Delegado acusado de hackear suspeitos será fiscal de contratos da polícia
Alvo de acusações investigadas pelo MPF, Carlos Henrique Cotait atuará na Comissão Permanente de Licitações no interior de SP
atualizado
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O delegado Carlos Henrique Cotait, acusado de montar esquema para hackear investigados no interior de São Paulo, vai atuar como fiscal de contrato na comissão que analisa todos as licitações da Polícia Civil na região de Araçatuba. No novo posto, ele será responsável por certificar se as empresas que venceram contratos para a prestação de serviços ao 10º Departamento de Polícia Judiciária do Interior estão cumprindo os dispositivos previstos.
A nomeação foi assinada pelo diretor do Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo Interior 10 (Deinter 10), Mauro Gabriel, na última segunda-feira (12/1). De acordo com a Secretaria da Segurança Pública (SSP), Cotait vai exercer funções administrativas e a decisão “observou integralmente a legislação vigente”.
Sobre as suspeitas envolvendo o hackeamento de investigados, a pasta afirmou que, “se forem comprovadas irregularidades na conduta do delegado, as medidas cabíveis serão adotadas”.
Como revelado pelo Metrópoles em novembro, o Ministério Público Federal (MPF) apura uma série de documentos entregues por um hacker que afirma ter recebido dados sigilosos de policiais para invadir dispositivos de suspeitos e obter provas ilegais que teriam sido usadas em inquéritos.
O caso veio à tona após denúncia feita por um alvo da Operação Raio-X, deflagrada em agosto de 2020 contra suposto desvio de dinheiro em contratos entre prefeituras e organizações sociais. Após ter o celular apreendido por policiais, o médico Franklin Cangussu Sampaio, que era ligado ao ex-governador Márcio França (PSB), atual ministro do Empreendedorismo, passou a ser extorquido.
Mais tarde, descobriu-se que o hacker Patrick Brito seria o responsável pelo crime. Em denúncia enviada à Procuradoria de Araçatuba, Brito disse ter conseguido as informações usadas para invadir o dispositivo do médico com a equipe do delegado Carlos Henrique Cotait, responsável pela Raio-X. Ele nega.
Investigações
O envolvimento de policiais civis no suposto esquema de hackeamento foi apurado pelas corregedorias da Polícia Civil de Santos, Araçatuba e Iguape. Apenas um agente — identificado como Edison Luís Rodrigues — foi indiciado e afastado, sem levar em consideração as acusações apresentadas pelo hacker contra outros envolvidos.
O MPF entrou no caso, em novembro de 2024, após decisão da Justiça Federal de Santos, com base no entendimento de que, como os crimes teriam sido cometidos por alguém que vive fora do país — o hacker mora no leste europeu —, as suspeitas não poderiam ser investigadas no âmbito estadual.
Desde o início de 2025, a procuradora da República Gabriela Saraiva Hossri analisa mais de 70 documentos apresentados por Brito. Em setembro, ela afirmou que o material “indica a possível participação de outros policiais civis” e cobrou o resultado de perícias técnicas para atestar a autenticidade das provas.
Ao longo dos últimos anos, a Corregedoria da Polícia Civil arquivou diferentes procedimentos sobre as denúncias feitas. O último deles foi instaurado em agosto de 2024, na Corregedoria Central de São Paulo, por determinação do então secretário da Segurança Pública, Guilherme Derrite, que defendeu, à época, “total transparência” no caso. No entanto, cerca de um ano depois, o caso também foi arquivado por decisão do corregedor-geral da Polícia Civil, João Batista Palma Beolchi.
