Fim de uma era: orelhões que marcaram gerações são removidos das ruas. Vídeo
A Anatel começou a remoção definitiva dos orelhões no início deste ano. O aparelho não é mais tão usado, mas ainda desperta lembranças
atualizado
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A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) começou, neste mês, a remoção definitiva dos orelhões das ruas de todo o país. Os aparelhos que marcaram época no país deverão deixar de existir até 2028. Apesar disso, as memórias construídas com os orelhões ainda continuam com alguns moradores de São Paulo.
Com o aparecimento do celular, o orelhão caiu em desuso e passou a ser utilizado apenas em algumas situações de emergência. Porém, nem sempre foi assim. No auge do consumo telefônico do Brasil, o país chegou a registrar 1,5 milhão de aparelhos espalhados pelas ruas. Atualmente, o número gira em torno dos 30 mil — sendo quase 5 mil na capital paulista.
Ao Metrópoles, o motorista de aplicativo Eronildo Almeida, de 46 anos, contou que, no bairro em que morava, em Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, o orelhão era um ponto de encontro da turma da rua. Além disso, o telefone público era a única forma de se comunicar com os familiares.
“Eu vim da cidadezinha da Bahia, chamada Conceição do Coité, com 18 anos de idade. E, para me comunicar [com os parentes distantes], o meu acesso mesmo era o orelhão. A gente pegava aquelas filas, às vezes chegava no orelhão, não estava funcionando, corria para o outro e, assim, a gente conseguia fazer aquela ligação. Era muito rápido, porque tinha muita gente para ligar também para os outros parentes. Então a gente fazia aquela ligação de 10, 15 minutos no máximo. Às vezes, até menos. Era a única forma de a gente poder se comunicar com nossos parentes lá no interior“, contou Eronildo, em tom nostálgico.
Para alguns mais novos, as lembranças não são tão claras assim. É o caso de Lucas, que também é motorista de aplicativo. “Eu já usei [orelhão], mas eu não lembro como é mais, porque eu era muito criança. Na minha rua, inclusive, tinha até uns tempos atrás um orelhão na frente do bar, mas acho que já foi retirado”, disse o motorista de app.
A remoção dos orelhões começou de forma oficial em janeiro de 2026, após o fim da concessão de atuação dos aparelhos no Brasil. Mesmo assim, alguns poucos continuam resistindo à determinação. É o caso de uma dupla de orelhões que “decora” a praça Benedito Calixto, em Pinheiros, na zona oeste paulistana.
Na frente do aparelho, uma pastelaria compete pela atenção dos velhos famosos da região. Shirley, de 58 anos, contou ao Metrópoles, que hoje, apenas as pessoas em situação de rua da praça dão atenção para os “velhos celulares”.
“Só os moradores de rua que ficam brincando, conversando sozinho com eles. Mas o pessoal não usa, ninguém usa”, disse Shirley. A pasteleira mesmo disse que não usa um orelhão há uns 20 anos. “Já usei muito, mas agora, coitado, está abandonado”.
Curiosidades dos orelhões
- O design e o nome orelhão é uma customização exclusiva do Brasil. O formato da cabine — que se assemelha a parte do corpo humano — foi lançado no país em 1972, projetado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira.
- De começo, era necessário uma ficha telefônica para usar o orelhão. Ao final de cada ligação, a ficha caía, ação que originou a famosa expressão “caiu a ficha” para situações chocantes do dia a dia.
- Em 2026, o aparelho voltou aos holofotes do mundo com o lançamento do filme indicado quatro vezes ao Oscar, O Agente Secreto. Isso porque o poster do filme, estrelado por Wagner Moura, destaca um orelhão amarelo.








