Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
São Paulo

Coronel barrou trabalho de PM Gisele: "Lugar de mulher é onde o marido quer"

Tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto é réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, e por fraude processual

22/03/2026 22:48
Compartilhar notícia
Arquivo pessoal
Homem e mulher em piscina - Metrópoles

Dois dias antes de ser encontrada morta com um tiro na cabeça, a soldado Gisele Leite Rosa Neto trocou mensagens com o então marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que afirmou que “lugar de mulher é onde o marido quiser”. As conversas, que fazem parte do inquérito policial ao qual o Metrópoles teve acesso, ocorreram no momento em que a policial tentava aumentar a carga de trabalho para complementar a renda.

Nos diálogos, Gisele relata que pretendia assumir mais serviços no batalhão, como plantões extras, para melhorar a situação financeira. A iniciativa, no entanto, foi reprovada pelo oficial, que reagiu com mensagens de teor controlador.

O tenente-coronel ainda reforçou o posicionamento ao afirmar que “lugar de mulher casada é dentro de casa” e que a função da esposa seria de “submissão e obediência ao marido”.

Em outra mensagem, ele diz: “Tem que aprender a economizar e gastar o que o salário permite. Lugar de mulher é em casa cuidando do marido e dos filhos, não na rua. Sossega o facho”.

Coronel barrou trabalho de PM Gisele: “Lugar de mulher é onde o marido quer” - destaque galeria
13 imagens
PM Gisele: novos depoimentos podem levar à expulsão de tenente-coronel
WhatsApp de policial morta foi vizualizado quando ela já estava baleada
Gisele foi socorrida e morreu no Hospital das Clínicas
No mesmo dia em que ela morreu, caso passou a ser investigado como morte suspeita
Soldado foi ferida com a arma do marido
Coronel afirma desde o dia da morte da esposa que ela teria se matado
1 de 13

Coronel afirma desde o dia da morte da esposa que ela teria se matado

Arquivo Pessoal
PM Gisele: novos depoimentos podem levar à expulsão de tenente-coronel
2 de 13

PM Gisele: novos depoimentos podem levar à expulsão de tenente-coronel

Arquivo Pessoal
WhatsApp de policial morta foi vizualizado quando ela já estava baleada
3 de 13

WhatsApp de policial morta foi vizualizado quando ela já estava baleada

Arquivo Pessoal
Gisele foi socorrida e morreu no Hospital das Clínicas
4 de 13

Gisele foi socorrida e morreu no Hospital das Clínicas

Arquivo Pessoal
No mesmo dia em que ela morreu, caso passou a ser investigado como morte suspeita
5 de 13

No mesmo dia em que ela morreu, caso passou a ser investigado como morte suspeita

Arquivo Pessoal
Soldado foi ferida com a arma do marido
6 de 13

Soldado foi ferida com a arma do marido

Arquivo Pessoal
Soldado era casada com tenente-coronel, que estava no apartamento no momento do tiro
7 de 13

Soldado era casada com tenente-coronel, que estava no apartamento no momento do tiro

Arquivo Pessoal
A soldado Gisele deixou uma filha de 7 anos, fruto de outro relacionamento
8 de 13

A soldado Gisele deixou uma filha de 7 anos, fruto de outro relacionamento

Arquivo Pessoal
Gisele foi encontrada morta em fevereiro
9 de 13

Gisele foi encontrada morta em fevereiro

Redes Sociais/Reprodução
Coronel barrou trabalho de PM Gisele: “Lugar de mulher é onde o marido quer” - imagem 10
10 de 13

Arte/Metrópoles
Gisele Alves Santana tinha 32 anos
11 de 13

Gisele Alves Santana tinha 32 anos

Instagram/Reprodução
Soldado da Polícia Militar, Gisele Alves Santana foi encontrada morta
12 de 13

Soldado da Polícia Militar, Gisele Alves Santana foi encontrada morta

Instagram/Reprodução
Caso foi tratado inicialmente como suicídio e, depois, alterado para morte suspeita
13 de 13

Caso foi tratado inicialmente como suicídio e, depois, alterado para morte suspeita

Instagram/Reprodução

Gisele, por sua vez, rebateu as falas e defendeu o direito de trabalhar. “Não vou pra rua caçar macho, me respeita”, respondeu. Ela também afirmou que continuaria buscando alternativas para complementar a renda: “Faço sim e vou fazer, já que você não vai ajudar mais. Não tenho problema de trabalhar, não”.

Em outro trecho, o tenente-coronel impôs condições para que a esposa pudesse trabalhar, afirmando: “Se não trabalhar com macho, pode trabalhar, se for com macho, não”. A soldado respondeu que não tinha escolha sobre o ambiente de trabalho: “Sou soldado, não escolho”.

“Macho alfa” e “fêmea beta”

Segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público (MPSP) no dia 18 de março, uma série de mensagens atribuídas ao tenente-coronel Geraldo Neto expõe um comportamento “tóxico, autoritário e possessivo” contra a esposa policial militar, Gisele Santana.

Em uma das mensagens, o oficial descreve, de forma explícita, o modelo de relação que esperava manter. Segundo ele, um marido precisa ser “provedor” e a esposa deve ser “carinhosa e submissa”. Com isso, segundo mensagem atribuída ao oficial, “não tem atrito”.

A denúncia também reproduz frases que reforçam a visão de superioridade do coronel, o qual se autointitula “mais que um príncipe”.

“Sou rei, religioso, honesto, trabalhador, inteligente, saudável, bonito, gostoso, carinhoso, romântico, provedor, soberano”.

Para o MPSP, o conteúdo revela “comportamento machista, agressivo, possessivo, manipulador e autoritário”, incompatível com a versão pública apresentada pelo oficial após a morte da esposa.


Relembre o caso


Denúncias de assédio

Uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) apontou que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, à época major e comandante do 29º Batalhão da Polícia Militar (29º BPM/M), praticou abuso de autoridade contra uma policial militar subordinada em 2022, evidenciando condutas abusivas contra mulheres dentro da unidade.

Segundo a sentença, o oficial utilizou a posição hierárquica para adotar ações reiteradas de perseguição profissional, caracterizando abuso de poder no ambiente de trabalho. O entendimento foi baseado em provas reunidas no processo movido pela policial.

O caso resultou na condenação do Estado de São Paulo ao pagamento de R$ 5 mil por danos morais, valor considerado pela Justiça como “didático-pedagógico”, com o objetivo de coibir novas práticas semelhantes dentro da corporação.

Feminicídio e fraude processual

A Justiça de São Paulo aceitou a denúncia e tornou réu o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto pelos crimes de feminicídio e fraude processual. O oficial é acusado de matar a esposa policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, no dia 18 de fevereiro.

Coronel barrou trabalho de PM Gisele: “Lugar de mulher é onde o marido quer” - destaque galeria
12 imagens
Coronel barrou trabalho de PM Gisele: “Lugar de mulher é onde o marido quer” - imagem 2
Coronel circula pelo imóvel e questiona posição de objetos no quarto
Cabo impede a entrada e alerta que o imóvel está preservado para perícia
Oficial foi acompanhado por amigo desembargador
Oficial ignorou recomendação e cruzou a porta do imóvel acompanhado por policiais
Publicação no Diário Oficial garante salário integral ao coronel, que somou mais de R$ 28 mil, enquanto a PM Gisele recebia R$ 7 mil
1 de 12

Publicação no Diário Oficial garante salário integral ao coronel, que somou mais de R$ 28 mil, enquanto a PM Gisele recebia R$ 7 mil

Reprodução/TJM
Coronel barrou trabalho de PM Gisele: “Lugar de mulher é onde o marido quer” - imagem 2
2 de 12

Reprodução/TJM
Coronel circula pelo imóvel e questiona posição de objetos no quarto
3 de 12

Coronel circula pelo imóvel e questiona posição de objetos no quarto

Reprodução/Polícia Civil
Cabo impede a entrada e alerta que o imóvel está preservado para perícia
4 de 12

Cabo impede a entrada e alerta que o imóvel está preservado para perícia

Reprodução/Polícia Civil
Oficial foi acompanhado por amigo desembargador
5 de 12

Oficial foi acompanhado por amigo desembargador

Reprodução/Polícia Civil
Oficial ignorou recomendação e cruzou a porta do imóvel acompanhado por policiais
6 de 12

Oficial ignorou recomendação e cruzou a porta do imóvel acompanhado por policiais

Polícia Civil/Reprodução
Mesmo orientado a aguardar, coronel insiste em acessar o interior do apartamento
7 de 12

Mesmo orientado a aguardar, coronel insiste em acessar o interior do apartamento

Reprodução/Polícia Civil
Conversas revelam tensão e dificuldade dos policiais em conter superior na cena
8 de 12

Conversas revelam tensão e dificuldade dos policiais em conter superior na cena

Reprodução/Polícia Civil
Coronel barrou trabalho de PM Gisele: “Lugar de mulher é onde o marido quer” - imagem 9
9 de 12

Reprodução/Câmera Monitoramento
Inicialmente, o caso foi registrado como suicídio, mas depois o coronel foi preso e é investigado por feminicídio
10 de 12

Inicialmente, o caso foi registrado como suicídio, mas depois o coronel foi preso e é investigado por feminicídio

Arquivo pessoal
O PM Geraldo Neto (no meio no banco de trás) foi preso em São José dos Campos por feminicídio
11 de 12

O PM Geraldo Neto (no meio no banco de trás) foi preso em São José dos Campos por feminicídio

Reprodução/TV Globo
O tenente-coronel Geraldo Leite e a PM Gisele Alves Santana
12 de 12

O tenente-coronel Geraldo Leite e a PM Gisele Alves Santana

Reprodução/Redes sociais

A denúncia foi oferecida pelas promotoras Ingrid Maria Bertolino Braido e Daniela Romanelli da Silva, no dia 18 de março.

Segundo a promotoria, a acusação formal engloba os crimes de feminicídio qualificado, por ter sido praticado no contexto de violência doméstica e familiar, com circunstâncias agravantes como motivo torpe; e causas de aumento de pena, a exemplo do recurso que dificultou a defesa da vítima.

A denúncia também cita o crime de fraude processual, alegando que o réu alterou a cena do crime para induzir a investigação ao erro.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles SP

Frequência de envio: Diário

Ver todas as newsletters