MC Ryan: fintech “chinesa” sem aval do BC é acusada de golpe com bets
Fintech Golden Cat, operada por chineses, é acusada de lavar centenas de milhões de reais em esquema que levou MC Ryan à prisão
atualizado
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Apontada como “topo da infraestrutura financeira” do esquema bilionário que levou Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, e outros à prisão, a Golden Cat Processamento de Pagamentos acumula ações judiciais e reclamações de apostadores por estelionato e golpes financeiros. A instituição nunca teve autorização do Banco Central (BC) para operar no Brasil.
Apesar da falta de aval, a empresa atua como “facilitadora” de pagamentos a casas de apostas, as famosas “bets”. Apostadores acusam a fintech de bloquear suas contas, impedindo o saque de prêmios ganhos.
Da fundação à mira da PF
A Golden Cat foi fundada em 2023 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e transferida no ano seguinte para São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, em um movimento que chamou a atenção da Procuradoria Geral gaúcha.
Em São Paulo, a empresa firmou sede em São Bernardo e abriu uma filial em Santos, no litoral do estado.
Recentemente, a Golden Cat entrou na mira da Polícia Federal (PF) ao ser identificada como “topo da infraestrutura financeira” de um esquema de lavagem de dinheiro que utilizou as indústrias fonográficas e de entretenimento.
A empresa funcionava como uma “grande processadora de pagamentos que movimenta centenas de milhões de reais e funciona como eixo central para arrecadação de recursos provenientes de apostas ilegais”, diz a decisão do juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos, que autorizou a operação Narco Fluxo (veja mais abaixo).
Em seguida, os valores multimilionários eram repassados para empresas de associados à estrutura criminosa, além de encaminhar remessas para fora do país.
Diante dos elementos identificados pela investigação, a Justiça decretou a prisão temporária do atual sócio-administrador Xizhangpeng Hao, de Sun Chunyang, que ocupava o mesmo cargo anteriormente, e de Jiawei Lin, destinatário dos valores enviados para o exterior. Outros 39 mandados de prisão foram expedidos no âmbito da Narco Fluxo, dos quais 33 haviam sido cumpridos nas primeiras horas de operação.
Fintech é acusada de estelionato e golpes financeiros
A Golden Cat é alvo de inúmeras queixas em portais como o Reclame Aqui, onde não há respostas para os usuários, e de processos judiciais em tribunais de ao menos 13 estados brasileiros.
A reportagem identificou ações de consumidores contra a fintech nos tribunais de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Goiás, Bahia, Paraíba, Pernambuco, Roraima e Amazonas.
Na maioria esmagadora dos processos, clientes acionam a Justiça por meio do direito do consumidor e pedem indenização por danos morais e materiais após terem perdido dinheiro na plataforma.
Muitas vezes, as perdas ocorrem após apostas “ganhas”, que multiplicam substancialmente os valores apostados. Quando pedem para sacar os prêmios, os usuários têm as contas bloqueadas.
O Metrópoles não localizou representantes da Golden Cat nem a defesa de seus sócios-administradores. O espaço segue aberto.
Operação Narco Fluxo
- Segundo a PF, mais de 200 policiais federais participaram da operação e cumpriram 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos pelo Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos.
- De acordo com a PF, a ação ocorreu nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e Distrito Federal.
- A PF acredita que o volume financeiro pelo grupo criminoso ultrapassa R$ 260 bilhões. Além de armas, carrões e dinheiro em espécie, a corporação apreendeu documentos e equipamentos eletrônicos que ajudarão na investigação.
- Entre os presos na operação estão os funkeiros MC Ryan SP, MC Poze do Rodo e Raphael Sousa, dono da página Choquei.
- A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 2,2 bilhões em bens de Ryan.
- O bloqueio foi imposto a 77 alvos da PF, entre empresas e pessoas físicas.
- De acordo com a decisão judicial, o valor estimado para o bloqueio foi calculado com base no lucro estimado com os crimes que teriam sido praticados: “tráfico internacional de mais de três toneladas de cocaína, somado ao fluxo financeiro identificado nos relatórios de inteligência financeira encaminhados pelo Coaf“.
- Também foram determinadas medidas de constrição patrimonial, incluindo o sequestro de bens e a imposição de restrições societárias, com o objetivo de interromper as atividades ilícitas e preservar ativos para eventual ressarcimento.
- As investigações continuam e os alvos podem responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Envolvidos se manifestam
Em nota, a defesa de MC Ryan informou que não teve acesso ao procedimento.
“Ressalta-se, contudo, a absoluta integridade de MC Ryan, bem como a lisura de todas as suas transações financeiras. Todos os valores que transitam por suas contas possuem origem devidamente comprovada, sendo submetidos a rigoroso controle e ao regular recolhimento de tributos, o que sempre foi observado de maneira contínua e responsável”. A defesa ainda afirmou confiar que os esclarecimentos que serão prestados demonstrarão a verdade dos fatos.
Já os advogados de MC Poze divulgaram a seguinte nota: “A defesa de Marlon Brandon [nome de batismo de Poze] desconhece os autos ou teor do mandado de prisão. Com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”, informou o texto.
A defesa de Raphael Sousa, dono da Choquei, disse, em nota, que “seu vínculo com os fatos investigados decorre, exclusivamente, da prestação de serviços publicitários por meio de sua empresa, responsável pela comercialização de espaço de divulgação digital. Os valores por ele recebidos referem-se a serviços efetivamente prestados de publicidade e marketing, atividade lícita e regularmente exercida há anos”.
Segundo o advogado Pedro Paulo de Medeiros, “Raphael não integra organização criminosa, não participou de qualquer esquema ilícito e jamais exerceu função diversa da veiculação publicitária contratada”.
Por fim, a defesa de Chrys Dias e Débora Paixão informou que, como o processo corre sob segredo de Justiça, as manifestações ocorrerão apenas nos autos. “Repudiamos os vazamentos de imagens que violaram a privacidade da família e a presunção de inocência, reiterando nossa confiança na Justiça”, diz a nota.
























