Fila da fome: doações em frente à prefeitura reúnem multidão sem-teto

Cerca de 500 pessoas em situação de rua formam filas todas as sextas-feiras para receber doações de ação humanitária em frente à prefeitura

atualizado

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1 de 1 Imagem colorida de doações de comida em frente à Prefeitura de São Paulo - Metrópoles - Foto: Guilherme Bianchi/Metrópoles

Todas as noites de sexta-feira, pelo menos 500 pessoas em situação de rua formam filas para receber doações e dormem na Praça do Patriarca, bem em frente ao gabinete do prefeito Ricardo Nunes (MDB), no centro de São Paulo. Entidades de ação humanitária distribuem comida, água e roupas para essa população, que diz se sentir invisível à administração municipal. Especialista define cenário como “apartheid comunitário”.

Apesar da rede socioassistencial oferecida pela Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), sem-teto e doadores afirmam que o serviço é burocrático e insuficiente. Um estudo baseado em dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social aponta que a capital tem quase 100 mil pessoas vivendo nas ruas.

Pobre ajudando pobre

O pastor Luciano Escala, do Instituto Viver na Bênção, entidade ligada à Comunidade Evangélica Vale de Bênção da zona norte da capital, distribui comida e algumas roupas na Praça do Patriarca há 10 anos. Por volta das 19h, a comunidade religiosa chega ao local com algumas kombis, doa cerca de 500 marmitas e oferece orações à população de rua

“A gente percebe que alguns simplesmente querem pegar comida e querem sair. Outros pedem oração, eles querem conversar, querem falar um pouco da história deles, é muito relativo”, relata.

Luciano destaca que a ONG é formada por pessoas “de uma comunidade simples da Vila Brasilândia” e a ação nada mais é que “pobres ajudando pessoas que estão numa situação mais difícil ainda”. Ele afirma que se sente grato em ajudar com o que pode, mas percebe uma incoerência no papel da prefeitura com a população de rua.

“A gente percebe uma incoerência, né? Porque é uma cidade que arrecada, é a cidade que mais arrecada em toda a federação, e nós temos pessoas nessa situação. E quem faz esse trabalho? Nossa comunidade, uma comunidade simples, nós não somos ricos”, critica o pastor.

Assim como o Viver na Bênção, a Associação Beneficente e Comunitária do Povo (ABCP) e outras ONGs atuam na Praça em apoio à população de rua. A ABCP nasceu em 2007, com voluntários da Igreja Batista do Povo, da Vila Mariana, e distribui alimentos há 18 anos.

Dores que ninguém vê

A concentração da população de rua no centro faz parte da paisagem das maiores cidades do mundo e em São Paulo não é diferente. No entanto, “mesmo em frente a todo mundo”, pessoas em situação de rua dizem se sentir invisíveis.

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Natural de Alagoas, Ronaldo Carvalhos vive sem teto há 20 anos. Ele veio caminhando do nordeste até a capital paulista durante seis meses após problemas familiares. Ronaldo foi traído pela ex-companheira com o seu irmão de sangue e, para não matá-lo, decidiu deixar sua casa.

Desde que chegou, o homem dorme todas as noites na Praça do Patriarca. Segundo ele, a escolha de vir para São Paulo foi pelo alto número de doações e emprego. Ronaldo conta que as igrejas costumam ajudar, mas critica a falta de preocupação da Prefeitura.

“A prefeitura, eu falo pra você, não ajuda ninguém não. Porque ‘nós vai lá’, precisa de cobertor quando chove, é difícil para nós. ‘Eles não querem ajudar nós’. Então, ‘eles querem tirar nós da rua’, mas do jeito deles, né? Mas não querem arrumar serviço, não querem nada”, detona Ronaldo.

Além da comida, Ronaldo e tantas outras pessoas que vivem nas ruas possuem diversas necessidades. O casal Julio César e Katia dorme na Praça do Patriarca há pouco mais de uma semana e relata dificuldades de higiene e falta de oportunidades vivendo sem teto.

“Eles [a Prefeitura] não dão sabonete. Ninguém sai dali pra oferecer ajuda. Nada. E se você vai lá para pedir ajuda, eles tiram você na vassourada”, reclama o casal.

Mecânico, pintor e pau para toda obra, Julio César afirma que foi viver na rua após perder o emprego. Ele relata que perdeu a estabilidade de vida e não conseguiu retornar ao mundo do trabalho desde que está nas calçadas.

“Eu não tenho oportunidade, porque na visão deles eu sou só um lixo. Então como é que eu vou fazer pra crescer? Eu chego num lugar e falo: ó, tá precisando de pintura, moço? Eu sou pintor. Você mora onde, na rua? Não, aí é lixo, já não é pintor, é nóia”, lamenta Julio César.

Para além da fome, o “Apartheid Social”

Segundo Adilson Sousa Santiago, presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe-SP), a fome não é o único problema enfrentado por essas pessoas. O educador considera que essas pessoas ainda são invisíveis à Prefeitura de São Paulo, que não fornece serviços básicos a elas.

Adilson afirma que a gestão promove uma espécie de “Apartheid social”, classificando e vilanizando a população de rua pela cor de pele e por sua condição sub-humana. Ele avalia que a administração “não está preocupada em resolver o problema da situação de rua”.

“Quando a gente fala do apartheid, você tem um governo hoje que imprime o medo. Ele imprime a repressão. Ele criminaliza. [A pessoa de rua] está sendo violada o tempo todo. ‘O morador de rua é bandido, que o morador de rua atende tráfico, que o morador de rua assalta, que ele agride, que ele… Enfim, todas as coisas ruins”, lamenta.

Mesmo invisíveis, o presidente do Condepe conta que a população de rua se concentra no centro da cidade por ser um lugar com grande circulação de pessoas e pela maior possibilidade de receber uma doação. Contudo, ele aponta que a cidade não é acolhedora, pois as pessoas não são formadas para isso.

“Você não tem uma cidade acolhedora, porque você não tem formação de acolhedores. Você não tem um preparo dessas pessoas olhando a forma que ele vai acolher aquele outro ser humano. Está difícil falar de direitos humanos para pessoas humanas”, acrescenta.

O que diz a prefeitura

Procurada pela reportagem sobre as doações de comida e a eficiência da rede de apoio municipal, a SMADS afirma que o município mantém uma rede socioassistencial estruturada “que assegura o acesso contínuo à alimentação adequada para pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo a população em situação de rua”.

A pasta, contudo, afirma que os dados mais atualizados da população de rua são os do Censo de 2021. Na época, a cidade registrava 31.884 pessoas nessa condição. O número real é bem maior, conforme o estudo baseado nos dados do MDS.

A secretaria argumenta que, em março de 2026, foram servidas, em média, 120 mil marmitas para a população de rua, mas que não organiza ações voluntárias de distribuição de alimentos em vias públicas. A gestão municipal atua na qualificação de equipamentos, com foco na garantia de direitos e na superação da vulnerabilidade dessas pessoas.

“Nos últimos anos, houve aumento de cerca de 80% nas vagas de acolhimento noturno, totalizando atualmente mais de 27 mil vagas distribuídas em diferentes tipologias de serviços. Os Núcleos de Convivência também apresentam crescimento expressivo nos atendimentos, passando de 538.857 em 2024 para 653.606 em 2025. Entre janeiro e março de 2026, já foram registrados 133.750 atendimentos, indicando a ampliação do acesso e o fortalecimento das ações ofertadas”, concluiu.

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