Fiscal é suspeito de usar foto de bode em ônibus com IA para multar empresa
Multa aplicada por auditor-fiscal do Ministério do Trabalho de Sorocaba (SP) virou alvo de investigação da Advocacia-Geral da União (AGU)

A Advocacia-Geral da União (AGU) investiga a aplicação de uma multa por um auditor-fiscal da Superintendência Regional do Ministério do Trabalho e Emprego em Sorocaba, no interior paulista, que teria usado inteligência artificial (IA) para criar a foto de um bode com cinto de segurança dentro de um ônibus e usá-la na comprovação do auto de infração contra uma empresa de transporte público de Pilar do Sul, município da mesma região.
Documento obtido pelo Metrópoles mostra que o auditor-fiscal José Urubatan Carvalho Vieira afirma ter embarcado em um ônibus e flagrado “um bode e uma cabrita, talvez filha do animal, em um banco do ônibus com cheiro insuportável”. Na justificativa da multa aplicada à empresa Viação Estevam Transporte & Turismo, ele apontou, ainda, que o “passageiro proprietário estava embriagado e não quis conversar”.
Em outro trecho do documento emitido pelo Ministério do Trabalho, o auditor reforça que se tratava de “cena vexatória, tanto como um elemento embriagado, como animais ‘passageiro'”. Ainda segundo ele, a empresa não adotou nenhuma providência “quanto a perigos internos ou externos”. Dez dias antes de aplicar a multa, Vieira publicou a mesma foto feita por IA, como meme, dizendo: “Bode é passageiro em cidade da região”.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles SP
Frequência de envio: Diário
Ver todasCom a denúncia feita pelo auditor-fiscal, o contrato de concessão do transporte público na cidade foi temporariamente revogado. A Justiça reverteu a decisão, permitindo o retorno das atividades por parte da Viação Estevam. O Metrópoles questionou a Prefeitura de Pilar do Sul sobre a situação do transporte público na cidade, mas a administração local não respondeu se o caso foi solucionado. O espaço segue aberto para manifestação.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SPO Metrópoles teve acesso ao trecho de um vídeo no qual Vieira aparece sendo questionado por ter usado IA para a criação da foto do bode. Na filmagem, é possível ouvir o auditor-fiscal negando a autoria da foto e dizendo que um munícipe havia encaminhado a imagem. Depois, ele volta atrás e diz ter flagrado o animal no ônibus.
O vídeo, datado de 12 de janeiro, era uma fiscalização surpresa do auditor-fiscal, em conjunto com o Sindicato dos Rodoviários, na sede da empresa. A defesa da Viação Estevam fez um dossiê respondendo às denúncias, com informações sobre a estrutura do prédio da empresa e sobre as condições dos veículos. A viação recuperou a operação do transporte municipal sete dias depois que a concessão foi revogada.
No dia seguinte ao retorno das atividades na cidade, um despacho do próprio Ministério do Trabalho e Emprego reconheceu que a atitude do auditor-fiscal foi estranha.
“Em que pese a improcedência definitiva do auto de infração, conforme decisão desta CGR, dada atipicidade do que consta nos autos, que apontam possível mitigação de padrões éticos e de boa-fé, e tendo em vista sua potencial repercussão em termos institucionais e funcionais, o processo será encaminhado à instância superior a esta CGR para ciência e providências”, diz documento assinado pela auditora e coordenadora-geral de recursos, Helida Alves Girão.
O caso é investigado pela Advocacia-Geral da União (AGU) e tramita em segredo de Justiça. Em nota enviada ao Metrópoles, o órgão informou que a “ação discute apenas a legalidade do auto de infração” e que “não é atribuição do órgão realizar investigação dos fatos”. Como o p
O Metrópoles procurou José Urubatan Carvalho Vieira. Por meio de mensagens, ele disse que a foto do bode veio com denúncias de empregados da empresa de ônibus.
“Infelizmente caiu para mim e outro colega a fiscalização de uma péssima empresa de ônibus em Pilar do Sul. No meio das denúncias, veio a foto de um animal que não tínhamos como verificar sua veracidade. Mas, mesmo assim, a presença desse animal em uma das 32 autuações, em nada influenciou a lavratura de um auto entre 32”, escreveu o fiscal.



