Espaço de convivência a sem-teto é fechado na Sé: “Onde vamos ficar?”
A Estação Cidadania I registra 140 banhos diários e oferta água potável para os sem-teto. Especialista alerta para higienismo da prefeitura
atualizado
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A Estação Cidadania I, espaço onde pessoas em situação de rua têm acesso a banho, lavanderia e atividades educativas, na Sé, no centro de São Paulo, será fechada pela prefeitura. A unidade registra cerca de 140 banhos por dia e oferece telefonemas diários para a população de rua conversar com familiares. Os usuários da estação perguntam “onde vamos ficar?”, enquanto um especialista alerta para sobrecarga nos serviços e critica “ação higienista” do município.
Segundo a Prefeitura de São Paulo, o encerramento da unidade tem razão técnica e administrativa. Após avaliações no espaço, a pasta afirmou que o trabalho não é satisfatório e “o atendimento às pessoas que frequentam a Estação Cidadania I está assegurado em outros serviços do município com atividades equivalentes na região central”. Conforme o último Censo da população em situação de rua, feito em 2021, cerca de 40% das pessoas que vivem nas ruas da cidade estão na Sé.
Uma rescisão unilateral do convênio foi publicada no Diário Oficial do Município e o prédio terá que ser esvaziado até o dia 8 de junho. A empresa responsável pelo serviço, o Instituto Claret, afirma que tenta conversar há meses com a Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Cidadania (SMDHC) sobre o trabalho, mas nunca é atendida.
Em entrevista ao Metrópoles, Clodoaldo José Oliva Muchinski, superintendente do instituto, afirmou que o Claret encaminhou um ofício à prefeitura com os números da Estação Cidadania, com a proposta de estabelecer um diálogo pela continuidade do contrato.
O documento apontou que a Estação Cidadania registrou 428 atendimentos psicossociais e 85 encaminhamentos para a rede de assistência municipal, somente no mês de março. Além disso, foram contabilizados 14.316 banhos na unidade, no período de janeiro até 15 de abril.
O ofício também detalha outras atividades oferecidas no espaço. Veja:
– De segunda a segunda | Das 7h às 20h
- Água potável
- Banheiro
- Chuveiro
- Ligação telefônica
- Atendimento psicossocial
- Rodas de conversa
- Televisão
- Lavanderia
- Passeios culturais
- Atividades artísticas
- Jogos lúdicos
* A estação distribuía marmitas até outubro de 2025, quando a ação foi interrompida pela prefeitura por “sobreposição de oferta na região”. O edital de contratação da empresa também prevê a execução de outras atividades, como banho pet e estacionamento para carroças, por exemplo, mas não foram adiante por falta de infraestrutura.
População de rua cresce e serviços estão saturados, diz especialista
Alderon Costa, membro do Fórum da Cidade de São Paulo em Defesa da População em Situação de Rua e ex-ouvidor dos Direitos Humanos, afirmou à reportagem que a justificativa da prefeitura “é uma falácia” e condenou o encerramento da Estação Cidadania. Segundo ele, pontos de referência para o povo de rua “nunca são de mais diante do número da população, que só vem aumentando”.
“Essa ação da prefeitura só prejudica a vida da população em situação de rua. Vai sobrecarregar os serviços restantes, que vão diminuir a qualidade. Essa precarização prejudica toda a sociedade civil, a população de rua vai demandar água nas casas, comida. Qualquer serviço que ofereça água ou banheiro já é uma boa ação”, explicou.
O especialista destacou que o fechamento dos serviços para as pessoas em situação de rua “é uma política da gestão” no centro da cidade. Alderon relembrou o “fim da cracolândia”, na Luz, e as operações policiais na Favela do Moinho como partes desse processo e explicou que as ações tem como interesse “higienizar” a capital paulista.
“É uma política da gestão, ela tá incluída nesse processo de exclusão das pessoas no Centro. Começou na luz, que desapareceu com os usuários de droga. Acabaram com o Moinho, praticamente. E há todo um trabalho no Chá do Padre, que eles ainda não conseguiram porque é um prédio próprio dos Franciscanos. Mas por eles já teria fechado também”, criticou o membro do Fórum da Cidade. “É uma ação higienista. Alguns dizem que é um genocídio, porque a população de rua está sendo transferida para um lugar onde não tem nenhum serviço, nem tem o que comer”, completou.
Além da Estação Cidadania, o centro de atendimento São Martim de Lima, que alimenta cerca de 400 pessoas em situação de vulnerabilidade social no bairro Belenzinho, também já foi alvo da prefeitura. Contudo, após o Ministério Público de São Paulo (MPSP) abrir um inquérito para apurar o motivo do encerramento do espaço, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) anunciou a suspensão da decisão.
Em paralelo à decisão da administração municipal, o Governo Federal, por meio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), anunciou no dia 30 de abril que vai instalar sete novas unidades de atendimento à população de rua na cidade de São Paulo — inclusive na Sé.
Os espaços do Cidadania PopRua vão funcionar como equipamentos públicos de atendimento prestado por equipes multidisciplinares, “aliando serviços especializados em direitos humanos a uma infraestrutura de cuidado que inclui higiene, hidratação e guarda de pertences”.
“A única casa que nós temos“
Usuários da Estação Cidadania temem o fim de mais um serviço de assistência e lutam pela permanência da unidade. Em entrevista ao Metrópoles, Anderson contou que frequenta o espaço há um ano e quatro meses e tem a estação como sua “única casa”.
Ele afirmou que, graças ao serviço, consegue tomar banho, vestir roupas novas e acertar sua documentação. Anderson também criticou a falta de diálogo com a prefeitura e pediu uma reunião com a administração: “vamos repensar”.
“Se ele [prefeito] quer tirar a gente daqui, no mínimo ele tem que dar uma posição pra gente. Onde vamos ficar? Como vão ficar nossos amigos, nossos colegas, nossas assistentes sociais?”, suplicou o homem.
Assim como Anderson, o jovem Mário, de 25 anos, frequenta a estação há duas semanas. Natural do litoral norte de São Paulo, ele tem “síndrome de limpeza” e usa o serviço de banho duas vezes ao dia, antes e depois de trabalhar.
“Eu utilizo a lavanderia, tomo banho… e tipo assim, não é uma vez, são duas vezes por dia, porque eu mesmo tenho síndrome de limpeza, não gosto de andar sujo”, contou ao Metrópoles. “Depois dessa entrevista eu vou utilizar os dois serviços, lavanderia e chuveiro, porque daqui a pouco eu tenho que trabalhar, mesmo em situação de rua”, relatou.
Mário acrescentou que não sabia do fechamento próximo da Estação Cidadania e criticou a ação da prefeitura. “O cara [prefeito] quer fechar um negócio que ajuda a população de rua, caralho? Não tem como, mano, fechar um negócio que ajuda a ter, pelo menos, um alento”, detonou.


















