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Perícia ignora áudio em que jovem implora para não ser morto pela PM

Segundo a perita, áudio indica somente “movimentação na rua”, sem citar a parte em que o jovem diz: “Pelo amor de Deus, tenho dois filhos”

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pms porta joão victor 1 (2)
1 de 1 pms porta joão victor 1 (2) - Foto: Reprodução

O laudo pericial sobre a gravação em que o jovem João Victor de Jesus da Silva implora para não ser morto por policiais militares, em julho de 2024, na zona leste de São Paulo, ignorou o diálogo entre a vítima e os PMs. No relatório, a perita Susel Coneglian se limitou a dizer que o áudio mostra a “movimentação da via pública”, “onde se encontram as câmeras”.

Ouça:

Em junho deste ano, o Metrópoles revelou um vídeo registrado pela câmera de segurança instalada na parte de fora da casa de João Victor. Na gravação, é possível ouvir o jovem dizendo: “O que eu fiz, senhor? Eu não tenho arma”. Na sequência, menciona seus filhos, de 7 e 6 anos. Um policial responde: “Foda-se as crianças”.

Ao fim de um longo diálogo, é possível ouvir o som de três tiros de fuzil e um PM gritando “larga a arma”. Para a família, foi uma tentativa de simular um confronto. A versão oficial é que a vítima teria resistido à abordagem e atirado contra os policiais.

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Escadaria por onde subiram policiais militares
Pai de João Victor, Sergio Antonio
Cômodo em que João Victor foi morto
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Cômodo em que João Victor foi morto

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Pai de João Victor, Sergio Antonio
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Pai de João Victor, Sergio Antonio

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Após a publicação da reportagem, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) pediu novas diligências, com uma nova perícia no áudio da gravação e a elaboração de um documento com a dinâmica do suposto confronto.

Diante da solicitação, foi juntada ao processo um laudo emitido em 3 de julho pelo Instituto de Criminalística (IC). Em poucos parágrafos, o perito descreve as imagens, sem detalhar o teor do diálogo.

“Aparentemente policiais armados entram e saem de um local, e em determinado instante chega equipe de socorro que sai com uma pessoa na maca”, diz a perita Susel Coneglian. (Anteriormente, a reportagem mencionava, de forma equivocada, que o perito seria José Carlos de Freitas Garcia Caldas, então diretor do IC)

“O áudio constante no arquivo é referente à movimentação da via pública onde se encontram as câmeras gravadoras (pessoas passando, latidos de cachorro, etc…). Cumpre informar que o formato retangular ao redor das pessoas em algumas cenas são provenientes da própria gravação”, acrescenta o perito.

Não há informação sobre se, após o pedido do MPSP, uma nova perícia será feita. No último dia 10 de novembro, o inquérito foi prorrogado.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP), afirma que o prazo do inquérito policial foi prorrogado e o caso é rigorosamente investigado pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), a fim de concluir diligências de campo e de inteligência, bem como atender às solicitações complementares do Ministério Público.

“Foda-se as crianças”

João Victor foi abordado em uma operação, realizada no dia 31 de julho do ano passado, para cumprir um mandado de homicídio. Um equipamento de segurança registrou o momento em que sete PMs encapuzados chegaram caminhando em posição de combate na Rua Martins Soares Moreno, às 17h48 daquele dia.

Os policiais foram direto para o puxadinho de tijolos vermelhos onde morava João Victor, que não tinha relação com o mandado de prisão. Mesmo assim, enquanto dois policiais aguardavam na escada de acesso, tentando impedir a aproximação de pessoas, os outros cinco entraram no imóvel.

O que aconteceu na parte de dentro da casa não foi registrado em vídeo. Mas o microfone da câmera conseguiu captar, entre 17h49 e 17h56, conversas entre os policiais e João Victor, que implorou por mais de sete minutos para não ser morto.

A versão oficial é que a vítima teria resistido à abordagem e atirado contra os policiais.

Os gritos por misericórdia foram silenciados pelo estrondo dos disparos. Três projéteis de calibre 7.62, capazes de atingir alvos a 800 metros de distância, atravessaram seu tórax instantaneamente. Ele foi levado para o Hospital Sapopemba e, assim que chegou, teve o óbito constatado.

Vício

Procurado pela Justiça por um roubo que teria ocorrido em 2022, João Victor era dependente químico. A situação piorou nos últimos anos, quando aderiu ao uso da droga sintética — conhecida como k9. Seu pai, o caminhoneiro Sergio Antonio da Silva, afirma que, desde então, o rapaz passou a vender os móveis e objetos que tinha em casa para comprar a substância. Quando os PMs do COE chegaram, não havia mais quase nada na casa, de 20 metros quadrados e dois cômodos.

“Quando ele era menor, ele deu trabalho, mas, graças a Deus ele saiu dessa vida aí maldita. Só que depois, ele se jogou nas drogas, fazia de 3 a 4 anos que ele estava nessas drogas aí, uma tal de K9. Eu tentava tirar ele, mas não consegui. Infelizmente, eu não consegui tirar ele desse vício”, conta Sergio ao Metrópoles.

Segundo o pai do rapaz, não havia arma alguma com o filho. “Ele era um viciado, não tinha nada de arma na mão. Devido a esse vício, ele vendeu tudo. Vendeu os móveis, vendeu botijão de gás, fogão, geladeira. Saiu vendendo para comprar mais”, afirma Sergio.

A Política da Bala

A morte de João Victor de Jesus da Silva foi uma das 246 cometidas por policiais militares na cidade de São Paulo no ano passado. Conforme revelado pelo Metrópoles na reportagem especial “A Política da Bala”, pelo menos 85 vítimas não tinham arma de fogo e 47 foram baleadas pelas costas ao menos uma vez. Entre todas as ocorrências, apenas um policial foi morto. Ele foi baleado por engano por um colega.

Para atingir a marca de 246 homicídios, 100 a mais do que no ano anterior, a Polícia Militar deu 1.701 tiros — 459 em ocorrências em que as vítimas não tinham arma.

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