Jovem morto com 27 tiros: família vê racismo em ação policial, diz advogada
Gustavo Munis de Santana foi sepultado nesta segunda-feira (12/10), após ser assassinado com 27 tiros por policiais militares em Moema

São Paulo – A advogada Ana Facillia, que representa os familiares de Gustavo Munis de Santana, diz que a família do jovem vê racismo na ação policial que matou Gustavo com 27 tiros, no último sábado (10/10), em Moema, na zona sul de São Paulo.
“Não é a primeira vez que fazem uma abordagem violenta contra ele”, disse Facillia ao Metrópoles, nesta segunda-feira (12/10). Ela conta que a família de Gustavo contesta a versão da Polícia Militar, que associou os disparos contra o jovem a uma reação de legítima defesa.
Em nota no sábado, a Polícia Militar disse que Gustavo fez “menção de sacar uma arma” durante uma abordagem, “levando os policiais a intervir para repelir a injusta agressão”. O jovem, no entanto, não estava armado, nem tinha antecedentes criminais. O objeto que ele tinha em mãos era um celular.
Relembre o caso
- Por volta das 2h35, policiais militares chegaram na Avenida Moreira Guimarães, 1.215, para atender a uma suposta ocorrência de tentativa de suicídio.
- Segundo a nota inicial da PM, a equipe constatou que um indivíduo “havia saltado de uma ponte”. Na versão dos policiais, o homem fugiu a pé e fez “menção de sacar uma arma”, sendo baleado e morto pelos agentes.
- A informação de que Gustavo teria saltado da ponte não aparece no boletim de ocorrência. O documento diz que o chamado para o ocorrência citava um homem “transtornado” e ameaçando atirar contra si próprio. Nesta versão, após a chegada dos policiais, o jovem atravessou a passarela correndo e foi até a Alameda dos Guaramoris, 1.285.
- O boletim diz que a imagem das câmeras corporais mostram que, já na Alameda dos Guaramoris, Gustavo sai “de uma área escura, junto à fachada do imóvel, e estende os braços apontando algo na direção da rua, onde estavam os policiais”.
- Os PMs atiraram 45 vezes. Destes, 27 disparos atingiram Gustavo. Somente 4 disparos foram feitos na região das pernas. Os demais foram na região da cabeça, pescoço, tórax, braços, bacia e pelve.
- Os agentes envolvidos no caso foram afastados das atividades operacionais. Um Inquérito Policial Militar (IPM) foi aberto para apurar a conduta dos policiais.
“Nunca teve surto”
A advogada diz que Gustavo tinha depressão e fazia tratamento, “mas nunca teve surto psicótico e nenhuma tentativa de suicídio”. No sábado, ele teria saído para passear. A família soube do assassinato pela Polícia Militar, que ligou para uma das irmãs do jovem.
Na fachada do estabelecimento onde Gustavo foi baleado, é possível ver mais de 20 marcas de tiros espalhadas na parede e no portão. O chão está manchado de sangue. Até o momento, nem as imagens das câmeras corporais dos agentes, nem o vídeo da câmera de segurança do espaço foram divulgados.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPNo bairro onde tudo aconteceu, funcionários de estabelecimentos próximos ainda comentavam o caso nesta segunda-feira (12/10) e procuravam explicações para a ação policial.
Gustavo foi velado e enterrado no Cemitério de Congonhas, também na zona sul, nesta segunda. Familiares e amigos acompanharam a cerimônia consternados.
Depois do sepultamento, a irmã de Gustavo, Beatriz Munis, publicou uma mensagem nas redes sociais: “Eu devia ter falado te amo mais vezes”, dizia o texto, que acompanha fotos dos dois juntos. Gustavo era o caçula da família e morava com a mãe e as duas irmãs mais velhas.
A empresa onde o jovem trabalhava, um estabelecimento de cuidados para animais de estimação, publicou um vídeo em que Gustavo aparece cercado de cachorros.
“Esse é o Gustavo que nós conhecíamos, um menino comprometido com seu trabalho. Levava os Dogs para as aulas de banho na unidade Santo Amaro, aguardava o dia todo os cães ficarem prontos. Nunca tivemos problemas algum com esse jovem que gostava de estar no meio dos animais. De uma forma cruel e injusta você foi levado, irmão! Que Deus faça justiça aqui na terra, e que cuide do coração dos seus familiares!”, diz o texto.

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Ver todasO caso foi registrado no Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Em nota no sábado (10/10), a Secretaria da Segurança Pública disse que todos os procedimentos durante e após a ocorrência serão apurados.
“A SSP não tolera desvios de conduta dos seus agentes e constatadas irregularidades, os profissionais serão punidos com rigor. As armas dos policiais e o celular da vítima foram apreendidos para perícia. As imagens registradas pelas câmeras corporais durante a ação também foram solicitadas para análise”, termina a nota.












