De boné do Trump a ditadura do STF: a guinada bolsonarista de Tarcísio

Visto como uma figura moderada e de diálogo com o STF por aliados, Tarcísio passou a radicalizar discursos e posturas ao longo de 2025

atualizado

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Imagem colorida mostra Tarcísio de Freitas na Avenida Paulista - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra Tarcísio de Freitas na Avenida Paulista - Metrópoles - Foto: Danilo M. Yoshioka/Metrópoles

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fez, no último domingo (7/9), seu discurso mais duro contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação penal que pode resultar na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nesta semana por tentativa de golpe de Estado.

Ao afirmar, no ato pró-anistia na Avenida Paulista, que a postura de Moraes representa uma “tirania” e, de forma indireta, classificar o ministro do STF como um ditador, Tarcísio surpreendeu parte do mundo político ao escalar o tom das críticas à Corte.

Ao longo de seu mandato e após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro, em junho de 2023, Tarcísio sempre foi visto entre aliados como uma das figuras mais moderadas no entorno do ex-presidente, servindo como espécie de ponte entre o bolsonarismo e o STF.

O próprio governador defendia a interlocutores que essa postura mais apaziguadora poderia ser mais útil do que escalar o embate. Enquanto esse comportamento agradava aos partidos do Centrão e ao mercado, o núcleo mais raiz dos apoiadores do clã Bolsonaro considerava o governador pouco radical para ser o sucessor do ex-presidente nas urnas em 2026.

Em 2025, no entanto, Tarcísio passou a dar alguns sinais de que estaria disposto a radicalizar com o intuito de alcançar a confiança do bolsonarismo, culminando na última semana com a entrada do governador na articulação pela anistia e no discurso anti-Moraes, principal rival político do clã Bolsonaro.

Veja abaixo uma cronologia da escalada bolsonarista de Tarcísio:

Exaltação a Trump

A posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, no início de 2025, foi exaltada por Tarcísio, em sintonia com o apoio dado pela família Bolsonaro ao republicano. No dia 20 de janeiro, o governador fez duas postagens nas redes sociais exaltando a posse de Trump.

“A segunda-feira tá diferente! Animados por aí? Boa semana a todos!”, escreveu Tarcísio no X (antigo Twitter) por volta de 9h40 desta segunda, em uma legenda para a publicação de um vídeo do momento em que Trump dançou “YMCA” com o grupo Village People em um evento.

No mesmo dia, o governador postou um vídeo usando o boné com a mensagem “Make America Great Again”, principal bordão de campanha do republicano, em que dizia “grande dia”.


Meses depois, após o anúncio do tarifaço de Trump contra os produtos brasileiros, a imagem de Tarcísio vestindo o acessório e exaltando o americano foi amplamente explorada pela esquerda.

Após evitar criticar o republicano no primeiro momento, Tarcísio passou a agir como um negociador para contornar os impactos do tarifaço, como forma de diminuir as críticas de que estaria sendo “subserviente” aos interesses da potência estrangeira.

O movimento, por outro lado, gerou críticas do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), para quem o governador deveria ter como premissa para negociar a anistia ao pai.


Trama golpista e defesa de Bolsonaro

Em 19 de fevereiro, Tarcísio saiu em defesa de Bolsonaro após o ex-presidente ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

O governador negou a participação do ex-chefe em uma tentativa de golpe de Estado. Em seu perfil no Instagram, Tarcísio disse que Bolsonaro “jamais compactuou com qualquer movimento que visasse a desconstrução do estado democrático de direito”.

Em maio, Tarcísio depôs ao STF como testemunha de defesa de Bolsonaro no âmbito do inquérito da trama golpista. 

No mesmo mês, o governador paulista reagiu a uma suposta articulação feita pelo ex-presidente Michel Temer (MDB), em que o emedebista buscava uma alternativa de centro-direita em 2026, como forma de se contrapor a Lula e Bolsonaro. Em Nova York, Tarcísio disse que não existe direita sem Bolsonaro.

Em julho, Tarcísio publicou uma mensagem nas redes sociais em que defendeu Bolsonaro após Alexandre de Moraes determinar o uso de tornozeleira pelo ex-presidente.

“Não haverá paz social sem paz política, sem visão de longo prazo, sem eleições livres, justas e competitivas. A sucessão de erros que estamos vendo acontecer afasta o Brasil do seu caminho”, escreveu.

O trecho em que Tarcísio cita a necessidade de “eleições livres, justas e competitivas” não foi bem digerido nem mesmo por ministros do STF que mantêm diálogo próximo com o governador.

Outra fala recente que foi interpretada como parte da escalada bolsonarista de Tarcísio entre aliados e a esquerda foi quando o governador afirmou, em entrevista a um jornal do ABC Paulista, que daria indulto a Bolsonaro como o primeiro ato caso seja eleito Presidente da República.

Na mesma entrevista, Tarcísio disse não confiar na Justiça e não ver elementos para a condenação de Bolsonaro.


Atos bolsonaristas

  • O tom adotado por Tarcísio na manifestação do último domingo (8/9) destoa de outros discursos feitos em atos bolsonaristas anteriores, em que o governador buscava poupar o STF de críticas mais diretas.
  • Em março, durante ato pró-anistia realizada no Rio de Janeiro, Tarcísio chegou questionar “qual a razão de afastar Jair Bolsonaro das urnas?”. “É medo de perder a eleição, e eles sabem que vão perder?”, respondeu o governador.
  • No mesmo mês, o governador manifestou apoio ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) após o parlamentar afirmar que vai ficar nos Estados Unidos, se licenciar do cargo na Câmara Federal, e defender sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
  • Na manifestação de abril, quando o mote era “Anistia Já” aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023, o governador focou seu discurso na anistia, na liberdade e na democracia, e citou rapidamente a inflação dos alimentos para criticar o governo Lula. Terminou pedindo para o público falar com coro: “Volta, Bolsonaro”.
  • Em seu discurso, o chefe do Executivo estadual classificou a pauta como “urgente” e “humanitária”, mas evitou ataques a outras instituições, como o Supremo Tribunal Federal (STF).
  • À época, ministros do Supremo avaliaram nos bastidores como “contraditório” o comportamento dos governadores de participarem de atos com ataques ao Supremo, ao mesmo tempo que costumam recorrer aos magistrados em busca de ajuda em julgamentos na Corte.
  • Já na manifestação do dia 29 de junho, o governador paulista fez um duro discurso contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas evitou ataques à Corte.
  • Ao lado de Bolsonaro, Tarcísio atacou as tentativas de aumento de impostos e os prejuízos de empresas estatais, como os Correios, e disse que “o Brasil não aguenta mais o PT”.
  • Outro aceno ao bolsonarismo radical feito por Tarcísio ocorreu em 18 de junho, quando, ao lado do prefeito de SP, Ricardo Nunes (MDB), se enrolou a uma bandeira do Estado de Israel — pauta abraçada pela direita brasileira em meio à escalada dos conflitos na Faixa de Gaza.

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