Dark Horse: servidora que assinou aditivo com ONG atua em gabinete do PP
Chefe de gabinete do vereador Murillo Lima (PP) foi a secretária que assinou aditivo ao contrato de R$ 108 milhões entre ONG e prefeitura
atualizado
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A secretária responsável pela assinatura de um termo aditivo ao contrato de R$ 108 milhões entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB) atua atualmente como chefe de gabinete do vereador Murillo Lima (PP), na Câmara Municipal de São Paulo. A ONG foi alvo de uma operação da Polícia Civil na última semana.
A dona da entidade, Karina Ferreira da Gama, é investigada por suposto desvio de dinheiro público a partir do contrato, que prevê o fornecimento de pontos de wi-fi na capital. A empresária também é dona da Go Up Entertainment e produtora executiva do filme Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Além de possível desvio de recursos. a investigação mira uma série de falhas e indícios de conduta ilegal na contratação do ICB, levando ao cumprimento de sete mandados de busca e apreensão, incluindo a sede da Go Up, endereços ligados a Karina, em São Paulo e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT).
A servidora Maiara Carvalho da Silva ocupou o cargo de secretária da SMIT no segundo semestre de 2024, sucedendo o deputado federal Bruno Lima (Podemos-SP), irmão de Murillo Lima. O parlamentar havia assumido a pasta no ano anterior, quando ainda estava no PP, em meio às negociações pelo apoio da sigla comandada por Ciro Nogueira à reeleição do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Em fevereiro de 2025, no início da atual legislatura, Maiara foi nomeada como chefe de gabinete de Murillo Lima, na Câmara Municipal de São Paulo.
Aditivo de contrato
- Assinado em dezembro de 2024 pela então secretária, o termo aditivo com o ICB alterou o cronograma de atividades e de desembolsos previstos no contrato original.
- O plano inicial de pagamentos previa quatro repasses vinculados à assinatura do contrato e ao decorrer das etapas do serviço entre 2024 e 2025. Do total, R$ 72 milhões seriam pagos ainda em 2024 e outros R$ 36 milhões em 2025, totalizando R$ 108 milhões.
- O Tribunal de Contas do Município (TCM), no entanto, constatou que a secretaria não possuía a dotação orçamentária suficiente para o exercício de 2024. Com isso, a alteração feita pelo aditivo serviu para ajustar o fluxo de caixa às reservas no cofre da prefeitura.
- Com o aditivo, foi mantido para o exercício de 2024 o pagamento de R$ 25 milhões, feito em julho daquele ano e referente à fase de estruturação do projeto de instalação das antenas, além de outros R$ 14,2 milhões, em dezembro, já na etapa de implementação. O restante, cerca de R$ 68,8 milhões, foram concentrados em janeiro de 2025.
- Em nota, o vereador Murillo Lima disse não ter conhecimento das deliberações de Maiara Carvalho no período da SMIT “ou qualquer outra relação antes da data da nomeação dela no meu gabinete da Câmara Municipal”.
- Já Maiara afirmou que, à época da assinatura do aditamento, “todos os trâmites administrativos e legais foram devidamente observados“.
- “O instrumento não alterou os valores do contrato, tendo como objetivo apenas a adequação do cronograma de execução e dos pagamentos, de forma a acelerar as implantações previstas e atender às metas da gestão”, completou.
Investigação e operação policial
Karina Ferreira da Gama, dona do Instituto Conhecer Brasil, é investigada por suposto desvio de dinheiro público a partir do contrato assinado com a Prefeitura de São Paulo no valor R$ 108 milhões para fornecimento de wi-fi na capital.
A empresária também é responsável pela produtora Go Up Entertainment, da cinebiografia de Jair Bolsonaro batizada de Dark Horse.
A suspeita de desvio de recursos públicos para abastecer a obra, bem como de uma série de falhas e indícios de conduta ilegal na contratação do ICB, levaram a Polícia Civil a cumprir, na segunda-feira (1º/6), sete mandados de busca e apreensão relacionados a supostas fraudes, incluindo a sede da Go Up e endereços ligados a Karina, em São Paulo.
A apuração teve início após pedido do Ministério Público de São Paulo (MPSP) com base em suspeitas sobre o chamamento público que resultou na contratação. A Polícia Civil ainda destaca que o instituto não tem qualquer experiência ou capacidade técnica no setor de comunicação. O histórico da empresa é limitado à operação de feiras de livros e eventos de natureza literária ou religiosa.
Em relação ao aspecto econômico, a polícia aponta que o Termo de Colaboração foi assinado com valores discrepantes em relação aos praticados pelo mercado. O ICB cobrou pagamento mensal de R$ 1.800 por ponto de internet instalado, valor 3,3 vezes maior do que o cobrado pela empresa pública municipal de tecnologia.
A Polícia Civil também alega que vistorias e análises preliminares indicaram o “descumprimento drástico” das metas acordadas. O cronograma inicial previa a entrega de 5 mil pontos de wi-fi até junho de 2025, mas apenas 3,2 mil foram instalados. Além disso, a Prefeitura de São Paulo antecipou pagamentos no valor de R$ 26 milhões sem a devida contraprestação, incluindo repasses superiores a R$ 11 milhões relativos aos 3.200 pontos, embora somente seis deles estivessem funcionando no período.
Em relação ao filme sobre Jair Bolsonaro, a Polícia Civil aponta possível financiamento cruzado ilícito, já que a produtora do longa é controlada por Karina. Segundo a investigação, há suspeitas de que os recursos públicos da Prefeitura de São Paulo recebidos pelo ICB tenham sido ilegalmente desviados para financiar a obra.
O que dizem os envolvidos
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que colabora com investigações e segue à disposição das autoridades. “Todo o material requisitado na manhã desta segunda-feira já havia sido encaminhado às autoridades e são, desde sempre, de acesso público através da prestação de contas do município”, alegou a gestão de Ricardo Nunes.
“A administração ressalta que o programa funciona normalmente na cidade e pode ser acompanhado em tempo real no link. Por volta das 9h desta segunda-feira, dos 3,2 mil pontos contratados pela prefeitura, apenas 52 estavam off-line e passavam por manutenção. Não houve pagamento por parte da administração para 5 mil pontos. O aditivo em questão é exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados nas comunidades periféricas da cidade”, acrescentou o texto.
A prefeitura também reforçou que realiza a devida prestação de contas e que o contrato com o ICB “seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade”.
“Vale lembrar que o chamamento público, aberto por 30 dias para qualquer entidade interessada, ocorreu em 2024, quando não havia sequer produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado na parceria com o instituto corresponde a R$ 1.280,80 por ponto/mês, significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022 de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês.”
O Metrópoles procurou Karina Ferreira da Gama. O espaço segue aberto para manifestação.












