“Mulheres eram prêmio”, diz decisão que condenou coaches de conquista
Justiça Federal condenou um brasileiro e um americano por exploração sexual de mulheres, incluindo adolescentes, em festa realizada em 2023
atualizado
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A decisão da Justiça Federal que condenou dois coaches por exploração sexual de mulheres, incluindo adolescentes, durante um evento realizado em fevereiro de 2023, no bairro do Morumbi, na capital paulista, aponta que as participantes eram tratadas como “prêmios” ou “resultados” das técnicas ensinadas aos alunos.
Na sentença, o juiz federal Caio José Bovino Greggio destacou o uso sistemático de filmagens e fotografias das mulheres presentes, frequentemente sem consentimento, para divulgar o suposto sucesso do curso. Segundo ele, o ambiente era previamente planejado para favorecer contatos de natureza sexual, o que configura o crime de exploração sexual mesmo sem pagamento direto.
Os condenados são o brasileiro Fabrício Marcelo Silva de Castro Junior e o americano Mark Thomas Firestone. Eles receberam penas de 17 anos e seis meses de prisão, em regime inicial fechado.
À época, a festa foi divulgada como parte de um curso de “desenvolvimento pessoal” voltado a homens com dificuldade de relacionamento, com foco em ensinar técnicas para conquistar mulheres. O evento foi promovido pelos dois, junto com o chinês Ziqiang Ke, que segue foragido e teve o processo desmembrado.
A denúncia do Ministério Público Federal (MPF) destacou a presença de adolescentes no local, incluindo ao menos uma jovem de 17 anos. Relatos de vítimas e testemunhas indicam que não houve controle rigoroso de idade na entrada, apesar de a organização afirmar que o evento seria restrito a maiores de 18 anos.
Fabrício foi apontado como peça-chave na logística do evento, responsável pela locação do imóvel, contratação de serviços e apoio operacional. A prisão preventiva dele foi mantida sob o argumento de risco de evasão e descumprimento de medidas cautelares.
Ao Metrópoles, o advogado de Fabrício, Nairo Bustamante Pandolfi, afirmou que a defesa recebe “com inconformismo a sentença condenatória, mas, ao mesmo tempo, com nenhuma surpresa”.
Segundo Pandolfi, o juízo demonstrou parcialidade e, em diversos momentos, “cerceou a defesa e violou prerrogativas dos advogados”. Ele afirmou ainda que as provas não demonstram ato criminoso por parte do cliente e que irá recorrer da decisão.
Já o americano foi apontado como um dos líderes do esquema, atuando como instrutor do curso e utilizando diferentes identidades. Ele poderá recorrer em liberdade.
Além da pena de prisão, ambos também foram condenados ao pagamento de 24 dias-multa, calculados com base em cinco vezes o salário mínimo vigente em 2023.
Relembre o caso
A Polícia Civil de São Paulo abriu uma investigação sobre uma festa organizada no dia 26 de fevereiro de 2023 por coaches estrangeiros em uma mansão no Morumbi, na zona sul da capital paulista.
Conforme relatado à polícia por uma das mulheres presentes no evento, a festa teria sido usada como uma “aula prática” de um curso promovido pelo Millionaire Social Circle para conquistar mulheres no país.
De acordo com o boletim de ocorrência, a vítima, de 27 anos, conheceu um homem por um aplicativo de relacionamentos, que a convidou para uma festa. O local estava cheio de homens estrangeiros que tiraram fotos e vídeos dela para promover o curso sobre relacionamentos.
A ocorrência foi registrada como “favorecimento de prostituição ou outra forma de exploração sexual e agenciar, aliciar, transportar, transferir, comprar, alojar ou acolher exploração sexual”. À época, o caso foi investigado pelo 34º Distrito Policial (Vila Sônia).
O curso do trio já havia sido realizado em outros países, como: Costa Rica, Colômbia e Filipinas. O preço cobrado pela “consultoria”, mais a viagem de duas semanas para um país, era de US$ 12 mil.
Também era oferecida a opção da compra de um pacote com seis países, por US$ 50 mil. No “programa”, os coaches ensinavam como abordar mulheres em diferentes locais e como “levar uma mulher para cama” em apenas um dia.
São Paulo era uma das cidades na lista do curso. Na lista, o Brasil era apresentado como um país com “mulheres incrivelmente lindas”, “sexualmente aberto” e onde “beijar na boca é o mesmo que apertar as mãos”.
Segundo os coaches, a palavra para definir o Brasil era “exótico”. Para a dupla, a palavra pode ser usada também para classificar as mulheres, as praias, a música, a cultura e a “justaposição de ricos e pobres” no país.
A lista de “benefícios” se estendia às mulheres em específico. Ainda segundo o anúncio do grupo, as brasileiras teriam as “melhores curvas” e, com elas, “as coisas evoluem rapidamente”. Elas também, segundo os coaches, gostam de contato físico e de homens “dominantes”.
Um deles afirma que as brasileiras seriam mais permissivas do que mulheres de outras partes do mundo. Segundo o coach, se um “aluno” tentar beijar uma mulher no Brasil e ela não quiser, não haverá grandes consequências.
Após a festa promovida pelo Millionaire Social Circle ter se tornado alvo de investigação da Polícia Civil, os coaches apagaram os conteúdos relacionados ao curso de conquista oferecido no Brasil.
