Renda de R$ 3 mil e milhões na conta: os laranjas do esquema de MC Ryan
Esquema bilionário de lavagem de dinheiro que levou MC Ryan à prisão usou laranjas para dispersar fiscalização do sistema financeiro
atualizado
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Ao menos sete pessoas com renda de até R$ 5 mil mensais foram usadas como laranjas no esquema bilionário de lavagem de dinheiro chefiado por Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, apontou a Polícia Federal (PF). O Metrópoles apurou que apenas esse grupo movimentou quase R$ 22,5 milhões entre abril de 2024 e dezembro de 2025.
Ryan é apontado como líder e principal beneficiário de um esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado mais de R$ 260 bilhões, segundo Juízo da 5ª Vara Federal de Santos, que autorizou a Operação Narco Fluxo. A estrutura criminosa utilizou as indústrias fonográfica e do entretenimento para branquear valores de origem ilícita, segundo a PF.
O funkeiro foi preso temporariamente no âmbito da operação na última quarta-feira (15/4). Outros 32 alvos, incluindo Marlon Brendon Coelho Couto Silva, o MC Poze; Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei; e o casal de influenciadores Chrys Dias e Débora Paixão, também foram detidos.
Veja quem são e quanto cada laranja movimentou
Vitor Ferreira da Cruz Junior: beneficiário de programas sociais, ele declarou uma renda mensal de R$ 3 mil, mas movimentou mais de R$ 4 milhões entre 2 de julho de 2024 e 11 de novembro de 2025.
Alexandre Paula de Sousa Santos, o “Belga”: oficialmente como assessor de Ryan, de quem é amigo de infância, declarou renda mensal de R$ 3.862,47, mas informou a um banco receber R$ 10 mil por mês. No entanto, a investigação mostrou que ele movimentou mais de R$ 4,3 milhões em menos de dois meses, atuando como operador financeiro e “escudo” do funkeiro ao receber quantias vultuosas de dinheiro e pulverizar o montante para a produtora do artista, além de comprar bens de luxo.
Sydney Wendemacher Junior: o técnico em gravação de áudio declarou receber R$ 3.959,11 mensais, mas movimentou mais de R$ 2 milhões em um período de seis meses, de fevereiro a agosto de 2024. Ele recebeu R$ 1,3 milhão do Belga e rapidamente comprou imóveis em Atibaia e Jundiaí, no interior de São Paulo, além de veículos de luxo, para mascarar o verdadeiro dono (Ryan).
Vinicius dos Reis Pitarelli: barman, tem renda inferior a R$ 2 mil, presumida em um salário mínimo (R$ 1.543,74), mas realizou, entre fevereiro e agosto de 2024, transferências de R$ 877 mil e de R$ 200 mil para outros envolvidos no esquema.
José Claudio Figueiredo: o operador de máquinas é beneficiário do Auxílio Brasil e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), proventos que totalizam pouco mais de R$ 2 mil mensais. Apesar disso, ele movimentou mais de R$ 1,3 milhão entre dezembro de 2024 e junho de 2025.
Ariel Trindade Nascimento: moradora do interior da Bahia, tem renda mensal de R$ 575,89, mas movimentou R$ 152,6 mil em um único mês (agosto de 2024). A conta dela recebeu 229 transações de uma fintech envolvida no esquema, em uma técnica chamada de smurfing, para despistar fiscalizações.
Lucas Felipe Silva Martins: o jovem de 24 anos, morador de um núcleo habitacional em Bauru, no interior de São Paulo, é titular de um CNPJ de Microempreendedor Individual (MEI) com capital de R$ 6 mil. Apesar disso, ele recebeu R$ 182,3 mil entre abril e agosto de 2024, dos quais gastou R$ 126,8 mil na Prada, mascarando o consumo de itens de luxo nos extratos financeiros de Ryan.
Segundo a PF, o uso de laranjas serviu para quebrar o rasto financeiro do esquema, permitindo o desfrute do patrimônio sem expor o MC Ryan em fiscalizações diretas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e da Receita Federal.
Para os investigadores, o branqueamento dos valores por meio de laranjas foi realizado em duas fases: a quebra do rastro, chamada de “estratificação”, e o desfrute do patrimônio, chamado de “integração”.
As defesas dos citados não foram localizadas pela reportagem. O espaço segue aberto.
Operação Narco Fluxo
- Segundo a PF, mais de 200 policiais federais participam da operação e buscaram cumprir 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos por Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos. Seis pessoas seguem foragidas.
- De acordo com a PF, a ação aconteceu nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal.
- A PF acredita que o volume financeiro movimentado pelo grupo criminoso ultrapassa R$ 260 bilhões. Além de armas, carrões e dinheiro em espécie, a corporação apreendeu documentos e equipamentos eletrônicos que ajudarão na investigação.
- Entre os presos na operação dessa quarta estão os funkeiros MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e Raphael Sousa, dono da página Choquei.
- A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens de Ryan.
- O bloqueio foi imposto a 77 alvos da PF, entre empresas e pessoas físicas.
- De acordo com a decisão judicial, o valor estimado para o bloqueio foi calculado com base no lucro estimado com os crimes que teriam sido praticados: “Tráfico internacional de mais de três toneladas de cocaína, somado ao fluxo financeiro identificado nos relatórios de inteligência financeira encaminhados pelo Coaf”.
- Também foram determinadas medidas de constrição patrimonial, incluindo o sequestro de bens e a imposição de restrições societárias, com o objetivo de interromper as atividades ilícitas e preservar ativos para eventual ressarcimento.
- As investigações continuam e os alvos podem responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Envolvidos se manifestam
Em nota, a defesa de MC Ryan informou que não teve acesso ao procedimento e afirmou confiar que os esclarecimentos que serão prestados demonstrarão a verdade dos fatos.
“Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável”.
Já os advogados de MC Poze afirmaram desconhecer os autos ou teor do mandado de prisão. “Com acesso aos mesmos, [a defesa] se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”, informou o texto.
A defesa de Raphael Sousa, dono da Choquei, disse, em nota, que “seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital. Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos”.
Segundo o advogado Pedro Paulo de Medeiros, “Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada”.
Já a defesa de Chrys Dias e Débora Paixão informou que, como o processo corre sob segredo de Justiça, as manifestações ocorrerão apenas nos autos. “Repudiamos os vazamentos de imagens que violaram a privacidade da família e a presunção de inocência, reiterando nossa confiança na Justiça”, diz a nota.
























