Delegado acusado de hackear alvos volta a chefiar departamento em SP

MPF apura se Carlos Henrique Cotait hackeou dispositivos de suspeitos com ajuda do hacker Patrick Brito, que negocia acordo de delação

atualizado

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Carlos Henrique Cotait
1 de 1 Carlos Henrique Cotait - Foto: Reprodução

O delegado Carlos Henrique Cotait, acusado de montar um esquema de hackeamento de investigados no interior de São Paulo, vai retornar ao comando da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Araçatuba, após ficar cerca de um ano e meio longe do cargo. A decisão, publicada no Diário Oficial dessa sexta-feira (27/3), foi assinada pelo delegado geral da Polícia Civil de São Paulo, Artur Dian. Antes da transferência, Cotait ocupava função administrativa, sem atribuições de investigação, fiscalizando contratos da polícia em Araçatuba.

O retorno ao antigo cargo acontece meses após corregedor-geral da Polícia Civil, João Beolchi, arquivar uma apuração preliminar instaurada para analisar denúncias feitas pelo hacker Patrick Brito, que diz ter recebido da equipe de Cotait dados sigilosos para invadir dispositivos de suspeitos e obter provas ilegais que teriam sido usadas em inquéritos. Ao determinar o arquivamento, os delegados afirmam que as suspeitas são “acusações infundadas”.

Enquanto isso, o caso segue sendo investigado pelo Ministério Público Federal (MPF), que negocia um acordo de colaboração premiada com Patrick Brito. O hacker apresentou mais de 70 documentos que, segundo a procuradora da República Gabriela Saraiva Hossri, indicam “a possível participação de policiais civis” no esquema.

O caso veio à tona após denúncia feita por um alvo da Operação Raio-X, deflagrada em agosto de 2020 contra suposto desvio de dinheiro em contratos entre prefeituras e organizações sociais.

Após ter o celular apreendido por policiais, o médico Franklin Cangussu Sampaio, que era ligado ao ex-governador Márcio França (PSB), atual ministro do Empreendedorismo, passou a ser extorquido (leia mais abaixo). Mais tarde, descobriu-se que Brito seria o responsável pelo crime. O hacker disse ter conseguido as informações usadas para invadir o dispositivo do médico com a equipe do delegado.

Após diversos procedimentos arquivados nas Corregedorias de Santos, Araçatuba e Iguape, que levaram ao afastamento de um único policial, dois inquéritos foram instaurados pela 5ª Vara Federal de Santos, em outubro de 2024, a partir das denúncias feitas por Brito.

Em novembro do ano passado, Carlos Henrique Cotait disse ao Metrópoles que Brito estava mentindo e que as conversas com outros policiais apresentadas como provas seriam “montadas”. O delegado afirmou que não é investigado pelo MPF e que nenhum dos procedimentos instaurados até hoje conseguiram provar seu envolvimento no suposto esquema. A reportagem tentou novo contato, mas não houve retorno.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) citou a conclusão do procedimento instaurado em 2024 e disse que as acusações contra Cotait não foram comprovadas.


Quem é o “hacker de Araçatuba”

  • Patrick Brito foi preso pela primeira vez em 22 de janeiro de 2021, em Araçatuba, por invadir o celular do então prefeito da cidade, Dilador Borges (PSDB). Aos 27 anos, o hacker tentou extorquir o político, pedindo R$ 70 mil para não divulgar informações comprometedoras.
  • Após a prisão, ele teria sido chamado para uma conversa com o delegado Carlos Henrique Cotait, na sede da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic).
  • Brito afirma que, na ocasião, o policial teria prometido “aliviar” no inquérito sobre as extorsões, caso ele ajudasse a “prender pessoas” em outras apurações. O rapaz teria concordado e deixou a delegacia com R$ 10 mil e seu passaporte, que haviam sido apreendidos.
  • O hacker diz que, a partir desse momento, passou a atuar para a equipe de Cotait, indo algumas vezes à delegacia para trocar informações sobre investigados e, depois, colaborando a distância, após se mudar para a Sérvia.
  • Ele afirma, inclusive, que era remunerado pelos serviços, por meio da entrega de envelopes com dinheiro deixados na casa de sua mãe, na periferia de Araçatuba.
  • Com o objetivo de comprovar sua relação financeira com os policiais, juntou a diferentes inquéritos um comprovante de transferência bancária de R$ 60 feita pela investigadora Cindy Orsi Nozu, braço direito do delegado, para uma conta da avó de Patrick.
  • Em áudio enviado a um colega, em 2022, a mulher disse que fez o depósito porque ficou “com dó” de Brito. Segundo ela, Brito estava “dormindo na rua” por não pagar o aluguel.
  • A transcrição da gravação consta de um outro inquérito — da Polícia Federal (PF) — que apura uma suposta fraude cometida pela investigadora, com ajuda do hacker, em um concurso em que ela pretendia ser aprovada como delegada da instituição.

Márcio França como alvo

A invasão do celular do médico Franklin Cangussu, que fez com que Brito fosse descoberto, teria ocorrido a partir de uma determinação do delegado Carlos Henrique Cotait, como indicam os prints de conversas entre o hacker e a investigadora Cindy Orsi Nozu, hoje delegada da PF. Ela supostamente teria dado orientações para que Brito invadisse o dispositivo de suspeitos, inclusive do ex-governador Márcio França.

“Levanta tudo o que você conseguir dele e me avisa”, escreveu a policial. Questionada por Brito, a mulher disse que essa teria sido uma determinação de Cotait: “Foi ele quem falou para te passar”.

Dias depois, após o hacker enviar uma série de informações sobre Cangussu, Cindy diz que estava usando o material para fundamentar um mandado contra o médico, com o objetivo de atingir o então governador Márcio França.

“Já estou escrevendo um relatório que já passou de cinquenta páginas e a gente vai usar para pedir a prisão preventiva do Cangussu para ver se ele delata o Márcio França”, afirmou, segundo os prints das mensagens entregues pelo hacker. Ela ainda teria sugerido que Brito hackeasse o próprio político: “Será que não dá para hackear o Márcio França direto, haha”.

Além de ter os dispositivos invadidos, Cangussu passou a ser extorquido pelo hacker e começou a desconfiar do envolvimento dos policiais que aprenderam seu celular. Ele, então, registrou uma denúncia na Divisão de Crimes Cibernéticos (DcCiber).

Ao descobrir a existência desse inquérito, que defendeu a instauração de um procedimento na Corregedoria, a equipe de Cotait fez um relatório dizendo que Brito havia invadido um drive usado pela polícia e tido acesso a arquivos sigilosos. Mais tarde, o delegado colocaria a culpa no agente Edison Rodrigues, com base em uma foto tirada dentro da delegacia da tela do celular de Cangussu, que teria possibilitado hackeamentos.

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