“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV

Relatório da PF mostra que empresa em Santa Bárbara d’Oeste, no interior, tinha capacidade para produzir 3,5 mil armas de guerra por ano

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Arte Alfredo Henrique/Metrópoles
Arte gráfica com fuzis AK47 e AR15 justapostos - Metrópoles
1 de 1 Arte gráfica com fuzis AK47 e AR15 justapostos - Metrópoles - Foto: Arte Alfredo Henrique/Metrópoles

A estrutura da fábrica descoberta pela Polícia Federal (PF) em Santa Bárbara d’Oeste, no interior paulista, impressionou até investigadores experientes. Segundo laudos técnicos, o espaço — registrado oficialmente como empresa de peças aeroespaciais, mas usado para fabricar armamentos — tinha capacidade de produzir 3.500 fuzis por ano, o equivalente a dez armas por dia, se operasse em regime integral.

O perito responsável pelo relatório técnico descreveu o local como uma “estrutura industrial com padrão de linha de montagem”.

“A planta dispõe de centros de usinagem capazes de produção em série, com fluxo contínuo e trocas rápidas de ferramenta. O nível técnico é compatível com o de uma metalúrgica de precisão”, disse o engenheiro Gustavo Mendes de Azevedo, da PF. A investigação indica que parte dos armamentos fabricados no local eram vendidos para facções criminosas, entre elas o Comando Vermelho (CV), do Rio de Janeiro.
“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV - destaque galeria
8 imagens
Armamento era montado em Bunker no interior de SP
Ação conjunta da PF e PM apreendeu dezenas de fuzis
Armamento era negociado com criminosos
Um dos supostos clientes do grupo seria o Comando Vermelho
Supeitos com formação técnica trabalhavam para quadrilha
Peças de armas eram projetadas e feitas clandestinamente
1 de 8

Peças de armas eram projetadas e feitas clandestinamente

Reprodução/PF
Armamento era montado em Bunker no interior de SP
2 de 8

Armamento era montado em Bunker no interior de SP

Reprodução/PF
Ação conjunta da PF e PM apreendeu dezenas de fuzis
3 de 8

Ação conjunta da PF e PM apreendeu dezenas de fuzis

Reprodução/PF
Armamento era negociado com criminosos
4 de 8

Armamento era negociado com criminosos

Reprodução/PF
Um dos supostos clientes do grupo seria o Comando Vermelho
5 de 8

Um dos supostos clientes do grupo seria o Comando Vermelho

Reprodução/PF
Supeitos com formação técnica trabalhavam para quadrilha
6 de 8

Supeitos com formação técnica trabalhavam para quadrilha

Reprodução/PF
Dono de fábrica consta entre os investigados
7 de 8

Dono de fábrica consta entre os investigados

Reprodução/PF
“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV - imagem 8
8 de 8

Arte Alfredo Henrique/Metrópoles

A fábrica por dentro

O galpão onde funcionava a Kondor Fly, fachada usada pelo grupo, reunia centros de usinagem de Controle Numérico Computadorizado (CNC), tornos de alta precisão, fresadoras digitais e estações de acabamento.

Os peritos apontam que o arranjo das máquinas seguia o mesmo padrão de uma linha de produção industrial, com setores separados por função: corte, acabamento, montagem e embalagem.

No estoque, a PF encontrou blocos de aço 4140 e alumínio 7075, os mesmos materiais usados na fabricação de fuzis e pistolas. Os insumos eram comprados em pequenas quantidades, em nome de terceiros, para não levantar suspeitas. “A aquisição fragmentada e a emissão de notas por diferentes CNPJs foram estratégias claras de ocultação do fluxo de materiais”, anotou o relatório policial.

Linha de montagem dos fuzis

De acordo com as investigações, o processo de produção começava nos computadores de Anderson Custódio Gomes, o técnico apontado como o cérebro da operação. Usando softwares industriais como MasterCam e Fusion 360, ele criava os arquivos digitais com medidas exatas de canos, gatilhos e receptores de fuzis tipo AR-15. Os códigos eram transferidos para as máquinas CNC, que cortavam o metal automaticamente.

Depois, Janderson Aparecido Ribeiro de Azevedo, operador de máquinas, ajustava as peças e testava os encaixes. “O Anderson pedia pra eu ver se a peça encaixava. Eu achava que era parte de drone. Nunca vi arma pronta”, disse em depoimento.

As peças usinadas passavam por polimento e eram separadas em conjuntos prontos para montagem. No fim do turno noturno, tudo era embalado e levado para um depósito em Americana, de onde saíam os lotes vendidos sob encomenda.

“Os registros telemáticos mostram padrão comercial: pedidos, confirmações e recebimentos. Não era produção artesanal, era uma linha de montagem completa”, concluiu o relatório de análise telemática obtido pela reportagem.

Divisão de tarefas e disfarces

O documento da polícia apontou que, assim como um fábrica, cada integrante tinha uma função definida. Anderson Custódio Gomes era o programador e projetista das armas; Janderson Azevedo, o operador responsável pelos testes; Wendel dos Santos Bastos, o encarregado da logística e das compras; e Gabriel Carvalho Belchior, dono da fábrica, que permitia o uso do maquinário durante a noite.

Belchior afirmou em depoimento que desconhecia a real finalidade da produção. “Eles disseram que iam testar peças aeronáuticas. Eu jamais imaginei que usavam minhas máquinas pra isso”, declarou.

Notas fiscais obtidas pela PF, porém, mostram que a empresa dele comprava ferramentas específicas como microfresas e brocas de precisão, usadas em componentes de armas de fogo.

“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV - destaque galeria
10 imagens
Armas eram projetadas em 3D
Armas eram montadas no interior de SP
“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV - imagem 4
Armas eram repassadas para facções no Rio e nordeste
Peças eram feitas com maqunário de fábrica que deveria produzir peças aeroespaciais
Projetos eram posteriormente executados em fábrica no interior paulista
1 de 10

Projetos eram posteriormente executados em fábrica no interior paulista

Reprodução/PF
Armas eram projetadas em 3D
2 de 10

Armas eram projetadas em 3D

Reprodução/PF
Armas eram montadas no interior de SP
3 de 10

Armas eram montadas no interior de SP

Reprodução/PF
“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV - imagem 4
4 de 10

Reprodução/PF
Armas eram repassadas para facções no Rio e nordeste
5 de 10

Armas eram repassadas para facções no Rio e nordeste

Reprodução/PF
Peças eram feitas com maqunário de fábrica que deveria produzir peças aeroespaciais
6 de 10

Peças eram feitas com maqunário de fábrica que deveria produzir peças aeroespaciais

Reprodução/PF
Armas custavam entre R$ 8 mil e R$ 15 mil
7 de 10

Armas custavam entre R$ 8 mil e R$ 15 mil

Reprodução/PF
“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV - imagem 8
8 de 10

Arte Alfredo Henrique/Metrópoles
“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV - imagem 9
9 de 10

Reprodução/PF
“Linha de montagem de guerra” em SP fazia até 10 fuzis por dia para CV - imagem 10
10 de 10

Reprodução/PF

O delegado Jeferson Dessotti Cavalcante Di Schiavi, que coordena o inquérito, classificou o esquema como “a industrialização do crime”.

“Havia planejamento, divisão de tarefas e fluxo de produção. Não era improviso, era uma indústria clandestina de armas”, afirmou.

Engenharia reversa e padrão industrial

Os peritos também constataram que o grupo dominava engenharia reversa, técnica usada para reproduzir equipamentos originais a partir de amostras. Com isso, conseguiram copiar dimensões de fuzis AR-15 e pistolas Glock sem precisar de plantas oficiais.

“Não se trata de improviso artesanal, mas de engenharia reversa aplicada. A quadrilha dominava a tecnologia de produção de pistolas e fuzis, com padrão comparável ao industrial”, reforçou o perito Gustavo Azevedo, que assinou o laudo balístico e mecânico.

Os relatórios apontam que o nível de precisão das peças apreendidas superava o de muitas oficinas legalizadas. Cada conjunto de receptor podia ser montado sem ajustes adicionais, algo incomum fora da indústria de defesa.

Mercado e movimentação

Mensagens de WhatsApp e planilhas bancárias indicam que as armas eram vendidas por valores entre R$ 12 mil e R$ 18 mil, dependendo do modelo e do acabamento. Pagamentos eram feitos via Pix e depósitos fracionados, enviados de estados como Rio de Janeiro e Goiás.

Em um dos diálogos interceptados, Anderson escreveu a Wendel: “Esse aqui vai pro mesmo cara do RJ, fala pra ele que tá o mesmo valor do último, mas com rosca melhor”.

A mensagem foi interpretada pela PF como negociação direta com um comprador ligado ao crime organizado.

A dimensão do esquema

Com máquinas capazes de operar 24 horas, profissionais formados pelo Senai e estoque próprio de insumos, a estrutura de Santa Bárbara d’Oeste poderia abastecer o mercado ilegal com milhares de fuzis por ano. Para a PF e o Ministério Público, trata-se de um dos maiores casos de industrialização de armas clandestinas já detectados no país.

“A capacidade instalada, o nível técnico e a organização indicam que o grupo atingiu estágio industrial. É a transformação de uma fábrica legítima em linha de montagem de guerra”, concluiu o delegado Di Schiavi em seu relatório.

Quem é quem no esquema

  • Anderson Custódio Gomes — técnico em programação CNC, projetista dos fuzis e pistolas; preso.
  • Janderson Aparecido Ribeiro de Azevedo — operador de máquinas, responsável pelos testes de encaixe; preso.
  • Wendel dos Santos Bastos — intermediário e comprador de insumos metálicos; denunciado.
  • Gabriel Carvalho Belchior — proprietário da fábrica Kondor Fly; responde em liberdade.
  • “Milque” — gerente citado como supervisor das atividades noturnas; procurado.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comSão Paulo

Você quer ficar por dentro das notícias de São Paulo e receber notificações em tempo real?