De propina a comissão: veja todas as suspeitas contra o Careca do INSS

Conhecido como Careca do INSS, lobista Antonio Carlos Camilo Antunes foi preso na manhã desta sexta (12/9) em SP

atualizado

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Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS
1 de 1 Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS - Foto: Reprodução

A Polícia Federal (PF) prendeu, na manhã desta sexta-feira (12/9), em Brasília, o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. Ele é suspeito de envolvimento no escândalo revelado pelo Metrópoles e que ficou conhecido como a Farra do INSS, em que um esquema envolvendo diversas entidades associativas fazia descontos indevidos em benefícios de aposentados.

Ele pode ser ouvido pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) nesta segunda-feira (15/9). As oitivas da comissão na próxima semana não foram suspensas, mas dependem de autorização do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a prisão desta sexta.

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Lobista Antonio Antunes, o Careca do INSS
Carros de luxo apreendidos com o Careca do INSS
Diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis, ao lado do presidente da CBPA, Abraão Lincon (de azul na foto), em evento da confederação
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Lobista Antonio Antunes, o Careca do INSS
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Lobista Antonio Antunes, o Careca do INSS

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Carros de luxo apreendidos com o Careca do INSS
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Carros de luxo apreendidos com o Careca do INSS

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Diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis, ao lado do presidente da CBPA, Abraão Lincon (de azul na foto), em evento da confederação
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Diretor de Benefícios do INSS, André Fidelis, ao lado do presidente da CBPA, Abraão Lincon (de azul na foto), em evento da confederação

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Além de representar entidades, o lobista é dono de call centers que prestam serviços na captação de associados das entidades da farra dos descontos indevidos sobre aposentados e, por força de contrato, ganhava 27,5% sobre cada desconto sobre novos filiados.

Antunes é suspeito de corromper ex-diretores e o ex-procurador-geral do INSS com pagamentos a empresas e até mesmo transferência de carrões de luxo a parentes deles. A Polícia Federal também investiga suposta lavagem de dinheiro em movimentações milionárias do lobista no Brasil e no exterior. Sua atuação foi revelada pelo Metrópoles. Hoje, ele é visto como o principal operador do esquema, com procuração de pelo menos oito entidades para atuar em seus nomes.

Para que pudessem efetuar os descontos diretamente na folha de seus filiados, as associações precisavam obter acordos de cooperação técnica com o INSS. Esses documentos eram assinados pelos diretores de Benefícios do órgão. É aí que entrava o poder de influência do careca: ele garantia a assinatura e a manutenção dos acordos caso começassem a ser questionados em auditorias do Instituto.

Milhões das entidades

Somente a Polícia Federal identificou que o lobista recebeu R$ 30 milhões de associações ligadas à farra do INSS. Entre elas, estão a Associação dos Aposentados Mutualistas para Benefícios Coletivos (Ambec), o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap) e União Nacional dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (Unsbras ou Unabrasil), que, juntas, faturaram R$ 852 milhões em descontos sobre aposentadorias.

Essas três entidades têm em suas diretorias funcionários e parentes do empresário Maurício Camisotti, apontado como controlador delas e dono de empresas de seguros e planos de saúde que receberam milhões de reais das associações. Nas quebras de sigilo bancário, consta que a Ambec transferiu R$ 11,9 milhões ao Careca do INSS. A Cebap enviou R$ 544 mil.

Nos autos da Operação Sem Desconto, não constam pagamentos à Unsbras, mas o lobista também recebeu procuração da associação, como mostram documentos do processo que levou o INSS a firmar acordo com a associação. Outras duas associações ligadas a Camisotti, a Onap e a Urap, que não chegaram a firmar acordo com o INSS, também deram procuração a Antunes.

A Confederação Nacional da Pesca e Aquicultura (CBPA), que faturou R$ 123 milhões com descontos, também deu procuração a Antunes. A associação é comandada por um ex-dirigente do Republicanos. Segundo a PF, pagou R$ 4,6 milhões a Antunes. Foi em um evento da associação com a presença do ex-presidente do INSS Guilherme Serrano que a entidade decidiu firmar o acordo com o INSS. Ele, depois, seria signatário do acordo da associação com o INSS, segundo a PF.

Outras três associações, a Asabasp, a AP Brasil e a Unbaspub, que estão também na mira da Polícia Federal, repassaram R$ 14 milhões ao Careca do INSS. As três estão sob suspeita de serem controladas por empresários e controladas com uso de laranjas.

Propinas a agentes públicos

O lobista está sob suspeita de ter pago propina a três agentes públicos. Um deles é o ex-diretor de Benefícios André Felix Fidelis, demitido em julho de 2024, na esteira da série de reportagens sobre a farra do INSS. Ele teria recebido R$ 1,46 milhão do lobista por meio de pagamentos ao escritório de advocacia de seu filho, Eric Fidelis.

O ex-procurador-geral do INSS, Virgilio de Oliveira Filho, é suspeito de receber R$ 7,5 milhões do lobista. Em parte, foram pagamentos feitos à empresa de sua esposa. A ela, o lobista também tranasferiu um Porsche Taycan, avaliado em mais de R$ 500 mil.

Já o ex-diretor de Governança, Planejamento e Inovação do INSS, Alexandre Guimarães, recebeu, diretamente e por meio de sua empresa, R$ 313,2 mil.

Taxa de 27,5%

O lobista recebia uma comissão de 27,5% sobre cada valor descontado de aposentados pelas associações para as quais atuou. É o que mostram contratos aos quais o Metrópoles obteve acesso.

Metrópoles teve acesso a um contrato celebrado pelo lobista (foto em destaque) com o Centro de Estudos dos Benefícios dos Aposentados e Pensionistas (Cebap), uma das entidades que foram alvo da Operação Sem Desconto.

O contrato é de setembro de 2023. Naquele mês, a entidade faturou R$ 574 mil com descontos de mensalidade associativa, cifra semelhante a dos meses anteriores. Após o termo firmado com o “Careca do INSS”, houve uma forte alta de filiações. Em dezembro, a associação já faturava R$ 2,6 milhões por mês. Essa cifra subiu até os R$ 9,9 milhões mensais no primeiro semestre de 2024.

O contrato assinado com a Prospect, empresa de Antunes, tem dois serviços previstos. Um deles é a “assessoria comercial para angariação de novos associados elegíveis ao desconto de taxa associativa junto ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)”.

Em outra frente, o “Careca do INSS” atuava na “realização de auditoria interna pela contratada quando solicitado pelo INSS, consultoria para ajustes estatutários necessários ao melhor desempenho das atividades da associação junto ao INSS, consultoria para estruturação e manutenção do acordo de cooperação técnica vigente”.

Lavagem multimilionária

Segundo a PF, Antunes é sócio de uma empresa sediada nas Ilhas Virgens Britânicas que comprou, em dois meses, três apartamentos em São Paulo e um terreno em Brasília por R$ 11 milhões.

Os imóveis foram comprados entre junho e julho de 2024, auge da farra dos descontos do INSS revelada pelo Metrópoles, pela empresa Camilo & Antunes Limited, que também tem como sócio Alexandre Caetano dos Reis.

“A coincidência temporal com o esquema da ‘farra no INSS’, o uso de uma empresa sediada nas Ilhas Virgens Britânicas e as transações de alto valor reforçam a suspeita de que essas operações foram realizadas com o intuito de ocultar a origem ilícita dos recursos”, diz o relatório da PF. As Ilhas Virgens Britânicas são um conhecido paraíso fiscal no Caribe.

Com o lobista também foram apreendidos diversos carros de luxo. Um deles, como mostrou o Metrópoles, estava em nome da esposa do ministro Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU). Ele afirma ter vendido o carro ao lobista e que não conhece Antunes.]

A casa do lobby

Antonio Carlos Camilo Antunes era também articulador, ao lado de Maurício Camisotti, da construção de uma federação para fazer lobby pelos interesses das associações da farra do INSS.

Como mostrou o Metrópoles, uma mansão na quadra 17 do Lago Sul chegou a ser mobiliada para uso da Federação Nacional dos Aposentados e Pensionistas (Fenap), que reuniria 8 associações — todas suspeitas de praticarem descontos indevidos de aposentados.

Metrópoles apurou que das oito entidades que constam no documento de constituição da federação, cinco são ligadas a Camisotti. Três delas — Ambec, Unsbras e Cebap — já tinham acordos de cooperação com o INSS e estão entre as que mais descontaram dinheiro de aposentados no esquema que faturou R$ 6,3 bilhões desde 2019, segundo a PF. O Careca ficaria responsável por trazer outras duas associações para a federação.

O Metrópoles tem recebido há meses relatos de presidentes de sindicatos de aposentados afirmando que o empresário Maurício Camisotti, alvo de busca e apreensão da PF, e pessoas ligadas a ele, estavam chamando todas as entidades para formar a federação e exercer pressão sobre o INSS, com o objetivo de ter controle sobre nomeações no órgão federal.

Uma agenda chegou a ser planejada para a Fenap. Nela, constam ações de “relações institucionais” junto ao Executivo, Congresso e Judiciário, eventos em estados do Nordeste, elaboração de projetos para “captação de recursos”, e elaboração de projeto de lei para defender essas entidades.

Com o avanço das investigações, segundo fontes das associações, os empresários por trás das entidades e o lobista conhecido como “Careca do INSS” foram desistindo e até abandonaram a casa do lobby, que já havia sido mobiliada.

Dono de 15 empresas

Ex-superintendente de marketing de uma gigante do ramo de planos de saúde, Antônio Carlos Camilo Antunes, 60 anos, tem procurações para atuar em nome de entidades que cobram mensalidades associativas de aposentados e ganha dinheiro por meio de contratos de “consultoria” e até de serviços relacionados a redes sociais.

Ao público em geral, ele se apresenta como “representante” da indústria farmacêutica nos mercados de “saúde complementar e público” e afirma ter ficado dois anos à frente de um laboratório que fornecia medicamentos ao Ministério da Saúde.

Hoje, Antunes atua mesmo com suas empresas. São 15 ao todo, entre firmas de consultoria, construtoras e incorporadoras. Ainda há empresas em nome de parentes nas quais ele também tem participação. É por meio de consultoria que ele presta serviços a entidades que querem ou mantêm acordos com o INSS para efetuar descontos sobre aposentados, boa parte deles questionados na Justiça por terem sido feitos sem o consentimento do segurado.

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