Disputa judicial com ex-presidente causa polêmica no Juventus. Entenda
Tradicional clube de futebol de São Paulo e ex-presidente divergem após afastamento em meio a investigação sobre desvio de R$ 2,3 milhões
atualizado
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O Clube Atlético Juventus e o ex-presidente Antonio Ruiz Gonzales travam uma intensa batalha na Justiça após o afastamento do dirigente. Gonzales foi excluído do conselho do Juventus, tradicional clube localizado na Mooca, zona leste de São Paulo, em meio a uma investigação policial que apura um possível desvio de R$ 2,3 milhões.
Em novembro de 2025, o Conselho Deliberativo do Juventus determinou uma sindicância para investigar o eventual desvio de recursos que seriam aplicados em obras de conservação do Estádio Conde Rodolfo Crespi, localizado na Rua Javari.
No dia 9 de março de 2026, os conselheiros se reuniram e determinaram o afastamento de Gonzales. Na época, a defesa de Gonzales entrou com recurso para suspender a reunião do conselho, argumentando que o presidente do conselho mudou, em cima da hora, as regras da votação, o que prejudicou o ex-presidente. A Justiça já havia negado um pedido de suspensão total do processo.
Em 19 de março, o dirigente obteve decisão favorável. O juiz Luis Felipe Ferrari Bedendi, da 12ª Vara Cível de São Paulo, anulou a expulsão e determinou que o Juventus convocasse uma nova reunião do conselho.
Disputa de versões
A batalha judicial entre o ex-presidente e o clube ganhou novos capítulos na última semana. Na terça-feira (24/3), o Metrópoles publicou que o desembargador José Rubens Queiróz Gomes, da 7ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), interrompeu a eficácia do entendimento de primeira instância até que o mérito seja julgado pelo colegiado. Desta forma, a corte teria mantido o afastamento do dirigente. O processo corre em segredo de Justiça.
A defesa de Gonzales, no entanto, questionou a versão. Em contato com a reportagem, o advogado Paulo Feuz argumentou que há outra decisão tomada na mesma terça-feira. Um despacho, favorável ao Juventus, teria retirado a obrigação de que o clube realizasse nova assembleia para analisar a sindicância. O outro despacho, favorável ao ex-presidente, teria determinado a suspensão do processo sob justificativa de que há risco irreparável para o dirigente. Desta forma, o afastamento estaria suspenso.
Já a defesa do clube argumentou que a suspensão diz respeito a outro recurso, que o dirigente já perdeu na Justiça. Segundo a defesa, a contestação do ex-presidente foi rejeitada pelo desembargador. Então, os representantes de Gonzales teriam entrado com um agravo interno para que outros membros do tribunal analisassem o pedido. A suspensão seria relacionada a esse primeiro recurso, que já teria sido rejeitado no tribunal. O Juventus é representado pela advogada Luma Zaffarani nos processos judiciais.
Fraude no Juventus
- O estádio do Juventus é tombado como patrimônio histórico da cidade de São Paulo. Por isso, em 2022, o time firmou com a Prefeitura de São Paulo um termo de compromisso relacionado ao potencial construtivo do estádio do Juventus.
- Liberado há cerca de três anos pela administração municipal, o montante milionário que seria aplicado em obras de conservação, contudo, teria sido usado para pagar supostos empréstimos feitos à associação esportiva.
- Após uma sindicância interna, segundo documentos obtidos pelo Metrópoles, funcionários investigados por envolvimento na fraude foram afastados.
- O clube solicitou à polícia, por meio da abertura de um inquérito, “adoção das medidas investigativas cabíveis, a fim de resguardar o patrimônio moral e material do Clube Atlético Juventus e promover a responsabilização dos envolvidos”.
- A sindicância evidenciou “dupla lesão ao patrimônio do clube, com grave repercussão financeira e institucional”. Para evitar interferências, recomendou-se a suspensão preventiva de dirigentes do período de 2019 a 2020, assim como o afastamento cautelar de funcionários da tesouraria.
- Em setembro deste ano, a Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativa chegou a realizar uma proposta de multa devido ao descumprimento de termos do acordo que previa a reforma. O Juventus pode enfrentar uma dívida de cerca de R$ 5,3 milhões, que também inclui uma restituição estabelecida pela gestão municipal.
- O Juventus sugeriu que haja bloqueio das contas dos destinatários do pagamento e também sequestro das quantias ligadas ao termo de compromisso.
- O caso foi protocolado na 4ª Delegacia de Polícia de Investigações sobre Lavagem ou Ocultação de Bens e Valores.
Afastamento
A exclusão de Gonzales foi realizada durante uma apuração interna do clube que discutiu a responsabilidade dele em um prejuízo financeiro causado à associação. O documento do Juventus que oficializou a expulsão aponta que o caso teve origem em um “contrato firmado em 2019, com a empresa CSP- Conlutas e, segundo o parecer da Comissão de Sindicância, o clube acabou suportando uma condenação judicial que levou à necessidade de buscar ressarcimento de aproximadamente R$ 800 mil”.
O conselho entendeu que não se discutiu apenas a rescisão do contrato, mas também atos posteriores que teriam contribuído para o prejuízo causado ao Juventus.
Ainda de acordo com o relatório da apuração interna, houve três tentativas de suspensão ou cancelamento da reunião que agora afastou o ex-presidente, com diferentes fundamentos. Um dos argumentos apresentados seria de que o prazo da convocação teria transcorrido durante o Carnaval. Ainda assim, a reunião foi mantida, “sob o entendimento de que o procedimento observou as regras estatutárias e de que o ex-presidente teve ciência formal da apuração, apresentou defesa escrita e teria, inclusive, possibilidade de defesa perante o plenário”.
O relatório interno também afastou a possibilidade de perseguição política: “o ex-presidente Antonio Ruiz Gonzales foi excluído do Conselho não por divergência política, mas ao final de procedimento estatutário instaurado para apurar possível responsabilidade por prejuízo de grande monta ao clube”, diz o documento.
O Conselho Deliberativo autorizou, por unanimidade, o ingresso de uma ação regressiva para ressarcimento de R$ 800 mil, valor referente a condenação sofrida pelo Juventus na Justiça.
Estelionato e associação criminosa
Em 20 de outubro de 2025, a Polícia Civil abriu um inquérito após a direção do Clube Atlético Juventus apresentar uma notícia-crime contra ex-dirigentes do clube. Além de Antonio Ruiz Gonsalez, entre os suspeitos estão Ivan Antipov, conselheiro vitalício e ex-presidente do conselho deliberativo; Paulo Troise Voci, ex-vice-presidente do clube; e Raudinei Anversa Freire, ex-diretor de futebol.
Responsável pela apuração, o delegado Tiago Fernando Correia, da 3ª Divisão de Investigações sobre Crimes contra a Administração e Combate à Lavagem de Dinheiro, apontou a necessidade de detectar possível estelionato e existência de uma “associação criminosa, estruturada para lesar o patrimônio da agremiação”. A autoridade policial constatou que haveria indícios de “apropriação indébita majorada”.
Estádio do clube
Também conhecido como Estádio da Javari, o Estádio Conde Rodolfo Crespi foi inaugurado em 26 de abril de 1925 e adquirido da família Crespi pelo Clube Atlético Juventus em 1967.
Atualmente, numa área aproximada em 15 mil metros quadrados, o espaço comporta 5 mil pessoas. No entanto, segundo o clube, já registrou a presença de 15 mil torcedores.
Em 2019, o estádio foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp).
