“Não conheço modelo”: dúvidas marcam início de escola cívico-militar
Programa Cívico-Militar começou nesta segunda-feira (2/2) em 100 escolas da rede estadual, mas comunidade ainda têm dúvidas sobre modelo
atualizado
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A volta às aulas na rede estadual de São Paulo acontece nesta segunda-feira (2/2) com uma novidade: a partir de agora, 100 escolas serão cívico-militares, com policiais atuando como monitores dentro das unidades. Na porta dos colégios, no entanto, pais e alunos ainda têm dúvidas sobre como funcionará o modelo.
O Metrópoles foi até a Escola Estadual Professora Anilza Pioli, na Brasilândia, zona norte da capital paulista, na manhã desta segunda, e conversou com quem chegava para o primeiro dia de aula. A escola é uma das duas unidades que aderiram ao programa cívico-militar na capital paulista – a outra fica no Planalto Paulista, na zona sul.
Antônio Mariano, de 71 anos, falou com a reportagem ao lado da neta Lara, de 11 anos. Ao ser questionado sobre o que esperava do modelo cívico-militar, o avô estranhou a pergunta: “Não avisaram nada [sobre ser uma escola cívico-militar], só transferiram ela pra cá”.
Lara foi matriculada no colégio de forma automática porque a escola anterior só tinha turmas até o 5º ano e a menina vai para o ensino fundamental 2 agora. Segundo o avô, ninguém explicou para a família, no entanto, que o modelo ali seria diferente do anterior. “Não conheço [o programa escola cívico-militar]”.
A falta de informações sobre o projeto era comum entre aqueles que chegavam na escola. Mãe de Enzo, de 11 anos, Maria José, de 50 anos, já sabia que aquele era um colégio cívico-militar, mas aparentava desconhecimento sobre o programa.
Ela não sabia, por exemplo, como seria o trabalho dos policiais, nem quais regras seu filho teria que seguir. “Não falaram nada não”, disse.
Como mostrou o Metrópoles, as escolas cívico-militares têm um regimento próprio, com uma série de normas que devem ser seguidas pelos estudantes. Cada aluno é avaliado por meio de um sistema de pontuação e pode ser punido se não agir conforme o esperado.
Talita Peres, mãe de uma aluna do 6º ano, era outra que ainda não sabia os detalhes do projeto cívico-militar. “Ainda não sei muito bem como funciona esse sistema. Fiquei sabendo que vai ter que ter mais disciplina”, disse ela, que escolheu matricular a filha na unidade porque já conhecia a diretora.
Uma reunião de pais foi marcada pela escola para a próxima sexta-feira (6/2) quando há expectativa de que mais detalhes sobre o modelo sejam dados.
Até agora, mesmo os estudantes que estão na escola há mais tempo também demonstram não ter conhecimento sobre informações importantes do programa.
Ana Clara Severino, de 12 anos, e a amiga Melyssa Teixeira, de 13 anos, estavam com os cabelos presos para seguir as novas regras do colégio, que veta cabelos soltos, mas não sabiam o que aconteceria se não cumprissem o regimento. “A gente não tem muita certeza [do que vão fazer]”, disse Ana Clara.
Melyssa conhece uma das regras: “Sem o uniforme não pode entrar na escola”. Quem esquecer o vestuário leva “ocorrência”, segundo a adolescente – por enquanto, como os kits de roupas não foram distribuídos entre os alunos, os estudantes podem continuar indo ao colégio com as mesmas roupas de antes.
Como vão funcionar as escolas cívico-militares?
- Escolas cívico-militares terão policiais militares aposentados trabalhando como monitores. Os agentes são responsáveis por oferecer atividades extracurriculares, fiscalizar o comportamento dos alunos e deverão auxiliar em questões de segurança.
- Os PMs não poderão usar armas nem farda, e receberão cerca de R$ 6 mil por uma jornada de 40 horas semanais.
- Cada escola terá um número de policiais, de acordo com a quantidade de alunos, e um deles será coordenador do chamado “núcleo militar”, sendo responsável pelos demais agentes. O coordenador recebe um acréscimo de 50% no salário.
- O regimento das escolas prevê que os alunos sejam obrigados a usar uniforme escolar, que deve ser oferecido pelo estado.
- As escolas cívico-militares de São Paulo têm ainda uma série de regras para os alunos. Meninos têm que deixar o cabelo curto e meninas precisam deixá-lo preso. Piercings, bonés e alargadores são proibidos.
- O comportamento dos alunos é medido com um sistema de pontos. Cada vez que uma regra é desrespeitada, um aluno perde pontos e fica sujeito a uma “medida disciplinar”. A mais grave dela prevê a mudança de escola.
Expectativa
Mesmo com as restrições, as meninas aprovam a mudança e dizem que a presença dos policiais pode ajudar a conter a bagunça dos alunos. “Acho que vai ser bom porque vai ser mais organizado”, diz Ana Clara. A dupla diz que alguns estudantes bagunceiros deixaram a escola depois que souberam da mudança no modelo.
Marcelo Gironi, eletricista e pai de um estudante, também acredita que os PMs ajudarão a dar mais disciplina aos alunos. “Vai trazer mais respeito dentro do ambiente escolar. Ninguém vai impor ideologia, tenho certeza, porque estamos numa democracia. Não vão defender ideologia nem de um lado nem de outro.”
Minutos depois de falar com o Metrópoles, Marcelo conheceu os dois policiais que vão trabalhar na escola e entrou no prédio com eles. Na volta, disse ter percebido que um dos agentes é “radical bolsonarista”, mas reforçou que acredita que haverá espaço para todos na escola.












