Esquema de corrupção na Polícia Civil tinha até troca de HD com provas
Relatório da PF aponta que policiais civis de São Paulo e intermediários negociavam manipulação de provas para frear investigações
atualizado
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Um detalhe encontrado em conversas de WhatsApp analisadas pela Polícia Federal ajuda a dimensionar o grau de intimidade entre policiais civis e integrantes de um grupo investigado por crimes financeiros em São Paulo.
Em uma das mensagens extraídas do celular do empresário Robson Martins de Souza, apontado como operador do esquema, ele relata ter conseguido trocar um HD apreendido pela polícia por outro de conteúdo inofensivo aos investigados, além de ter conseguido retirar praticamente todos os documentos considerados mais comprometedores.
As conversas resultaram na deflagração de uma ação conjunta, na última quinta-feira (5/3), na qual a PF, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Corregedoria da Polícia Civil paulista prenderem policiais e demais envolvidos no esquema.
Segundo relatório complementar elaborado pela PF, obtido pelo Metrópoles, a troca do equipamento, como consta nas mensagens interceptadas, ocorreu dentro de uma delegacia e teria sido viabilizada mediante pagamento de propina (veja galeria acima).
O objetivo, segundo os investigadores, era evitar que provas coletadas na 1ª fase da Operação Fractal fossem usadas em novas etapas da apuração. Essa primeira fase foi deflagrada pela Polícia Civil paulista e a Receita Federal, em outubro de 2022.
A manobra aparece em diálogos mantidos entre o empresário Robson e advogados ligados à organização investigada.
“Troquei o HD mais importante e tirei quase tudo de documento”, diz o operador do esquema em uma das mensagens citadas no relatório.
Para a PF, a frase sugere interferência direta na cadeia de custódia das provas, um dos pontos mais sensíveis de qualquer investigação criminal.
Negociação com policiais
As mensagens analisadas pela PF indicam que empresários e advogados ligados ao grupo investigado mantinham negociações diretas com policiais civis para interferir em diligências.
Entre os policiais mencionados nas conversas, aparecem João Eduardo da Silva, então delegado no 16º DP (Vila Clementino); Ciro Borges Magalhães Ferraz, escrivão que atuava na ocasião em apurações relacionadas ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC); Rogério Coichev Teixeira, investigador ao serviço aerotático da instituição; Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, investigador também à época associado ao (DPPC); e José Renato Cortez Augusto, investigador do 16º DP.
Segundo a PF, as tratativas envolvendo o HD apreendido ocorreram principalmente em ambientes ligados ao DPPC, departamento da Polícia Civil responsável por investigações que incluíam o caso da Operação Fractal.
Em uma das conversas analisadas, integrantes do grupo discutem a necessidade de resolver um problema relacionado ao material apreendido. A solução encontrada foi negociar diretamente com policiais que tinham acesso às provas.
“Começando a andar”
As mensagens mostram também que policiais e intermediários discutiam valores para resolver problemas surgidos nas investigações.
Em um dos áudios analisados pela PF, um advogado afirma ter conseguido reduzir uma cobrança inicial de R$ 700 mil para cerca de R$ 100 mil, valor que teria sido pago para encerrar o problema.
Em outro diálogo, policiais pressionam os investigados para que compareçam rapidamente à delegacia.
“Seria importante vir conversar antes, porque a coisa está começando a andar”, diz um dos áudios citados na apuração.
Segundo os investigadores, esse tipo de contato era usado para abrir espaço para negociações informais fora dos registros oficiais do inquérito.
Operação conjunta
O material extraído do celular de Robson foi um dos elementos que levaram à abertura da investigação sobre policiais civis.
As conversas surgiram durante perícia em aparelhos apreendidos em uma apuração sobre lavagem de dinheiro ligada a operadores que simulavam importações para enviar recursos ilegalmente ao exterior.
Durante a análise, investigadores encontraram mensagens que indicavam pagamentos a policiais e negociações para interferir em apurações.
Essas informações levaram à operação conjunta realizada na quinta-feira, que resultou na prisão de parte dos envolvidos e abriu nova frente de investigação sobre corrupção dentro da Polícia Civil paulista.
















