Desenho de Orixá: PM disse a diretora que ela queria “ditar ideologia”. Veja vídeo
Fala foi registrada pela bodycam de um dos policiais que foram à Emei Antônio Bento após pai reclamar de desenho de orixá feito pela filha

Um dos policiais militares que entrou na Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Antônio Bento, em novembro de 2025, após um pai reclamar que sua filha desenhou uma orixá em uma atividade escolar, acusou a diretora do colégio de querer “ditar sua ideologia” para ele.
“A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora agora. E, se tiver alguma medida, eu tomarei, voltarei aqui com a medida administrativa”, disse o tenente, ao discutir com a diretora naquele dia.
A fala, feita pelo tenente Ronald Camacho, foi registrada pela câmera corporal de um dos agentes envolvidos na ocorrência. A reportagem teve acesso às imagens das bodycams em primeira mão. As cenas mostram momentos de tensão, com o policial repetindo os argumentos do pai da criança, e, mais tarde, dizendo não haver crime na atuação da escola.
O caso envolvendo o desenho da orixá foi revelado pelo Metrópoles e gerou repercussão nacional. Como mostrou a reportagem à época, no dia 12 de novembro do ano passado, o o pai de uma estudante chamou a Polícia Militar após discordar da atividade feita pela filha, de 4 anos.
O homem, que também é policial, disse aos agentes que sua filha estaria sendo obrigada a ter aula de uma religião diferente da sua. Os policiais entraram na escola de educação infantil portando armas de grosso calibre, o que assustou crianças, segundo relatos colhidos pelo Metrópoles.
As gravações das câmeras corporais registraram a dinâmica da ocorrência.
O que mostram as cenas
As imagens mostram que o pai da aluna apresenta o desenho feito pela filha aos agentes, assim que eles chegam à escola. O homem diz que pediu à diretora para que a menina fosse “privada dessas aulas que envolvem religião”. A educadora, no entanto, teria se negado a retirar a criança das atividades, segundo ele.
Na sequência, os policiais entram na Emei para falar com a diretora. A educadora demonstra surpresa quando o tenente Ronald diz que eles foram chamados pelo pai da aluna.
“Vocês vieram porque o pai solicitou? Pensei que vocês tinham vindo porque a gente tinha solicitado. A gente solicitou [apoio policial] por causa desse pai”, diz a diretora – em depoimento à Polícia Civil mais tarde. Ela contou que havia pedido ajuda da Guarda Civil Municipal (GCM) após o pai se exaltar com a equipe no dia anterior.
As bodycams mostram a diretora explicando aos PMs que a escola tem um projeto baseado na lei federal 10.639, que determina o ensino da história e cultura afro-brasileira para estudantes. Ela afirma que o pai da aluna, de religião cristã, não gostou da temática.
“Ele veio ontem de maneira agressiva aqui na escola. Coagiu a professora, gritou com ela, apontou o dedo no rosto dela e arrancou o desenho da criança”, relatou a educadora.
A diretora, então, é interrompida pelo tenente, que cita outra lei federal, a 13.796, de 2019. A legislação diz que o ensino religioso deve ser facultativo.
Uma inspetora reage à fala do policial com um sinal negativo e o agente repreende a mulher: “É lei federal.” As funcionárias dizem que a escola não ensina religião. “Como não? Eu vi um desenho escrito Iansã. É uma entidade da cultura afro”, diz o policial.
A conversa ganha um clima tenso, com o tenente insistindo na versão apresentada pelo pai. “O senhor viu um recorte de um desenho, que ele pegou. É uma literatura”, afirma a diretora, que tenta explicar a atividade que deu origem ao desenho, baseada no livro “Ciranda em Aruanda”.
“Isso que a senhora está falando que ‘é cultura’, e tal… Não [é], estamos falando de uma religião”, diz o tenente.
A diretora convida os policiais e o pai da aluna para participarem de uma reunião do conselho escolar, onde o tema seria discutido. Os PMs recusam o convite e a tensão aumenta quando Ronald diz que aquela era “uma ocorrência”.
A educadora questiona, então, o que deve ser feito e diz que a situação promovida pelo pai “é uma coação para a escola”. Um policial afirma que era “direito do pai” e é expulso dali pelo tenente, enquanto a diretora pergunta se os agentes são advogados do pai.
Neste momento, o tenente diz que a diretora está nervosa e que não quer ouvi-lo, e deixa o corredor da escola afirmando que ela quis “ditar sua ideologia”.
Depois da discussão, os agentes deixam a parte interna da escola e começam a elaborar um boletim de ocorrência da PM sobre o caso com a versão do pai. Minutos depois, eles entram novamente, em busca da versão da diretora.
Nesse momento, a diretora aparece ao telefone com a supervisora de ensino da Diretoria Regional de Ensino do Butantã. Ela coloca o aparelho no viva-voz e a mulher passa a falar com o tenente, enquanto vários pais e funcionários da escola acompanham a cena.
O policial diz que o pai afirmou ser alvo de intolerância religiosa. “Intolerância religiosa ou discordância religiosa?”, questiona a supervisora, explicando que ele discordou de um conteúdo pedagógico.
Após ouvir a diretora, o tenente diz que é “neutro” na situação e só está ali para aplicar a lei. “Por isso que eu ‘reentrei’ na escola, para entender com a diretora. Eu tenho que ver a duas partes. Se a gente só ouve uma, parece que o pai é um criminoso. Se só ouço o pai, parece que a diretora é criminosa. E eu não vejo nenhum criminoso aqui. Não existe isso. Para mim, não existe aqui isso, é ‘lide’, confusão de ideias”, diz ele.
Durante a conversa, a diretora, que segurava o celular, passa o aparelho para outra pessoa e sai da cena. Uma funcionária diz que ela está passando mal.
O diálogo entre o tenente e a supervisora de ensino é encerrado, e os funcionários e pais começam a falar com o policial. O agente diz para uma professora que não vê crime na situação, mas que é direito do pai chamar à Polícia e acionar a Justiça.
O que era a atividade
- A atividade que culminou no desenho estava ligada à leitura do livro infantil “Ciranda em Aruanda”, da autora Liu Olivina;
- Na obra, a autora traz ilustrações de 10 orixás e apresenta, em textos curtos, as características das divindades – Oxóssi, por exemplo, é retratado como “o grande guardião da floresta”;
- Uma professora da Emei leu a história para os alunos. Em seguida, cada estudante fez um desenho a partir da leitura;
- A menina, de 4 anos, desenhou Iansã, orixá ligada aos ventos e às tempestades;
- Os desenhos foram expostos no mural da escola;
- O livro têm o selo Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e faz parte do acervo oficial da rede municipal de ensino;
- Após saber do caso, a autora Liu Olivina lamentou o episódio.
Do lado de fora, alguns agentes debatem entre si sobre o caso. “Pergunta que não quer calar: quem é Iansã, que eu nem sei quem é?”, diz o policial Rafael. Outro agente diz que é uma entidade, e confunde a orixá com Iemanjá.
Minutos depois, o policial Rafael diz que não tem religião, mas acha que o pai está certo. “Como você obriga minha filha a fazer um desenho de uma entidade de outra de uma religião que a gente é contra? É como também, se você, não sei, na ‘macumba’ (sic), obrigar os caras a fazer um desenho de São Pedro”, diz.
Especialistas em educação antirracista explicam, no entanto, que o contato com o tema dos orixás na escola não está ligado a uma imposição de crenças, mas sim ao estudo da cultura e da espiritualidade de povos originários da África, como acontece, por exemplo, com as mitologias da Grécia.
“Isso é distinto de ensino religioso, que por sua vez, tenta converter, doutrinar ou catequizar uma fé institucional específica”, explicou a pedagoga Kiusam Oliveira, em entrevista ao Metrópoles em novembro de 2025.
Na escola, as crianças também aprendem que os gregos cultuavam deuses como Zeus e Poseidon – que se assemelham às orixás Iansã e Iemanjá pela associação com raios e com a água do mar, respectivamente.
A pedagoga diz que as mitologias ocidentais acabaram incorporadas ao sistema educativo como “cultura universal”. Por outro lado, quando narrativas africanas entram em cena, muitas vezes são vistas como “religiosidade”, “superstição” — ou mesmo como “inapropriadas” ao ambiente escolar.
“Isso revela outra face perversa do racismo: culturas de matriz africana continuam sendo marginalizadas, invisibilizadas ou tratadas com suspeitas”, diz ela.
Depois que o caso da Emei Antônio Bento veio à tona, a Polícia Civil indiciou o pai da aluna por intolerância religiosa. Já a Polícia Militar abriu um Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar a postura dos policiais envolvidos no caso.
O Metrópoles questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP) se a investigação sobre os agentes continua aberta, mas não teve retorno até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

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