Como SP quer equiparar alunos dividindo turmas por nível de aprendizagem
Projeto piloto iniciado este ano vai funcionar em 147 escolas e visa auxiliar alunos com nível de defasagem grande
atualizado
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Um projeto piloto da Secretaria Estadual da Educação quer enfrentar a defasagem de aprendizagem dos alunos das escolas estaduais separando estudantes do mesmo ano em turmas diferentes de acordo com o nível de conhecimento deles.
Anunciada pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), a ideia, que ganhou o nome de Projeto Voar e é inspirada em um projeto indiano, já está sendo colocada em prática em 147 escolas estaduais, e contará com uma parceria com a Universidade de Harvard para avaliar seus resultados.
A gestão diz que a iniciativa visa auxiliar estudantes que não conseguem acompanhar suas turmas porque possuem nível de aprendizagem atrasado em relação aos colegas. São alunos que avançaram de ano, mas apresentam uma distorção entre a série que estão e o conhecimento que possuem.
“Hoje, quando um professor de 9º ano, por exemplo, entra numa sala de aula, ele tem estudantes com necessidades de aprendizagem muito diferentes. E, para o professor, numa aula de 50 minutos, é quase impossível atender de forma adequada esse grupo tão heterogêneo. Uma parte desses estudantes ainda mal superou o 5º ano. Eles têm uma defasagem de até três anos”, diz Mauro Romano, que está à frente do projeto na Seduc.
Ele diz que a meta do projeto é criar condições para que o professor possa adaptar a aula pelo chamado “nível de proficiência” dos alunos e, assim, ajudar o estudante a recompor déficits de aprendizagem para que, num futuro breve, eles alcancem o nível esperado para sua série.
Como funciona projeto na prática?
- Para separar as turmas no início deste ano, cada escola se baseou no desempenho dos estudantes em Língua Portuguesa e Matemática na edição do Saresp de 2025.
- Os alunos foram divididos entre aqueles que pontuaram de acordo com o esperado, a “turma nível padrão”, e aqueles que apresentaram defasagens consideradas altas ou médias, a “turma nível adaptado”.
- A secretaria afirma que a evolução dos alunos será monitorada ao longo do ano, e eles poderão mudar de sala ao atingirem o nível esperado.
- Subsecretário pedagógico da Educação, Daniel Barros diz que o conteúdo dado para as diferentes turmas será o mesmo, mas em “ritmos diferentes”.
- “É o mesmo currículo, só que ele é mais devagar [para uma turma]. Então, vai demorar mais tempo para cobrir o mesmo conteúdo. […] Os alunos não vão aprender coisas diferentes. Vão aprender o mesmo conteúdo, só que em um outro ritmo.”
O projeto está sendo aplicado em unidades onde o problema da distorção série-aprendizagem é mais crítico, de acordo com o governo, em cidades da região metropolitana, interior e litoral paulista. Entre os municípios com escolas que adotarão o modelo estão Osasco, São José dos Campos e Santos. Na capital, unidades da zona sul da cidade foram escolhidas.
Risco de estigma
O Metrópoles questionou o subsecretário sobre o risco de que os alunos da turma com currículo adaptado sejam alvo de bullying, sendo estigmatizados pelos colegas.
“Existe um risco de estigma? Existe. Não vou te dizer que não existe nenhum risco. A gente visitou escolas que tinham estratificação, e a gente percebe que, às vezes, os estudantes falam que essa ‘é a classe dos bagunceiros’. Mas eles [os outros alunos] também dizem que, naquela classe, conseguem aprender mais do que antes porque, antes, o ritmo estava muito rápido e eles não conseguiam acompanhar”.
Daniel alega, no entanto, que as escolas estarão focadas em combater este problema, e que os estudantes com defasagem de aprendizagem já sofrem estigma quando não conseguem acompanhar os demais em um cenário convencional.
Segundo Mauro, os alunos com nível atrasado também tendem a se desengajar dos estudos ao longo dos anos, no modelo tradicional. “Fica muito visível que, com o passar dos anos, esse percentual de estudantes que não conseguem acompanhar a aula aumenta muito”.
A pasta diz que a maior defasagem da rede está hoje entre os alunos do 9º ano, onde estima-se que 70% dos estudantes estejam no nível de aprendizagem abaixo do esperado em matemática. Entre os estudantes do 6º ano, esse percentual seria em torno de 45%.
Para avaliar o resultado do projeto, a secretaria fará avaliações com os alunos. A primeira delas está sendo feita agora, e vai basear as comparações com as próximas. As seguintes devem acontecer entre junho e agosto, e em novembro.
Os resultados das avaliações serão encaminhados para pesquisadores da Universidade de Harvard, que acompanharão todo o projeto. A ideia é que, ao final, o governo possa avaliar uma ampliação ou não do modelo.
O governo diz que o programa é inspirado na metodologia “Ensino no Nível Adequado”, em inglês Teaching at the Right Level, aplicada na Índia e que agrupa estudantes de acordo com seus níveis de aprendizagem. O modelo é considerado um sucesso no país.








