Censurado pela Igreja, padre Júlio Lancellotti é alvo da direita em SP
Atuante com a população de rua de São Paulo, padre Júlio Lancellotti acumula atritos com políticos de direita na capital nos últimos anos
atualizado
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Conhecido por atuar na defesa da população de rua de paulistana, o padre Júlio Lancellotti, pároco da igreja de São Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de São Paulo, é um alvo frequente de políticos e movimentos de direita na cidade.
No último domingo (14/12), o religioso anunciou que não transmitirá mais, nas redes sociais, as missas que celebra. A decisão atende uma determinação do cardeal arcebispo Dom Odilo Scherer, da Arquidiocese de São Paulo, que vetou as transmissões.
O fato foi celebrado, na manhã desta terça-feira (16/12), pelo vereador Rubinho Nunes (União Brasil). “Finalmente! Lancellotti não vai mais usar a Igreja como palanque e a batina como escudo”, escreveu o parlamentar em uma publicação no X.
Rubinho tentou instaurar, duas vezes nos últimos dois anos, uma Comissão de Inquérito Parlamentar (CPI) para investigar organizações não governamentais (ONGs) que atuam com moradores de rua e dependentes químicos da Cracolândia. Um dos alvos seria Lancellotti, crítico da gestão municipal e coordenador da Pastoral do Povo de Rua.
Bate-boca com vice-prefeito bolsonarista
A assistência prestada pelo padre à população em situação de rua também já provocou embate com o vice-prefeito de São Paulo, Coronel Mello Araújo (PL), aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Em março deste ano, os dois chegaram a bater boca em um centro de convivência na zona leste da capital. Na ocasião, Mello Araújo afirmou que a concentração de dependentes químicos no bairro do Belém, também na zona leste, seria “culpa” do padre, que estaria fazendo um “desserviço” na região, segundo o vice-prefeito.
“O senhor disse que faço um desserviço. Eu não faço desserviço. Não quero que ninguém fique na rua”, disse o padre Júlio Lancellotti em meio a discussão. O religioso publicou um vídeo que registrou o bate-boca. Veja:
Alvo do MBL
Em 2020, no início da pandemia de Covid, Lancellotti foi alvo de uma armação feita por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) – fundado, inclusive, por Rubinho Nunes.
Naquele ano, Arthur do Val, conhecido como Mamãe Falei, e Guto Zacarias divulgaram a existência de um vídeo falso para incriminar o padre Júlio por supostamente explorar sexualmente um adolescente. Na época, Arthur do Val era o candidato à Prefeitura de São Paulo pelo Patriota, e Zacarias era assessor da campanha.
Mais tarde, os dois assumiram que se tratava de um vídeo falso, mas negaram a produção. O fato nunca trouxe, diretamente, consequências jurídicas aos integrantes do MBL.
Na ocasião, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) foi contra a instauração de ação penal e a Justiça determinou o arquivamento do inquérito, mesma medida adotada pela Arquidiocese de São Paulo e comunicada ao Vaticano na época.
Presidente da Câmara tentou denunciar padre
O mesmo vídeo foi relembrado pelo então presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil), em janeiro do ano passado, quatro anos após a armação do MBL.
Desta vez, o vereador enviou o material à Cúria Metropolitana de São Paulo como denúncia. Em resposta, a Arquidiocese confirmou que o vídeo tem o mesmo conteúdo divulgado em 2020.
Lancellotti confirma pausa das redes sociais
Em nota, o padre Júlio Lancellotti confirmou que, como já havia informado no último domingo, as transmissões de missas nas redes sociais estão temporariamente suspensas. “Porém, as missas dominicais continuam sendo celebradas normalmente às 10h, na Capela da Universidade São Judas – Mooca”, informou.
O religioso acrescentou que parou de atualizar as redes sociais “por um período de recolhimento temporário”.
Ele ainda negou que seria transferido da Paróquia São Miguel Arcanjo. “Reafirmo minha pertença e obediência à Arquidiocese de São Paulo”, finalizou.
Procurada, a Arquidiocese infomou que não vai se manifestar.













