agentes do Estado”.
“Trata-se de reconhecer o lugar onde se construíram mentiras oficiais que marcaram a história brasileira e que só agora, 50 anos depois, foi possível revelar, graças à preservação garantida pelo tombamento e às pesquisas históricas, arqueológicas e arquitetônicas no espaço, feitas por universidades públicas”, afirma a pesquisadora
A pesquisa da Unifesp faz parte de uma articulação maior, integrando ações acadêmicas de pesquisa e extensão voltadas à preservação da memória e produção de conhecimentos sobre violações de direitos humanos que aconteceram durante a ditadura militar brasileira.
Identificação da cela
No estudo, a identificação da cela ocorreu por meio do cruzamento de documentos periciais da época, fotografias históricas, plantas arquitetônicas do edifício e evidências físicas preservadas no local.
Uma dessas evidências preservadas ainda estava presente na alvenaria onde antes era a cela, que aparece na fatídica imagem que foi divulgada como “prova” de que Vlado teria cometido suicídio.
A comparação entre paginação e padrão gráfico dos tacos da cela, por meio das fotografias históricas, e o padrão gráfico hoje existente contribuiu para a identificação do local.
Filhos de Herzog serão indenizados
Uma portaria publicada no Diário Oficial da União em janeiro de 2026 oficializou a anistia dos filhos de Vladimir Herzog. Ivo e André receberão, cada um, R$ 100 mil do Estado brasileiro em uma parcela única, como um “pedido de desculpas pela perseguição sofrida no período ditatorial”, segundo a portaria.
A decisão chegou um ano após o jornalista brasileiro ser declarado como anistiado político pelo governo do Brasil, 50 anos depois de sua morte. A viúva de Vladimir, Clarice Herzog, também foi declarada anistiada política e recebe pensão indenizatória do Estado.
Governo declara Vlado como anistiado
Em março de 2025, o governo, por meio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania declarou Herzog como anistiado político póstumo, por meio de uma publicação no Diário Oficial. Na época, o Instituto Vladimir Herzog celebrou o reconhecimento.
“Seguiremos confiantes de que o Estado brasileiro cumprirá com, além deste, todos os demais pontos resolutivos da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Herzog”, apontou em nota.
Quem foi Vladimir Herzog
Nascido em 1937 na antiga Iugoslávia, onde hoje é a Croácia, Vladimir Herzog veio ao Brasil ainda criança, formando-se em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) no fim da década de 1950. Iniciou sua carreira profissional como repórter do jornal O Estado de S. Paulo.

Durante a ditadura, Vlado, como era carinhosamente conhecido, passou a ser vigiado pelos órgãos de repressão por um possível envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro. Foi encaminhado ao DOI-Codi II do Exército, onde foi torturado e morto aos 38 anos, em 25 de outubro de 1975.
Sua morte foi vendida falsamente pelos agentes de repressão como suicídio, porém evidências estruturais e materiais puderam concluir que era impossível que o jornalista tenha cometido o ato. Em outubro de 1978, a União foi condenada pela prisão arbitrária, tortura e morte de Vladimir.










