Dono de fintech citou promessa de R$ 100 milhões do PCC, diz PF
Instituição de pagamentos Tycoon é apontada pelo MPF como “banco do crime organizado” para lavar dinheiro de fraudes nos combustíveis
atualizado
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Mensagens de WhatsApp obtidas pela Polícia Federal (PF) mostram o empresário Rafael Bronzatti Belon, apontado como dono da fintech Tycoon, conversando sobre o recebimento de R$ 100 milhões que teriam sido prometidos pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).
Os diálogos foram extraídos do celular de Belon e usados pelo Ministério Público Federal (MPF) na denúncia apresentada no início deste ano contra ele e outros 17 alvos no âmbito da Operação Tank, deflagrada em agosto de 2025, contra um sofisticado esquema de adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro de pelo menos R$ 600 milhões.
Segundo os procuradores, o conteúdo encontrado no aparelho de Belon foi chave para demonstrar a relação entre o grupo criminoso, estruturado a partir do Paraná, e a maior facção do país.
O dono da fintech Tycoon foi preso em 28 de agosto do ano passado, quando a Tank foi deflagrada, e atualmente está detido na Superintendência da PF em Curitiba. Seu pai, Italo Belon Neto, igualmente ligado à instituição de pagamento, também foi preso.
A Tycoon, conhecida no mercado como Zeit Bank, teria sido usada para dissimular valores de origem ilícita em espécie, que eram recolhidos por carros fortes em postos de combustíveis envolvidos no esquema.
Em uma das conversas citadas na denúncia, Rafael Belon diz a um interlocutor, em julho de 2025: “O Lu me ligou com os Corinthians [expressão que, segundo a PF, seria uma menção a faccionados do PCC]. Falou que vão mandar 100m de outra”.
Segundo a investigação, no diálogo, o dono da fintech ainda afirma que não tem medo dos integrantes da facção. “Não tenho medo dos caras, para te falar […] Tipo, todo mundo já foi na minha casa”.
No celular de Rafael, a PF também encontrou conversas em que ele diz saber que o PCC estaria envolvido em todas as atividades na região. “É aquela coisa que eu penso. Aqui em São Paulo, tudo é PCC, né? Não tem onde esses cara não tem mão, né [sic]?”, afirmou, em 2022, em diálogo com Italo Belon.
A troca de mensagens ainda mostra Italo admitindo sua proximidade com Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, apontados como os principais beneficiários do esquema de fraude nos combustíveis e lavagem de dinheiro — a dupla é ligada à formuladora Copape e à distribuidora Aster e foi alvo da Operação Carbono Oculto.
“Eu conheço o Beto [Louco] desde a época que ele importava nafta para adulterar gasolina”, diz Italo. “O Primo era adulterador de gasolina. A turma aí sempre mexeu com chacoalho. Entendeu? Essa turma nossa aí é outro perfil, não tem. Ninguém é bandido, ninguém é armado, não tem nada”.
Tycoon
Criada em 2016, a Tycoon é descrita pelo MPF como uma instituição pensada para “funcionar como um banco à disposição do crime organizado”. Segundo a PF, a Tycoon possui contas em algumas instituições financeiras, nas quais a principal origem dos valores, cerca de 96,7% dos créditos, são referentes a depósitos em espécie.
A investigação aponta que agências da Caixa e do Santander foram usadas para fazer movimentações milionárias para a organização criminosa por meio da instituição de pagamento. Os acusados fizeram quase 10 mil depósitos em espécie, que somaram R$ 331 milhões.
A PF afirma que os bancos registraram as movimentações em nome da Tycoon, sem identificar quem eram os clientes. Com isso, os órgãos de fiscalização não tinham informação sobre quem estaria movimentando as quantias.
“Ante o exposto, forçoso concluir que a conta da Tycoon junto a Caixa foi constituída e mantida com a exclusiva finalidade de receber vultosos recursos em espécie de terceiros e então destiná-los a empresas de familiares do investigado Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e a empresa Duvale”, disse a PF na representação que deu origem à operação.
Em conversa de WhatsApp, ocorrida em agosto de 2022 e encontrada pela PF no celular de Rafael Belon, o dono da fintech dá detalhes de como a instituição usava contas “bolsão” — que ocultam as identidades dos beneficiários — para guardar o dinheiro de postos.
Conforme apontado pela PF, esse seria um mecanismo criado para dificultar bloqueios judiciais, já que a Tycoon colocava o dinheiro de todos os correntistas em uma única conta bancária em instituição financeira tradicional.
“Então, o posto X tem uma conta e tantos reais… Todo esse recurso fica no bolsão, porém não é da Tycoon”, afirma Rafael, acrescentando que os recursos depositados não são imediatamente lançados na contabilidade oficial.
“Na prática, Rafael deixa claro que o sistema permite reter valores que, embora pertençam formalmente aos clientes, permanecem sob controle da instituição, sem registro imediato de saída. Essa característica confere às contas de ‘bolsão’ um papel estratégico na ocultação e manipulação de recursos, possibilitando o retardamento de repasses e a dissimulação da real movimentação financeira”, disse o MPF na denúncia.
O Metrópoles procurou as defesas dos citados, mas não obtece retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.






