Coronel disse que não ajudaria financeiramente esposa PM em separação
Coronel disse que mandava R$ 2 mil mensais para esposa cuidar da filha dela, de 7 anos, mas que cessaria o pagamento em caso de separação

O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso acusado de matar a esposa policial militar Gisele Santana com um tiro na cabeça, afirmou em depoimento que mandava R$ 2 mil por mês para a companheira e que, em caso de separação, não iria mais continuar ajudando financeiramente.
Segundo o inquérito policial obtido pelo Metrópoles, o coronel afirmou que gastava R$ 7 mil para manter o apartamento em que morava com a soldado e com a filha dela. O pagamento de R$ 2 mil seria para Gisele manter a criança de sete anos.
O documento policial também aponta que o coronel usava da melhor posição hierárquica (leia mais abaixo) e do salário para “controlar” a mulher. Ele exigia sexo com Gisele, com o argumento de que era o “provedor” da casa, contribuindo com dinheiro.
No último dia 2 de fevereiro, o casal teve uma discussão por mensagens. Em um dos envios, o coronel diz que o casamento é uma “via de mão dupla” e que, enquanto ele contribuía com dinheiro, ela deveria retribuir com sexo.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles SP“Casamento é uma via de mão dupla, os dois têm que contribuir pra dar certo. Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo”, escreveu Geraldo Neto.
Na troca de mensagens, Gisele Santana não aceita a alegação do marido, dizendo que não vai trocar sexo por moradia, e sugere uma separação. Posteriormente, Geraldo Neto cita uma ocasião em que ia levar a companheira para jantar para “fazer amor” depois.
As mensagens também expõem que o tenente-coronel reclamava do tempo que a mulher passava com a filha de sete anos. “Não tenho vida sexual ativa, porque minha esposa só tem tempo e dedicação para a filha.”
“Macho alfa” e “fêmea beta”
Segundo a denúncia oferecida pelo Ministério Público (MPSP) no dia 18 de março, uma série de mensagens atribuídas ao tenente-coronel Geraldo Neto expõe um comportamento “tóxico, autoritário e possessivo” contra a esposa policial militar, Gisele Santana.
Em uma das mensagens, o oficial descreve, de forma explícita, o modelo de relação que esperava manter. Segundo ele, um marido precisa ser “provedor” e a esposa deve ser “carinhosa e submissa”. Com isso, segundo mensagem atribuída ao oficial, “não tem atrito”.
“Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”, escreveu Geraldo Neto.
A denúncia também reproduz frases que reforçam a visão de superioridade do coronel, o qual se autointitula “mais que um príncipe”.
“Sou rei, religioso, honesto, trabalhador, inteligente, saudável, bonito, gostoso, carinhoso, romântico, provedor, soberano.”
Para o MPSP, o conteúdo revela “comportamento machista, agressivo, possessivo, manipulador e autoritário”, incompatível com a versão pública apresentada pelo oficial após a morte da esposa.
Morte de PM levou à prisão de tenente-coronel
- A policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada gravemente ferida na manhã de 18 de fevereiro, dentro do apartamento onde vivia com o marido no Brás, região central de São Paulo.
- Ela foi socorrida por equipes do Corpo de Bombeiros e levada pelo helicóptero Águia da PM ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois, em decorrência de traumatismo cranioencefálico provocado por disparo de arma de fogo, conforme o atestado de óbito.
- Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio consumado, mas depois foi alterado para morte suspeita, com “dúvida razoável” de tratar-se de suicídio.
- Com o avanço das análises periciais e a reconstituição da sequência de acontecimentos dentro do imóvel, a Polícia Civil concluiu que a dinâmica do disparo não corresponde à hipótese de suicídio inicialmente apresentada.
- Com base nesse conjunto de elementos, a Justiça autorizou a prisão do tenente-coronel, que passou a responder pela morte da policial militar.
- A Polícia Civil solicitou à Justiça, em 17 de março, a prisão preventiva do tenente-coronel. O pedido sucedeu a conclusão, com base em perícia técnica, de que ele seria o principal suspeito pela morte da esposa.
- A Justiça Militar do Estado de São Paulo decretou a prisão preventiva do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto nesta quarta-feira (18/3). Ele foi preso no mesmo dia em um condomínio residencial de São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
- No dia seguinte, 19 de março, também o Tribunal de Justiça (TJSP) confirmou a prisão preventiva.
Uso da posição hierárquica
A decisão da Justiça Militar que prendeu o Geraldo Neto aponta que o tenente-coronel teria usado sua posição hierárquica — superior à dos policiais presentes no local do crime, além do fato de ser o oficial mais antigo — para ignorar a recomendação de não tomar banho durante a ocorrência. Segundo a decisão do TJM que determinou a prisão do coronel, ele atuou para “impor sua vontade e efetivamente tomar banho novamente, mesmo diante da resistência manifestada pelos policiais responsáveis pela ocorrência”.
O exposto na decisão judicial desmente a versão apresentada pelo coronel anteriormente, quando ele alegou que não havia recebido nenhuma orientação quanto ao segundo banho.

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Ver todasEle não se valeu de sua posição hierárquica na corporação apenas no dia do crime, mas também como instrumento de dominação e violência contra a esposa Gisele Alves Santana no dia a dia do relacionamento.
Testemunhas ouvidas pela investigação contaram que o oficial ia frequentemente ao local de trabalho da vítima e usava de sua autoridade para entrar e permanecer por longos períodos observando as atividades dela, causando até constrangimento à equipe. Além disso, o tenente-coronel teria proibido a mulher de trabalhar com colegas homens e menosprezava a posição da esposa, dizendo que ela deveria “arrumar um soldado” [em vez de ter se casado com um coronel].
Ele já havia sido condenado por abuso de autoridade contra uma subordinada por um episódio de 2022, quando ainda era major e comandante do 29º Batalhão da Polícia Militar (29º BPM/M).






















