“Filme de terror”: homem é confundido e detido 4 vezes por Smart Sampa. Vídeo

Ailton Alves de Sousa diz que é abordado desde 2020, quando Smart Sampa ainda não era usado, e é confundido com um criminoso de Mato Grosso

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A rotina de Ailton Alves de Sousa, 41 anos, morador de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, se transformou em um ciclo de medo e constrangimento. Coordenador de departamento pessoal, ele foi detido repetidamente pela Polícia Militar (PM) após ser identificado pelo sistema de reconhecimento facial Smart Sampa como um foragido, acusado de homicídio em Mato Grosso.

 

As abordagens ocorreram em diferentes contextos do cotidiano e se intensificaram ao longo dos últimos sete meses, período em que Ailton foi conduzido ao menos quatro vezes à delegacia. As detenções aconteceram durante o trabalho, ao sair de casa e em situações pessoais, sempre motivadas pelo mesmo erro de identificação.

Em conversa com o Metrópoles, Ailton afirmou que o problema não é recente e que os episódios se arrastam há anos. Segundo ele, a primeira vez que foi levado à delegacia ocorreu em 2001. “Esse caso comigo não é de agora. A primeira vez que eu fui para a delegacia foi em 2001”, relatou. Na época, ele optou por não acionar a Justiça, acreditando que o erro não traria consequências. “Eu perguntei se isso poderia me prejudicar e me disseram que não. Eu confiei”, disse.

Ao relembrar os episódios, Ailton diz que a experiência vai além do constrangimento e se aproxima de uma sensação constante de ameaça. “Parece até um filme de terror”, afirmou, ao descrever a sequência de abordagens e a presença recorrente de viaturas em sua rotina.
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Rotina de abordagens

A sequência recente de detenções tem início em 7 de setembro de 2025, quando Ailton foi abordado por policiais militares após ser identificado pelo sistema Smart Sampa como “procurado”. Ele foi conduzido ao 26º Distrito Policial (Sacomã). No boletim de ocorrência, os próprios agentes registraram que a abordagem ocorreu após alerta das câmeras do sistema.

Já na delegacia, uma verificação mais detalhada apontou três mandados de prisão em nome semelhante ao de Ailton, todos expedidos no estado de Mato Grosso. No entanto, a checagem também revelou inconsistências evidentes: o nome do pai não correspondia além de divergências na naturalidade, registrada como sendo do Paraná — Ailton é natural de São Paulo.

O próprio boletim ainda menciona um registro anterior, de 2020, em que a polícia já havia identificado o mesmo erro e reconhecido tratar-se de um caso de homicídio. Mesmo assim, a falha persistiu. Ao final, o documento conclui que Ailton não era o procurado e orienta que medidas fossem tomadas para corrigir o problema, inclusive no sistema Smart Sampa, a fim de evitar novos constrangimentos, o que, na prática, não ocorreu.


Histórico de abordagens

  • 07 de setembro de 2025:
    Primeira abordagem do período recente. Ailton foi identificado pelo sistema Smart Sampa como “procurado” e conduzido ao 26º Distrito Policial (Sacomã).
    Na delegacia, foi constatado que se tratava de um caso de homônimo. O próprio boletim de ocorrência apontou divergências nos dados — como nome do pai e naturalidade — e recomendou a correção no sistema para evitar novos erros.
  •  26 de outubro de 2025:
    Nova detenção. Mesmo portando cópias de boletins e documentos que comprovavam o erro, Ailton foi conduzido à delegacia. Ele registrou o momento em vídeo, relatando ser a terceira vez que passava pela mesma situação.
  • 08 de março de 2026:
    Abordado enquanto trabalhava em um evento esportivo. Ailton foi levado ao 27º Distrito Policial (Campo Belo) sob alegação de homicídio, em meio ao público, o que gerou constrangimento e exposição.
  • 18 de março de 2026:
    Nova abordagem ao sair do trabalho. Ele foi novamente conduzido à delegacia, repetindo o padrão de erro de identificação pelo Smart Sampa.
  • 23 de março de 2026 (manhã/tarde):
    Detido enquanto acompanhava a mãe em uma unidade de saúde. Mesmo explicando a situação, foi levado pelos policiais, deixando a mãe sozinha durante o atendimento.
  • 23 de março de 2026 (madrugada):
    Horas após ser liberado com ajuda de um advogado, policiais foram até sua casa por volta das 3h. Armados, chamaram pelo nome de Ailton e tentaram que ele saísse. Com medo, ele não abriu a porta. A ação foi registrada por câmeras de vizinhos.
  • Outras ocorrências:
    Ailton relata que viaturas foram diversas vezes até sua residência em outras datas, mas ele não estava no local por estar trabalhando.

O que é o Smart Sampa?

É um sistema de monitoramento da Prefeitura de São Paulo que utiliza câmeras com tecnologia de reconhecimento facial espalhadas pela cidade. A ferramenta cruza imagens captadas em tempo real com bases de dados oficiais da Justiça e da segurança pública, com o objetivo de identificar foragidos, localizar pessoas desaparecidas e auxiliar em ações policiais.


Sorte de estar vivo

Ailton relaciona as sucessivas abordagens ao racismo estrutural e afirma que a forma como é percebido durante as ações policiais agrava ainda mais a situação. “Eu sou um homem negro. Se eu tivesse tido uma postura mais agressiva, com certeza eu não estaria mais falando com você”, disse.

Segundo ele, gestos ou mudanças de comportamento podem ser interpretados como “atitude suspeita”, expressão frequentemente utilizada para justificar abordagens, o que o leva a manter cautela constante nas interações com os agentes.

Para Ailton, o caso expõe um problema maior. “Nem todas as pessoas pretas passam por isso e conseguem sair vivas para contar a história”, declarou, ao destacar o risco enfrentado em cada abordagem.

O que diz as autoridades

Procuradas, as autoridades afirmam que não houve falha no funcionamento do sistema. Em nota, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) informou que o programa Smart Sampa utiliza bases de dados oficiais da Justiça e de órgãos de segurança pública, não sendo responsável por eventuais inconsistências cadastrais. Segundo a pasta, a atuação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) ocorreu de forma regular, a partir de alertas emitidos pelo sistema e com base em mandados de prisão ativos no Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP).

Já a Secretaria da Segurança Pública (SSP)  informou que o nome de Ailton não consta mais no BNMP  e que seus dados pessoais, incluindo a fotografia, foram removidos da base estadual.

 

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