Coronel barrou trabalho de PM Gisele: “Lugar de mulher é onde o marido quer”
Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto é réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, e por fraude processual
atualizado
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Dois dias antes de ser encontrada morta com um tiro na cabeça, a soldado Gisele Leite Rosa Neto trocou mensagens com o então marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que afirmou que “lugar de mulher é onde o marido quiser”. As conversas, que fazem parte do inquérito policial ao qual o Metrópoles teve acesso, ocorreram no momento em que a policial tentava aumentar a carga de trabalho para complementar a renda.
Nos diálogos, Gisele relata que pretendia assumir mais serviços no batalhão, como plantões extras, para melhorar a situação financeira. A iniciativa, no entanto, foi reprovada pelo oficial, que reagiu com mensagens de teor controlador.
O tenente-coronel ainda reforçou o posicionamento ao afirmar que “lugar de mulher casada é dentro de casa” e que a função da esposa seria de “submissão e obediência ao marido”.
Em outra mensagem, ele diz: “Tem que aprender a economizar e gastar o que o salário permite. Lugar de mulher é em casa cuidando do marido e dos filhos, não na rua. Sossega o facho”.
Gisele, por sua vez, rebateu as falas e defendeu o direito de trabalhar. “Não vou pra rua caçar macho, me respeita”, respondeu. Ela também afirmou que continuaria buscando alternativas para complementar a renda: “Faço sim e vou fazer, já que você não vai ajudar mais. Não tenho problema de trabalhar, não”.
Em outro trecho, o tenente-coronel impôs condições para que a esposa pudesse trabalhar, afirmando: “Se não trabalhar com macho, pode trabalhar, se for com macho, não”. A soldado respondeu que não tinha escolha sobre o ambiente de trabalho: “Sou soldado, não escolho”.
“Macho alfa” e “fêmea beta”
Segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público (MPSP) no dia 18 de março, uma série de mensagens atribuídas ao tenente-coronel Geraldo Neto expõe um comportamento “tóxico, autoritário e possessivo” contra a esposa policial militar, Gisele Santana.
Em uma das mensagens, o oficial descreve, de forma explícita, o modelo de relação que esperava manter. Segundo ele, um marido precisa ser “provedor” e a esposa deve ser “carinhosa e submissa”. Com isso, segundo mensagem atribuída ao oficial, “não tem atrito”.
A denúncia também reproduz frases que reforçam a visão de superioridade do coronel, o qual se autointitula “mais que um príncipe”.
“Sou rei, religioso, honesto, trabalhador, inteligente, saudável, bonito, gostoso, carinhoso, romântico, provedor, soberano”.
Para o MPSP, o conteúdo revela “comportamento machista, agressivo, possessivo, manipulador e autoritário”, incompatível com a versão pública apresentada pelo oficial após a morte da esposa.
Relembre o caso
- A policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada gravemente ferida na manhã de 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido no Brás, região central de São Paulo.
- Ela foi socorrida por equipes do Corpo de Bombeiros e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois, em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo de arma de fogo, conforme o atestado de óbito.
- Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio consumado, mas depois foi alterado para morte suspeita, com “dúvida razoável” de tratar-se de suicídio.
- Com o avanço das análises periciais e a reconstituição da sequência de acontecimentos dentro do imóvel, a Polícia Civil concluiu que a dinâmica do disparo não corresponde à hipótese de suicídio inicialmente apresentada.
- Com base nesse conjunto de elementos, a Justiça autorizou a prisão do tenente-coronel, que passou a responder pela morte da policial militar.
- A Polícia Civil solicitou à Justiça, em 17 de março, a prisão preventiva do tenente-coronel. O pedido sucedeu a conclusão, com base em perícia técnica, de que ele seria o principal suspeito pela morte da esposa.
- A Justiça Militar do Estado de São Paulo decretou a prisão preventiva do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto nessa quarta-feira (18/3). Ele foi preso no mesmo dia em um condomínio residencial de São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
Denúncias de assédio
Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) apontou que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, à época major e comandante do 29º Batalhão da Polícia Militar (29º BPM/M), praticou abuso de autoridade contra uma policial militar subordinada em 2022, evidenciando condutas abusivas contra mulheres dentro da unidade.
Segundo a sentença, o oficial utilizou a posição hierárquica para adotar ações reiteradas de perseguição profissional, caracterizando abuso de poder no ambiente de trabalho. O entendimento foi baseado em provas reunidas no processo movido pela policial.
O caso resultou na condenação do Estado de São Paulo ao pagamento de R$ 5 mil por danos morais, valor considerado pela Justiça como “didático-pedagógico”, com o objetivo de coibir novas práticas semelhantes dentro da corporação.
Feminicídio e fraude processual
A Justiça de São Paulo aceitou a denúncia e tornou réu o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto pelos crimes de feminicídio e fraude processual. O oficial é acusado de matar a esposa policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, no dia 18 de fevereiro.
A denúncia foi oferecida pelas promotoras Ingrid Maria Bertolino Braido e Daniela Romanelli da Silva, no dia 18 de março.
Segundo a promotoria, a acusação formal engloba os crimes de feminicídio qualificado, por ter sido praticado no contexto de violência doméstica e familiar, com circunstâncias agravantes como motivo torpe; e causas de aumento de pena, a exemplo do recurso que dificultou a defesa da vítima.
A denúncia também cita o crime de fraude processual, alegando que o réu alterou a cena do crime para induzir a investigação ao erro.





































