Entregador usa conta de bike para fazer delivery de moto sem CNH
Entregador buscou 2ª chance no aplicativo, não conseguiu e trabalha com moto, em conta para bicicleta, e sem CNH pela ruas de São Paulo

Durante as semanas em que conversou com dezenas de entregadores em São Paulo, a reportagem do Metrópoles encontrou alguns profissionais que usam cadastro de outras pessoas para poder trabalhar pelo iFood. Um deles chamou a atenção por expor a total precariedade do sistema e como as pessoas se arriscam pela sobrevivência.
José (primeiro nome) usa a conta do irmão, cadastrada para bicicleta, mas faz as entregas com moto. Além disso, ele não tem Carteira Nacional de Habilitação (CNH) para acelerar pelas ruas da capital paulista.
“Estou sem a conta do iFood há seis anos. Peço uma segunda chance a eles, mas nunca me dão. Falam que eu não posso, não liberam”, diz. “Hoje em dia, eu sobrevivo do iFood na conta dos outros, porque não posso ter a minha.”
A segunda chance é o processo a que se submetem os entregadores para retornar ao aplicativo, depois de uma expulsão da plataforma por ter cometido algo que, na visão do iFood, foi uma infração gravíssima.
Fraudar o sistema — uso de documento falso, adulteração de GPS —, emprestar a conta para terceiros, não concluir entregas, comer o lanche do cliente, agressão, entre outros, são algumas das falhas imperdoáveis.
O Metrópoles encontrou entregadores que disseram ter até mandado e-mail para executivos do iFood em busca de uma nova oportunidade, após serem excluídos da plataforma.
A situação de José é uma amostra de como entregadores ultrapassam qualquer limite quando precisam lutar pela sobrevivência. Ele tem três filhas pequenas e não consegue emprego com carteira assinada. Também cita que tem antecedente criminal por envolvimento com drogas, embora alegue que foi preso injustamente.
O iFood pede reconhecimento facial ao longo de um dia de trabalho para comprovar que o entregador é mesmo a pessoa cadastrada. A forma encontrada por José (e também por outros) para driblar a checagem é ir até o irmão todas as vezes em que o app pede para colocar o rosto diante da câmera.
José tem dificuldade para se alimentar adequadamente ao longo do dia e se justifica por usar a moto em uma conta cadastrada pelo irmão para trabalhar com bike. Ele diz que já fez entregas com bicicleta, mas terminava o dia arrebentado, com até 100 km pedalados por jornada.
A flexibilidade do horário de trabalho é um dos motivos que faz com que prefira as ruas. “Não consigo ter emprego registrado, porque preciso trabalhar nas ruas para pegar minhas filhas nas creches”, diz. José ganha entre R$ 120 e R$ 150 por dia.
O que diz o iFood
O iFood afirmou ao Metrópoles que não incentiva comportamentos de risco, e que os tempos de entrega têm parâmetros realistas e seguros, “respeitando os limites de velocidade e as condições do trânsito”.
“As campanhas de incentivo, como promoções e desafios, são totalmente opcionais e têm como objetivo ampliar a previsibilidade de ganhos dos entregadores, especialmente em momentos de alta demanda, como dias de chuva ou horários de pico”, afirma a empresa. “O iFood não incentiva, em nenhuma hipótese, comportamentos de risco”.
O iFood diz que reconhece a importância dos pontos de apoio e afirma estar comprometido em oferecer o melhor suporte possível aos parceiros em diferentes cidades brasileiras, incluindo pontos próprios, bem como parcerias com instituições públicas e privadas.
A Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa os principais aplicativos, diz que as plataformas associadas mantêm estratégias e diretrizes próprias em relação aos entregadores dentro de cada modelo de negócio. Segundo a entidade, as empresas não estimulam longas jornadas e velocidade acima do permitido.












































